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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Telefone [parte 10]

Meses de hiato. Marcelo era outro, mas continuava com suas peculiaridades básicas; aquelas de pensar demais, fazer de menos, alimentar a frustração, o embaraço, a autopiedade. A vida mudara muito nos últimos meses, é verdade; conseguia fazer planos mais otimistas, mas a luta para enxergar o fim da linha - no bom sentido, de chegada - era sempre vã.

Filó continuava saudável, soltando pêlos por toda casa. Marcelo cansou dele, ligou para Sandra, pediu que buscasse o gato, que o levasse de volta, porque ele alimentava sua melancolia sem piedade.

- Ele foi um presente. Você vai me devolver um presente, Mau? - disse, meio indignada, meio doce, totalmente indecifrável.
- Sandra, eu odeio esse gato! - emendou Marcelo com a voz já alterada.

E lembrou que sempre gostou de cães, lia sobre raças, falava de uma frustração infantil... mas a ex deu-lhe o gato preto de olhos verdes e vivos, num cesto, com uma fita xadrez no pescoço. No primeiro segundo, Marcelo já o odiou. Sandra não foi complacente.

- Posso fazer nada. João não gosta de gato - completou, seca. Agora sim, seca!

Marcelo ficou em silêncio por um minuto. Precisava perguntar, não tinha coragem, mas nem sabia se ainda se importava com a confirmação do que temia.

- Quem é João, Sandra?

Ouviu um silêncio do outro lado. Sandra, psicóloga formada, vivida, experiente, sabia que o ex-"namorido" era, no fundo e no raso, um homem possessivo. Sentou-se no sofá, pôs uma almofada no colo, apoiou os cotovelos e respirou fundo:

- Meu novo atual - disse Sandra, num segundo. Fechou os olhos, esperou a pior reação.

Marcelo esperou sentir o mal estar que começa no estômago, sobe pelo corpo e dá um formigamento na cabeça, principalmente na nuca. Para ele, era o sintoma do brio ferido, do ego atingido, do ciúme. Mas nada. Magicamente, percebeu que Sandra não fazia mais sentido. Pensou em como o sentir das coisas muda, como o sentimento morre. Pensou rápido no que responder, controlou o tom da voz para ser natural, o mais normal possível. Era o que sentia.

- Bem, então não vejo outro destino senão a adoção. Se você tiver outra solução, ligue. Um beijo.

Esperou a despedida e desligou. Esperou de novo, o mal estar não veio. "Estou curado".

Foi a primeira vez em uma longa temporada pantanosa que Marcelo se sentiu livre. Ter enterrado Sandra o fez aliviar. Deitou na rede, esticou bem a coluna e procurou Filó em cima do puff de couro. Ele respirava fundo, cochilando, mas dessa vez não encheu o peito de dono de melancolia. Marcelo começava a ser livre de novo.






[continua...]

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Construção [parte 9]

Filó, sentado perto da quina da parede, olhava fixamente para o nada. Da poltrona, tentando ler um livro de 860 páginas pela trigésima vez, Marcelo dividia atenção entre a história da eugenia norte-americana (em "A guerra contra os fracos", de Edwin Black) e o gato, que parecia observar o que só ele via. Acendeu um cigarro e a brasa fez o bicho mudar de foco. Agora fitava copiosamente a ponta reluzente, que fumaçava.

- Bicho tosco! - reclamou, alto, sem motivo. Filó não se mexia.

Marcelo abriu uma garrafa de vinho barato, um Quinta do Morgado, que ele havia trazido do supermercado na noite anterior. Bebia sem gosto, folheava a eugenia e tentava se concentrar. Pensava em Ana, nas pautas da semana seguinte, em Sandra e nas contas a pagar. Queria viajar, mas nunca se dava ao direito a uma passagem para o aleatório. Tudo na sua vida era milimetricamente pensado, refletido. Ora, acertado; ora, chato.

Preencher a vida de utilidades vinha sendo o grande objetivo daquele ano novo. Marcelo retomou projetos empoeirados, tentava ler livros encalhados, tirou da lista (e pôs na prática) a intenção de recomeçar uma atividade física. Perdeu peso (na barriga e na consciência) e prometeu a si mesmo que perderia ganharia mais tempo em frente ao espelho, observando a si mesmo. Estava em busca do melhor e mais fiel autorretrato que pudesse fazer. Autoconhecimento - ele decidira - era o caminho certo para livrar-se de si mesmo.

Do dia seguinte, acordou cedo para experimentar outro horário; foi para a academia e aumentou a velocidade da esteira, para experimentar outro pique. Mudou tanto que ficou sem ar, ofegante, com o coração a mil. Era bom para sentir-se vivo em meio àqueles que morrem ao seu lado. Porque Marcelo construía castelos demais, com cada vez mais frequência; mas com bem menos piedade, era capaz de matar. Agora, ele, que se acostumou por toda a vida a se interessar por migalhas, passava a exigir sempre a primeira leva, o melhor corte, o tipo exportação. Sem outras condições.

Fora imposição, ele sabia. Era a vida, mas era uma condição artificial. Ele tentava odiar, porque não podia amar; tropeçava como se ouvisse música, agonizava no meio do passeio náufrago. Pensava em desistir, embora ainda desejasse. Mas quem se importa? Antes de tudo, amou daquela vez como se fosse a última. E se fosse? O problema é que, para ele, havendo poréns, havia também poucos meios termos.




E se fosse?

[continua...]

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Curta e silenciosa [parte 8]

"Eu gosto das coisas complicadas. Gosto daquilo que não posso ter, do inferno, do escuro, do amargo. O cálido já não me interessa, já não tenho ilusões, somente o que me resta e o que entendo como delírios..."

Uma caneta tinteiro repousava sobre as linhas escritas pela madrugada adentro. Insônia. O estômago ardia numa azia e Marcelo abria os olhos numa brecha. Naquela sexta, ele sentia uma enorme preguiça de viver. O vazio era exponencial, a dor era anestesia e o indiferença era grande por tudo. E todos.

Maíra dava conselhos, ouvia pacientemente, brigava com ele, mas Marcelo só conseguia ter as velhas ideias fixas. Queria deixar o apartamento de 50 m², queria que Ana lhe desse um sorriso, mas a indisposição era tão grande que dava de ombros a tudo. Nem azedo ele estava mais; já parecia aguado. 

Marcelo não sabia, mas despertava desejos. Seu ar superior, a testa enrugada, o jeito soberbo afastava uns, fascinava outros. A maioria achava que Marcelo era do tipo austero, mas na verdade ele não mandava nem mesmo nele. Aliás, em nada. Até a sala de casa ficava sob domínio de Filó, o gato persa preto de olhar penetrante que ele evitava. Marcelo pensou em suspender a ração do bicho; quem sabe assim ele iria embora de vez, por instinto. Mas nada. Era mesmo incapaz de matar aquilo que o incomodava. 

Foi para o banho para chorar, mas acabou esquecendo, lendo o rótulo do novo shampoo. A angústia desceu pelo ralo.

A azia aumentava. As refeições mal feitas causavam-lhe arrotos ácidos e um acúmulo de gordura abdominal.  E como o mundo está aí para desfazer as nossas impressões, enquanto ele se sentia um dejeto vivo, algumas mentes pensavam nele - para o bem. Outras poucas para o mal, somente porque é necessário haver essa dualidade, mesmo que ela não nos pareça conscientemente. Marcelo não via o óbvio, mas queria entender o prolixo. Lixo.

(continua...)
(nota: "Tropicália" foi pensada como acompanhamento, mas a massa desandou)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Barroco [parte 7]

Os ouvidos de Maíra eram, há anos, o grande alívio de Marcelo.  Ela tinha a divina capacidade de ouvir, dedicava tanta atenção que seus olhos nem piscavam. Algumas vezes balançava a cabeça e esperava que ele terminasse um pensamento para interpelar. Em geral, "dava a real":

- Você sabe que está errado, né?

Para Marcelo, tudo o que saía da boca de Maíra merecia atenção. Ele ouvia, pensava e, quase sempre, ela estava certa. Todas as vezes em que se encontravam, duas a três (até quatro) vezes por semana, ele voltava para casa em paz. E isso acontecia porque o que os unia era, pura e simplesmente, um forte laço de amizade. De outras vidas, talvez. Um amor fraternal imenso que os fazia cúmplices, confidentes, companheiros. Amigos.

Mas nem sempre foi assim, com tanta paz. Passaram por crises, brigaram, e ouvir palavras duras da boca de Maíra davam uma sensação física de corte, na pele, em Marcelo. Ela sabia, fizera isso algumas vezes e em todas elas viu o amigo chorar. Mas Maíra era muito amor. Era o amor.

Naquela noite, deixou-a em casa, ganhou um puxão na orelha direita e um beijo e foi. Deitou para dormir leve. Há tempo não sentia isso, essa vontade de viver, de pensar. Percebeu que conseguia refletir sobre sua vida sem dor, listava o que tinha, tudo o que conquistara até ali. E, como era de hábito, pensava em quem cruzara suas horas nesta vida, das poucas pessoas que tinha deixado para trás. Marcelo era extremamente ligado ao humano, piedoso, penava, sofria, chorava, carregava pesos e tudo mais que cabe a esse tipo de indivíduo. Mas era leveza o que ele sentia naquele momento, na penumbra do quarto. Pensava nos pais, nos irmãos, no privilégio de ter conhecido todos os avós, duas bisavós, de ter passado poucas vezes pela morte (e por aceita-la com tranquilidade), por ver longevidade e saúde nos seus. Em instante assim, pensava em Cecília Meireles, que viveu muitas perdas físicas. Se ele também fosse escritor, não teria na morte uma fonte de inspiração, assim, tão forte, como ela.

Marcelo era de amizades forte, antigas. Os seus tinham por ele grande afeição. Era querido, embora não fosse fácil. De fato, Marcelo era um poço de contradições. Barroco, nele conviviam o amor e a indiferença (lhe ensinaram que o oposto do amor não é o ódio), a vida e o fim (não a morte), a certeza e a dúvida, a beleza e a insegurança, o rancor e a piedade, o futuro e uma dose grande de passado.

Mas, naquela noite, ele era paz.


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

CVC [parte 6]

Há dias Marcelo estava inquieto. Sentia-se em um momento de letargia porque não via sentido em nada que havia construído até ali. Ele tentava falar sobre o vazio com alguns amigos, mas só ouvia que ele pensava demais e deveria relaxar. De Maíra, Marcelo ouvia coisas mais contundentes, mais inquietantes.

- Você precisa ler mais. Precisa se soltar mais desses conceitos velhos, caducos.

Marcelo sabia que Maíra tinha razão. Ele sentia que há anos não tinha sossego, que as coisas eram mais pesadas do que ele gostaria. Leveza era algo que andava longe. Resolveu que deveria "arrumar" alguém. Olhou em volta, na redação, e só viu as mesmas pessoas de sempre, suas conversas de sempre, suas agruras e limitações de sempre. Muitas vezes quis chorar, lamentar pela solidão, mas preferia contentar-se com sua própria companhia e de alguns poucos amigos.

Naquela tarde, Marcelo quis terminar logo as obrigações e sair cedo. Desceu da redação com o dia ainda claro, andando pelo bairro antigo onde ficava o jornal. Não sabia exatamente o que fazer com aquele tempo e desejou ter alguém que pudesse decidir para ele aonde ir.



Entrou no shopping center vizinho, passou em frente a uma agência de viagens. Paris, Salvador, Cancun, Rio de Janeiro, "Ilhas gregas em cinco dias", "um fim de semana em Gramado". Seu nível de tédio subiu. Marcelo detestava clichês, como a muitas outras coisas. Suspirou fundo. Apanhou um panfleto e dirigiu-se à funcionária da loja:

- Tem algum roteiro para uma viagem diferente, Leila? - disse, lendo o nome da moça de cabelos tingidos e nariz pequeno.
- Temos todo tipo de pacote, senhor - Leila respondeu, em meia voz.
- Algum para a África? - arriscou.
- Não, senhor. Não trabalhamos muito o turismo exótico. Mas temos excelentes promoções para Miami e Orlando.

Marcelo sentiu uma pontada no estômago.

- E o que há de bom lá? - rebateu, no deboche, fingindo interesse.
- O senhor pode levar os filhos para a Disney. Parcelamos em 12 vezes sem juros - ela retrucou, estendendo um panfleto.
- Ótima sugestão, Leila. Vou avaliar.

Saiu pensando como alguém que tenha filhos (assim, no plural, seriam quantos? Dois? Seis?) pode ter também coragem de sair com eles do País.

- Doze vezes?

Viu um novo café no shopping. Hesitou sentar ali porque isso, com certeza, o faria pensar, mas não resistiu ao vício da cafeína. Deixou-se sentar, abriu o cardápio, olhou demoradamente, pediu o de sempre.

- Um capucchino grande, por favor. Com o dobro de canela e sem açúcar.

Olhou para o panfleto:

- Nossa... Bariloche, Buenos Aires... - pensou, amassando o panfleto.

Estendeu a vista à frente e viu uma moça sentada. Parecia impaciente, balançava o pé pendurado da cruzada das pernas. Olhava o relógio de pulso, e adiante.

(continua...)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A que será que se destina? [parte 5]

Era terça, mas Marcelo estava tão cansado que se sentia como numa repetitiva segunda-feira. Havia chegado em casa moído, deprimido, exaurido e vazio. Abriu a porta do apartamento, viu a samambaia seca na varanda. Com o vento, as folhas se espalhavam pelo chão. No puff de couro, debaixo da samambaia morta, dormia Filó. Poderia matá-lo também.

Sentando no sofá, ele esticou as pernas que doíam pelas intermináveis horas sentado. Os dias na redação estavam cada vez piores, repetitivos, e embora ele gostasse, já faltava tesão. Tensão. Custava a pensar, estava aéreo, tenso, distante. Os amigos já reclamavam. Os mais chegados diziam que Marcelo estava ali só de corpo, mas era difícil pra ele explicar. "Não, eu não tenho nada", dizia. Tinha, embora não soubesse.

Entrou na cozinha, abriu a geladeira. Era a visão da sua depressão: dois ovos que ele não tinha ideia de quando chegaram ali, um pacote de queijo parmesão ralado, aberto há décadas, maçãs já murchas de tão esquecidas e uma garrafa de água. Meio vazia. Só faltavam as pilhas. Suspirou e desistiu de jantar. Foi tomar banho.

Marcelo não tomava banho frio. Fosse qual fosse a temperatura do dia, puxava o chuveiro pro modo "inverno" e curtia o vapor d'água embaçando o vidro do box. Pensava na vida, ou chorava, ou cantava. Esperava que dali, daquele momento solitário, ele chegasse em soluções, em ideias. Mas nada. Nada de compreender seus próprios porquês, sua própria existência, seus sentidos. 

Fechou a água. Abriu uma garrafa de vinho tinto seco, chileno, de preço médio. Buscou uma taça. Puxou um LP da estante, pôs na radiola, acendeu um cigarro. Pôs-se a ouvir Gil.


 [continua...]

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Desalento [parte 4]

Marcelo era um perdido. Continuava a ser, como nunca. Perdia a chave todo dia pela manhã, perdia a hora sempre e, vez por outra, queria perder o juízo. Esquecer o bom senso não era bem seu forte e, exato por isso, não se considerava alguém que merecesse mesmo confiança. "Imagine quando chegar o surto? Mato alguém", refletia, sem querer, vez por outra, geralmente antes de dormir.

Dormia tarde, invariavelmente, por mais que houvesse sono. Talvez por castigo.

Vivia o dilema do vazio. Tinha a cabeça cheia, a agenda abarrotada, planos mil e reflexo zero. De um tempo pra cá, pouca coisa o inspirava. Depois de Sandra, abandonara o desejo por filhos (talvez uma maneira certa, mas pouco certeira, de propagar a si mesmo); depois do domingo, queria deixar de viver alguns instantes, mas não chegava a ser um suicida. Ainda assim, pendia para o pessimismo, mas nem mesmo a sua depressão era constante. Que fosse. 

Se fosse mulher, por certo teria menstruação irregular, TPMs periódicas e perigosas e um latente ímpeto pelo crime passional. "Matar por amor" - ele pensava - "é das coisas mais femininas que existe". Toda mulher mata, raciocinava ele. Se não tem coragem de puxar o gatilho por amor ao falo, mata a si mesma: por paranoia, de ciúmes, de fraqueza, excesso de si ou falta de amor próprio.

E se morre mesmo disso.

[continua...]


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Fila de cinema [parte 3]

Marcelo pensava sobre o amor, em um sábado à tarde. Chegando do plantão no jornal, esticou a rede na varanda, pôs Oswaldo na radiola e ficou balançando com a ponta do dedão esquerdo. Olhando pro teto, pensava na vida. Havia um projeto, uma causa, um motivo? Não tinha resposta. Tentou cochilar, não conseguiu. Pensou em levantar, a preguiça não deixou.

Deixou-se ficar mais um tempo no ócio. Aliás, ócio era uma coisa condenada internamente por ele. Marcelo exigia demais dele mesmo, tinha pouco tempo para o nada, mas acumulava tanta coisa que não fazia nada com a qualidade que desejava. Sandra, a do racha, reclamava o tempo todo da pilha de atividades que ele insistia em aumentar. Mas Marcelo só sabia viver assim, acelerado, movido à adrenalina do dead line, do prazo apertado, da vida que corre, que passa sem ser vista.

Na verdade, não era assim desde o início. Marcelo, quando interpelado por Sandra, confessava que era vagaroso, preguiçoso convicto, daqueles que dormem sem culpa por horas e derrubam o despertador num tapa. Embora lembrasse de cobranças paternas, que o crucificavam por sua preguiça como a Santa Inquisição aos pecadores, ele mantinha algo disso ainda em si. Juntando a aceleração das intenções ao ritmo lento das atitudes, adivinhe? Resultado quase sempre nulo. Planos demais, ideias demais para resultados de menos. Protelar era seu hábito.

Terminou o sábado no cinema, sozinho, como era de seu feitio. Marcelo aprendeu a não depender dos outros e obrigava a si a condição de autossuficiente. Era uma independência patológica. Na fila, com ingresso em uma mão e um saco de pipocas na outra, pensava nisso: em como a vida o ensinou a lição de ser sozinho. Lembrou de quando ficou horas debaixo do chuveiro frio, com febre, querendo evitar pedir remédio à avó. Lembrou de quando andava quilômetros de casa para o cursinho, simplesmente para não pedir ao pai que lhe cedesse passagem. Mas a vida até ali o guiava assim. Talvez fosse um caminho sem volta.

Sozinho, ele chamava atenção dos casais por perto. As pessoas criaram uma mística sobre isso. Ir sozinho ao cinema é a materialização pública da solidão que ninguém quer admitir que tem. Nas duas ou três primeiras vezes, ele até sentiu uma dorzinha entre o coração e o estômago, uma angústia de não saber onde pôr as mãos, mas conseguiu domar a si mesmo. A partir dali, ia sem muita dor.






Sim, mas naquela tarde, ele ainda pensava sobre o amor.


continua (...)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Lojas Americanas [parte 2]

Brasileiros têm até amanhã para fazer a declaração do Imposto de Renda (IR)...

- Não! Tá péssimo! - Marcelo resmungava logo pela manhã, batendo mais uma de suas matérias corriqueiras. Imagine que, do alto de sua maturidade profissional, ele já não sentia tesão pela coisa. Refiro-me ao Jornalismo: Marcelo tentava insistentemente manter a acesa a chama daquela relação. Alguma coisa tinha que funcionar. Sandra já rachara.

Marcelo mudou-se do apartamento de Sandra, na Encruzilhada, para um alugado, de pouco menos de 50 m², no centro da cidade. Procurava um imóvel que tivesse varanda, queria ter espaço para pendurar a samambaia e uma porta para fechar quando não quisesse assistir aos banhos de Filó.

- Preciso me livrar desse gato - pensou, olhando o bicho ronronar num sono de fim de tarde. Via Filó dormindo e sua angústia aumentava. A cena ganhava uma trilha sonora mental automática, na cadência de Dorival Caymmi:

Um pescadô tem dois amô/
Um bem na terra, um bem no mar...

Bateu as mãos nos braços da poltrona e saiu. Precisava respirar. Entrou no shopping, conferiu a programação do cinema. Nada agradou. Entrou nas Lojas Americanas e perdeu quinze minutos escolhendo filmes. Comprou dois, duas garrafas de Stella Artois e Doritos. Olhou as informações do pacote, mania que aprendeu com Sandra, antes do racha.

- Aquela surtada... - resmungou baixo, lembrando o hábito da ex-namorada. Sandra vivia de dieta e dizia que comia mal. Marcelo traduzia que Sandra se sentia mal comida. Na mesma hora, lembrou de Chico Buarque:

...tanto homens me amaram/
Bem mais e melhor que você...

Marcelo tinha surtos esquizofrênicos de ciúmes. Duravam cinco minutos e uma vontade assassina. E passavam. Era um homem controlado, achavam os terceiros.

Pagou as compras, voltou pra casa. Filó continuava no mesmo lugar. Marcelo parou para observar se o bicho respirava. Torcia encontra-lo morto. Acordou do transe maléfico, colocou as sacolas em cima do balcão da cozinha. Parou para ler as sinopses:

- Se assistir isso agora, não acordo vivo segunda.

Passou pela sala rápido, sem olhar para Filó. Passou para o quarto.

- Mau, vamos ver um filme na Fundação. De lá, saímos para comer pizza e você me conta o que houve - propôs uma amiga ao telefone.

Sem muita saída para livrar-se daquele marasmo vespertino de domingo, Marcelo aceitou o convite. Maíra era amiga da escola, conhecia-o desde os 15 anos e já fora ombros muitas vezes até ali - mas não seria mais uma. Maurício não tinha a menor vontade de chorar.

Tomou uma ducha, colocou uma roupa clara, sandálias, e sentiu-se leve. Passou pela sala e fitou Filó, que se espreguiçava da soneca. Censurou o pensamento e saiu sem chavear a porta. Sentou no carro, abriu a disqueteira e foi buscar Maíra em casa.

- Tais ouvindo essa merda de novo? - ela gritou, entrando no carro, puxando-o pela ponta da orelha direita e dando um beijo no rosto. Fazia sempre isso.
- Eu gosto de Oswaldo, porra. Muda aí...

Maíra diminuiu o volume e deixou Oswaldo continuar.

- É um filme russo, em russo, com legendas em inglês. Um russo que vive em depressão em um apartamento no centro de Moscou. - disse Maíra, descrevendo o enredo de logo mais e limpando o rímel do canto do olho. Marcelo achou uma ironia de mau gosto.


ENREDO Russo em depressão
Compraram um saco de pães de queijo e dois copos de mate. O filme começa com um gato olhando-se fixamente no espelho. Marcelo virou para Maíra, talvez para protestar. Ela olhava para a tela, mascando um pedaço de pão de queijo. Ele tirou o iPhone do bolso, colocou os fones nas orelhas, escondidos debaixo dos cachos do cabelo, e ligou Oswaldo.

- Puta que pariu..

Duas horas e 56 minutos e meia eternidade depois, o filme termina. Na última cena em que Marcelo estava de olhos abertos, o mesmo gato lambia a pata direita em primeiro plano. Atrás, uma foto de uma velha. Marcelo fechou os olhos e não abriu mais.

- Dormisse o filme todo! - reclamou Maíra, descendo as escadas.
- Nada disso. Estava refletindo sobre solidão...
- Viu que sensibilidade? Achei a luz do filme de uma melancolia transcendental...
- Onde vamos comer? - perguntou Marcelo, cortando o momento pseudocult da amiga.
- Vamos no Alfredo!

Alfredo era uma pizzaria pé de chinelo no centro da cidade. Comiam lá desde a época da escola. Marcelo sentou meio impaciente. Maíra pediu o de sempre: meia havaiana, meia lombo canadense. E coca-cola.

- Diz. Por que se separaram? - começou a moça, com os cotovelos apoiados na mesa.

Marcelo não acreditou na pergunta. Olhou firme para as sardas que pingavam pelo rosto de Maíra. Vislumbou um liga-pontos.

- Ah, fala sério. Não dava mais... - tergiversou.
Ela, interrompendo: - Era um lar, Mau...
- Eram duas pessoas que não se suportavam, não se falavam, não se comiam e criavam um gato. Tá mais pra campo de concentração - disse, num passo acelerado. Maíra conhecia aquele tom e mudou de rumo.

- E o apartamento?
- É dela...
- E os móveis?
- São dela...
- E os discos?
- De vovô? Ficaram comigo. Ela detestava...
- E Filó?

Marcelo censurou a vontade de matar Maíra também.
- Tá lá em casa - pensou, ouvindo Dorival Caymmi.





(...) Continua.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Malboro light [parte1]



Passava do meio dia. No Recife, o asfalto estalava de calor. Com um Free apagado na boca, Marcelo abanava o tempo com o bloco de apurações. A caneta, presa no crachá que lhe pendia do pescoço, fazia pequenos riscos na camisa de malha barata. Desenhava, distraída, enquanto ele procurava o isqueiro. Olhou para os lados e viu Ana, colega de outro jornal, que também levava chá de cadeira do carro, acendendo um Malboro Light.

- Ana, fogo?

Ela lhe estende um Zippo prateado. Ele traga e devolve.

- Pauta chata... - ele fala, meio tom, querendo iniciar um passatempo sincrônico. 
Ana olha pra ele de rabo de olho, sem virar a cabeça.
- É...

Marcelo sabia da fama da colega. Palavras muitas, só no papel, escritas por ela ou por um "tal" C.F.Abreu. Ana era meio melancólica, beleza média, óculos e tinha um carro semi-novo ainda cheio de prestações. Aquele cigarro era o primeiro em cinco dias, quebrando mais uma tentativa frustrada de parar.

- Viu o resultado do Oscar? O mudo ganhou...
- Não - interrompe a moça, cortando a conversa e entrando no carro do jornal. Deu um tchau até simpático e foi embora.

Aliás, Marcelo tinha a sensação de estar sempre esperando pelo que não chegava. Mas o carro chegou. Acenou para o motorista, tragou, pisou e entrou no carro.

- Porra, Raimundo! Quarenta minutos...
- Bora, viado, deixa de reclamar!

Marcelo sabia que as coisas não iam bem. Naquela semana, Sandra resolveu cobrar-lhe compromisso mais sério, exigiu burocracias que ele não tinha dinheiro nem saco para dar.

- Um anel, Marcelo! Compromisso... financiamento... data... vencimento... material escolar...

Sandra saiu falando de suas insatisfações, mas Marcelo traduzia tudo como uma lista de cobranças ad aeternum.

- Ou vai ou racha! - ele traduziu, ao fim do falatório de Sandra - Racho!

Rachada a relação, ele saiu de casa carregando uma caixa de vinis que foram de seu avô, a samambaia que pendia na varanda, umas revistas e Filó, o gato persa preto. Este último foi um favor. Além de alérgico, o bicho deixava Marcelo entediado. Aos domingos, enquanto ela lixava as unhas na varanda, debaixo da samambaia, e fofocava com Joana assuntos melancólicos, Marcelo ficava paralisado e enojado de ver o gato em seu ritual de limpeza. Filó lambia a pata esquerda e passava na cabeça. Marcelo tinha nojo dele.

No jornal, Marcelo dividia bancada com Eduardo. O colega boa praça era melhor repórter que ele, já tinha traçado metade das mulheres da redação e ainda tinha os dentes brancos, numa simetria perfeita. Quando Eduardo falava, Marcelo prendia atenção nos caninos, sisos e molares, tentava encontrar alguma mancha. Mas nada havia de depreciável em Eduardo.

(...) Continua.