quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O tempo


Fim de ano é uma época para se pensar no tempo. Num olhar acanhado, quase inerte, a gente senta abre "boca cheia de dentes" e fica esperando a morte chegar.
Não... separar o tempo em meses talvez não tenha sido uma idéia brilhante. É a falsa impressão, verossímil, de que podemos recomeçar, tentar, reorganizar e fazer tudo de novo. É só mais um amanhecer; mais uma ilusão. Hoje é igual ao amanhã, sem tirar nem por, só com mais uma mudança de dígito.
O fim do ano chega e com ele termina mais uma série de coisas. Trezentos e sessenta e cinco dias para apagar tudo e pensar: "agora vai ser diferente!".
Nesse meio tempo, entre um recomeço e outro, você se perde em seu tempo, em seu meio, e já nem reconhece mais um novo sorriso, um novo abraço ou aquele velho, que se renova. O lugar-comum ofusca; transforma o mutável em algo banal. Pormenores, detalhes, miudezas...
E você só se dá conta de tudo isso, quando o tempo, sempre ele, leva esse pedaço embora. Quando esse momento vira registro no hall das lembranças. Quando uma dor aguda incomoda e você reconhece a saudade.
Sugiro um pedaço de papel e uma caneta. Cinco minutos para pensamentos rápidos. Agora, deite 2007 sobre a folha...
Surpreendente!
Musique-se
Oração ao Tempo
Caetano Veloso
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo

Tempo tempo tempo tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que eu te digo
Tempo tempo tempo tempo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso

Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e migo
Tempo tempo tempo tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo

Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Ela fecha

"Não nasci para casar e lavar cuecas"
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Musique-se

Cor de rosa choque

Nas duas faces de Eva
A bela e a fera
Um certo sorriso de quem nada quer
Sexo frágil não foge à luta
E nem só de cama vive a mulher

Por isso não provoque
É cor-de-rosa choque
Oh, oh, oh, oh, oh Não provoque
É cor-de-rosa choque
Não provoque
É cor-de-rosa choque

Mulher é bicho esquisito
Todo mês sangra
Um sexto sentido maior que a razão
Gata borralheira, você é princesa
Dondoca é uma espécie em extinção

Por isso não provoque
É cor-de-rosa choque
Oh, oh, oh, oh, oh Não provoque
É cor-de-rosa choque
Não provoque
É cor-de-rosa choque

domingo, 16 de dezembro de 2007

Conversa de banheiro

Local: banheiro da redação, logo após o almoço. Duas pessoas conversam:

A: Menina, fui no cardiologista ontem, depois do expediente.
B: E foi? E aí?
A: Tava tudo bem. Conversando com o médico, disse a ele que tinha marcado aquela consulta para depois do expediente. Aí ele me perguntou: "você é jornalista?".
B: hahahaha
A: Eu fiquei toda feliz, achando que o tinha entrevistado e ele tinha me reconhecido.
B: E foi o quê?
A: Ele disse que percebeu pela minha roupa. Disse que tinha desconfiado porque jornalista tem esse jeito "despojado" de se vestir. Pode??
B: Despojado (olhando para as suas próprias roupas)??? A gente anda despojado?
A: Pelo que ele disse... achei logo que ele tava dizendo que eu tava mal vestida.

E as duas se olham no espelho. E saem...

Ok, vamos ao estudo.

Jornalistas, em tese (e na prática), adoram uma roupa "despojada". Embora haja aqueles que insistem em se manter no salto alto, a maioria prefere o velho All Star gasto. Usam uns óculos esquisitos, que entregam logo a sua raça. Acham que sabem de tudo; embora tenham certeza que não sabem nada.

É um bicho esquisito...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

None

O negócio tá feio.
Dias de pura inspiração efêmera.
Daquela que dá e passa.

Paciência...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Os alfinetes do Lobão

Sim, o exêntrico existe e sua melhor forma humana atende pelo apelido de Lobão. Cinqüenta anos de idade e mais de 30 de uma carreira que já passou do céu ao limbo. Hoje, ele volta às alturas: é dono da sua própria gravadora (a Universo paralelo), tem uma revista (a Outracoisa), um programa de televisão (o Debate MTV) e acaba de gravar um acústico cujo investimento chegou a R$ 1,5 milhão (o Acústico MTV Lobão). Sobre esse último, ele declarou: "eu quis fazer o melhor dos acústicos, e consegui".




Com o acústico, Lobão ganhou o Grammy de melhor disco de rock


Aparentemente avesso à modéstia, ele construiu a fama de polêmico. Foi preso várias vezes, por diversos motivos, "todos arbitrários e inconstitucionais", segundo o próprio. Declara-se totalmente contra o nacionalismo exarcerbado, o folclore, gravadoras, jabá e pensadores "atrasadíssimos", como, segundo ele, o escritor Ariano Suassuna. "Por ele, estaríamos vivendo num quilombo, sem computador".

Farpas à parte, Lobão é um poeta sensível em toda dureza de seus versos. Em seu acervo, partes importantes da música popular brasileira, como Me chama, Esta noite não, Noite e dia, entre tantas outras. Juntas, elas somam algo em torno de 350 canções. Já compôs com vários artistas, como Cazuza, com quem assina boas produções como Baby lonest e Azul e amarelo. "Eu não gosto muito que gravem as minhas músicas. Eu compunha com o Cazuza e dizia a ele que não queria ouvir o resultado. E não ouvia. Ele era muito manso comigo", diz, às gargalhadas. De Lobão, Cazuza gravou Vida louca vida e acabou marcando-a com seu estilo.


A entrevista abaixo foi feita por telefone, da redação do Jornal do Commercio, no Recife. Ele, em São Paulo, seguia com a turnê do acústico. Lá pelas tantas, no melhor do papo, ele se irritA com o motorista e dispara reclamações. Lobão perdeu-se na entrevista e o carro que o levaria para o hotel, seguia desavisado ao local onde, mais tarde, ele se apresentaria. Entre "porras" e "caralhos", ele voltou aos trilhos e à conversa, que seguiu assim:






Entrevista exclusiva com o roqueiro Lobão
Tatiana Notaro

Do Caderno C


Atualmente, o quê é o rock brasileiro?
Eu nunca me interessei por rock brasileiro, me considero um músico popular brasileiro. Não tenho nenhuma obrigação de ser ou não ser rock. Pra mim, esta não é a questão. Eu tenho uma intrínseca cultura de rock'n roll, evidentemente, mas sempre me preocupei em fazer música popular brasileira, que é o filão do lugar onde eu vivo. Eu acho que essa é a minha meta, apesar de ter ganho o Grammy de melhor disco de rock com o acústico (risos), o quê eu achei muito legal. Mas eu acredito que sou uma criatura rock'n roll, mas o que eu produzo é música popular brasileira. Sou tão brasileiro quanto Luiz Gonzaga e João Gilberto.

Como é que está a situação dessa música?
Olha, eu, como editor de uma revista cujo combustível maior é o artista novo, enquanto a criação de uma nova geração, a coisa poderia estar melhor.

Você acha que tem mais admiradores ou inimigos?
Olha, a única coisa que eu acho que não cabe na minha personalidade, que seria realmente muito difícil de suportar, é a indiferença. Qualquer outro sentimento é válido (risos). Eu vejo que isso acontece e que é característica da minha personalidade. Evidente, porra, que eu pressinto que sou amado por 95%. Tem uns 3% de ódio e 2% de indecisos, entendeu? (risos)

Você acha que as produções musicais de hoje são um reflexo do público?
Esse negócio nunca me preocupou. Minha produção não tem nada a ver com isso. Eu faço o que eu quero. Eu sou absolutamente livre com o meu trabalho. A minha produção é feita com duas coisas: com tesão e com vontade de excelência. Eu sempre me dediquei a isso e fiz disso uma marca na minha vida, e acredito que isso não vá mudar.

Como tem sido a receptividade do público em relação ao seu programa na MTV?
Tá um tremendo sucesso. As pessoas não acreditaram, nem eu. O programa saiu do traço pra dois pontos de média. Tá um puta sucesso. Em todos os shows que eu faço, as pessoas sempre se referem com muito carinho ao debate. O engraçado é que são pessoas de várias idades (risos). A gente já renovou, eu vou ter que me mudar pra São Paulo, por que é muito difícil ficar na ponte aérea. Em março a gente estréia nova temporada.

Lobão, você tem quantas composições?
Eu tenho umas 300, né?

Perdeu as contas?
Eu devo ter isso. Entre as que eu gravei e as que eu tenho escrito, acho que tem umas 300, 350...

Delas, quais você considera grandes heranças para a música?
Ah, cara, eu tenho muita música. Eu vejo pelos meus álbuns. A canção é como se fosse um capítulo do livro. É como se você perguntasse pra um autor "qual o melhor capítulo do seu romance?". Então, eu gosto muito dos meus três últimos discos, o A vida é doce, Lobão 2001 - uma odisséia no universo paralelo e o Canções dentro da noite escura. O Vida e o Noite são, de longe, os meus melhores trabalhos. Acho isso e toda a crítica especializada concorda.

Tem alguma que você ouve hoje e acha que foi uma falha?
Todos os discos dos anos 80 foram uma merda! Eu já sabia que estava fazendo uma merda e não tinha como fazer diferente. Tinha uma cultura toda impregnada, não se sabiam produzir um disco de rock no Brasil. A gente sofria muito com a falta de qualidade, com a precariedade, com a falta de cultura musical dentro desse segmento. Eu posso dizer um disco que eu gosto desses, que é o Cena de cinema, que é o primeiro, por que é muito fresco, e o Ronaldo foi pra guerra. Os outros, pode jogar fora que é porcaria mesmo (risos). Nesse disco agora, eu resgatei um monte de músicas que foram pessimamente gravadas, que agora ganharam vida. Pelo material não, mas pela produção, eram muito ruins.

Lobão, gravadora mata?
Depende da pessoa, eu acredito que não tenha morrido até agora (risos). É muito difícil, hoje em dia, alguma coisa me fazer mal, entendeu? Eu já passei por tanta coisa nociva, virulenta, truculenta, covarde e sobrevivi a isso, que eu acho que adquiri muitos anti-corpus nos últimos anos.

Em geral, ela mata o artista?
Olha, eu acho que isso é muito relativo, acho que depende do artista. Eu estou lendo a biografia do Hendrix. Ele morreu, principalmente, por preocupações com a vida profissional dele, em relação aos contratos e tudo mais. Isso sempre existe, né? Já perdi muitos anos da minha vida com brigas judiciais seríssimas. É um meio que você tem que ter atenção, mas, eu prefiro não me colocar como vítima nunca, sabe? Se tem algum terror, o fantasma sou eu (risos). Acho que é melhor que as pessoas morram de medo de mim do que eu ficar me lamentando por alguém. Por que as pessoas me respeitam? Por que eu posso causar danos bem piores (risos).

Em uma entrevista à revista Playboy, você disse que, se abrissem a barriga do Tim Maia, lá encontrariam um câncer chamado "Som livre". Qual o motivo disso?
Eu falei isso num show no antigo Metropolitan. Eu estava mesmo muito indignado. O Tim passou os últimos dez anos da vida dele, mal ou bem, totalmente rechaçado, achando que era maluco. O cara morre e mal foi enterrado, já arranjaram tributos. Isso é muito feio, realmente. Prestar uma homenagem a uma pessoa querida como o Tim e ver que isso tem especulações mesquinhas, isso é muito sórdido, né?

Qual foi a última gravadora com a qual você teve contrato?
Foi a Universal, em 98. O acordo de agora, é entre a minha gravadora, a Universo Paralelo, com a Sony Music. É um contrato completamente inédito dentro dos moldes que a gente está acostumado.

O jabá ainda consome o mercado da música no Brasil?
Sim, e é um dos grandes atores na derrocada do disco. Se há uma coisa que não pode ser deduzida do preço final do disco, e que acaba com a concorrência, é o preço embutido do jabá. São dos famigerados "insumos comerciais". Acaba, não somente com a música, por causa desses preços, como aniquila toda a possibilidade da paixão do radialista em fazer a programação de acordo com o que ele gosta, com o que ele fareja. O comercial já marca as cartas todas, então você tira todo o calor que o rádio tinha. Não tem mais por que é tudo negócio sórdido. Aí você tem vários radialistas que não têm mais contato com a música. As pessoas que estão no meio, geralmente, não entendem mais de música. A maioria, 94,8% (risos). E é muito triste. Eu continuo não tocando na maioria das rádios, mas um tiro só não vai me derrubar (risos).

Como você vê esse acústico da MTV?
Quando eu decidi fazer, decidi que seria o melhor acústico que já foi feio. E foi o que aconteceu (risos). Eu pensei: "agora vou fazer um acústico daqueles. Tudo que faltava nos outros, não vai faltar nesse". Liberdade artística, excelência e sonoridade. Conseguimos uma tecnologia de amplificar os violões de maneira adequada. Isso dá uma imensa diferença da qualidade sonora que esse disco tem para a qualidade medíocre que todos os acústicos sempre apresentaram. E essa foi uma das minhas maiores preocupações. Eu já estou cansado de registrar as minhas músicas de maneira medíocre, não quero mais isso. Quando eu vi que teria uma mega produção, mais de R$ 1 milhão à minha disposição para fazer o máximo, eu tinha que pesquisar músicas, violões, instrumentos dos mais variados e aprofundar junto com os músicos e a viagem musical maravilhosa, eu acredito que não tem precedentes. As pessoas vão sacar que o prestígio do Grammy foi por algum motivo. Não é qualquer trabalho que ganha um Grammy, não é verdade? Eu tenho que concordar que houve muitas críticas à minha pessoa, pessoais, mas nenhum crítico, se você percebeu, em nenhum momento conseguiu falar mal do disco. O disco foi aclamado como excepcional em todos os jornais e revistas que a gente conhece aqui no Brasil. Todo mundo queria especular sobre o meu caráter, se eu sou vendido ou se eu não sou, mas, com todas essas ressalvas, as pessoas não conseguiram atingir o disco. Na certa, iam colocar a própria credibilidade profissional em jogo. Eu quero dizer que estou muito satisfeito com esse corredor polonês que tem acontecido esse ano, com um disco absolutamente laureado, uma turnê maravilhosa, estão dizendo que o programa de televisão é o acontecimento televisivo do ano (risos). Os shows que estamos fazendo em vários lugares estão todos lotados, são shows memoráveis, então não podemos estar mais satisfeitos em relação ao nosso trabalho, sabe?

Mudando de assunto agora. Existe uma idade ideal para morrer?
Existe. A hora em que você perde o amor pela vida. Eu acho que enquanto você tiver vontade de viver, você merece viver. }

Quais são os melhores filhos? Os sangüíneos ou a música?
Olha, tudo o que se identifica com você é o melhor, não interessa se tem laços de sangue. Isso tudo é muito pequeno em relação a intensidade que você tem quando você tem uma relação, seja com pessoas, seja com aquilo que você produz.

A boa composição é diretamente proporcional ao tamanho do porre?
Não. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Pelo contrário, eu acho que as melhores composições foram feitas quando eu estava sóbrio.

Quantos problemas com a justiça?
Tenho 132 processos, fui preso inúmeras vezes, perdi até a conta. Todas as vezes foram absurdas, arbitrárias e anti-constitucionais. É só verificar a história, as condições que eu fui foram absurdas. Isso por que eu não passava pelas cortes como arrependido, inclusive, indignado com a tutela que o Estado pretende nos aferir. Eu, enquanto ser humano, não causando mal a terceiros, ninguém tem direito de interferir na minha vida particular, muito menos o Estado.

Isso é um preço que você paga por ser polêmico?
Eu não sou polêmico! Eu vivo num país de baixíssima escolaridade que se assusta com tudo o que uma pessoa mais ou menos instruída fala. Você não percebeu que isso é mais simples ainda? (exalta-se)Eu vivo num país de baixíssima escolaridade, ultraconservador, com tendências à direita, ultra religioso, atrasadíssimo e quando você fala alguma coisa, as pessoas se assustam. Eu não sou deliberadamente polêmico, as polêmicas são conseqüências desse atrito. Eu sou um cara super informado em tudo o que eu falo e vivo num país que despreza informação, entendeu? O Brasil não sabe conviver com vanguarda, com pensamentos de renovação, sabe? Você vê o Ariano Suassuna, por exemplo, é um poço de atraso, apesar de ser um cara genial. Tem uma obra maravilhosa, mas como pensador, é um atraso para o Brasil. Pior é que o cara é um erudito, porra. Então, imagine a besta fera que está no senado nacional, um parlamentar ou um governante que mal tem o segundo grau completo?

Se a gente pudesse fazer uma lista das figuras mais idiotas do país, quais encabeçariam a lista?
Olha, nós temos uma safra tamanha, uma variedade tamanha, que seria uma injustiça com os demais não nominá-los (risos). O que temos de pessoas sórdidas, idiotas, chupa-sangue e retrógradas em vários setores... de maneira nenhuma Ariano Suassuna seria uma pessoa sórdida, ele simplesmente é atrasadíssimo. Por ele, estaríamos num quilombo, sem computador (risos). Ele quer só coisas brasileiras, como se o Brasil fosse a coisa mais pura e intocada da humanidade. Isso me dá medo, porque isso é muito parecido com o nazismo, não é? E não há por que ter orgulho disso, muito pelo contrário, isso é um fanatismo armorial da pior qualidade. Isso é um cancro, por que ainda fica mascarado pela boa intensão, por que não tem o mau caratismo, apenas o fanatismo. Mas isso já é o suficiente pra gente ficar mais 50 anos para poder se livrar disso. Folclore é uma merda! Uma país bom não tem folclore. Acho que a gente tinha que se urbanizar e se globalizar. Eu to se saco cheio dessa coisa pé-de-chinelo, nacionalista de merda em que o Brasil vive, sabe? Principalmente sob as rédeas do PT, você deve ter percebido que isso deve ter aumentado.

Quem é o maior ícone da música de todos os tempos?
Da música contemporânea popular? Hendrix, né?

E aqui no Brasil, quem você acha que fez música boa, de qualidade, que correspondia ao seu tempo?
Ah, rapaz, tá pra nascer (risos). Não vem ninguém, amiga. Tem um casos bacanas, mas nada que você possa dizer "esse cara é um deus". Villa Lobos é bom, mas revestido de muito nacionalismo, que era o paradigma naquela época, mas a qualidade da obra é muito intensa. Isso, na música clássica. Agora, na música popular, cara, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, aquelas coisas. Mas eu não ouço nada disso. Pra mi, seria uma peça de museu. É bacana, absolutamente louvável, mas, porra, eu ouço uma vez na vida e outra na morte. Não é uma coisa que tenha me influenciado diretamente. O que me influenciou diretamente aqui no Brasil foram os Mutantes, Macalé, Tim Maia, Jorge Bem, a Jovem Guarda (Erasmo e Roberto), essas coisas mais espertas.

Qual é a parceria mais marcante, não só na composição, mas de pessoas que regravaram músicas suas?
Sinceramente, eu não gosto de ouvir minha música na boa de outras pessoas. Quando eu compunha com Cazuza, eu dizia a ele, a gente compõe mas você não me mostra. Eu fica decepcionadíssimo. O piano não é esse! Não é essa batida! Ai, então, não ouvia. Comigo ele era manso (risos).

Depois de 50 anos, como é a cabeça do Lobão hoje?
A mesma de sempre. Estou com a mesma vontade de produzir, mesma vontade de achar uma linguagem, maior vontade de compor e com a mesma ânsia de aprender novas coisas. Eu sou superativo e não sinto nenhuma diferença de energia. Eu nunca fiz shows tão intensos quanto nesses dois anos, têm sido incendiários. Aos 50 anos, eu estou muito bem (risos).

Então o Lobão cinquentão não é careta...
Olha, eu não consigo olhar as coisas com esse maniqueísmo. Eu sempre fui uma pessoa muito íntegra com as minhas posições, mudo muito de opinião, por que eu sou um cara em evolução, mas o meu eixo é o meu eixo (risos).

Deus é burocrata?
Não. Se Deus existir, ele não é burocrata. O diabo deve ser burocrata (risos), ou um arcanjo lá, de asas, que inventou coisas para atrasar a vida da gente.

Você acha que a gente ainda se safa da "idade da mídia"?
Eu sobrevivi a isso. Eu sou a mídia (risos). Hoje em dia, EU tenho uma gravadora, EU tenho uma revista, EU tenho um programa de televisão. Não tem mais essa não.

Agüenta ouvir Me chama ainda?
Não só agüento como adoro, uma música linda daquela. Tem músicas que cada vez que você canta é um mantra. Me chama da maneira como eu faço é irretocável. Tanto é que nenhuma versão se conserva perto da minha.

E sobre o episódio em que João Gilberto, ao gravar Me chama, tirou o verso "nem sempre se vê mágica no absurdo"?
Mesmo que ele não tivesse tirado, o arranjo foi tão vagabundo que não marca. Eu acho aquilo horrível. Pelo menos na minha música. Fiquei muito triste depois. Muita gente por aí grava, mas eu nem ouço. Segundo ele me disse, ele tirou o verso por que não entendeu. Ai eu disse: "mas você não me telefona toda hora, por que não me telefonou perguntando o quê é que era'? Procure saber! (risos)

O que é a "mágica no absurdo"?
Deixa eu tentar pegar um exemplo bem prosaico. O torcedor corinthiano deve estar dizendo isso depois que viu o Corinthias empatar ontem. Eles fizeram um gol, mas não adiantou, né? Nem sempre se vê mágica no absurdo (risos).

De onde veio o verso?
Ah, esse é muito antigo. Eu vi dois filmes que me ajudaram. O primeiro foi The flash dance. Quando eu vi, fui tirar uma balada e acabou se tornando refrão de Noite e dia [canta: Você está me convidando...]. Aí eu fui ver um filme em que o Touro sentadofaz a dança da chuva e passa a tarde inteira dançando. Chegou um determinado momento, sentou-se , e não surgiu porra nenhuma, e ele disse "é, nem sempre as mágicas funcionam". Aí eu formulei a frase, mas ela ficou jogada no meu bloco de anotações. Aí eu pensei que tinha que usar a frase numa música. Aí quando veio a parte da canção Me chama, ela caiu como uma luva. Aí começou a música por aí, mas ela veio de arrastando uns quatro anos antes.

Você quer alcançar alguma coisa com o novo acústico?
Todo conceito do acústico, além do divertimento, era poder mostrar que as minhas duas fases podem conviver juntas, com coerência. Elas têm excelência. E poder mostrar as minhas coisas para o público. Pô, eu inventei a música independente mas eu quero mostrar que existo. Teve gente que pensou que eu tinha virado uma personalidade, por que eu nunca saí da mídia enquanto pessoa, né? Só me proibiram de tocar em rádio, então eu achei essa uma solução bem interessante para acabar com esse mal-estar. Foi só eu colocar a cabecinha de fora que eu ganhei o Grammy (risos). A partir de agora, tem rádio me tocando, o disco é um sucesso. Eu não poderia fazer isso na independência, por que eu não tenho R$ 1,5 milhão para investir. Eu fico feliz de ter tido essa liberdade. Todas as gravadoras vieram a trás de mim para querer fazer e eu pude escolher. Com a Sony Music, além desse disco, vai sair toda a minha caixa de originais no ano que vem.

Musicalmente, você se considera um ícone a ser copiado?
Até agora, ninguém conseguiu e nem vão conseguir (risos).

Por que não?
Porque é difícil. Eu sou uma pessoa muito peculiar e eu não gostaria de ser imitado não. Tomara que as pessoas tenham em mente que eu tenho uma trajetória legal. Minha história é muito bonita, como músico e como uma pessoa que conseguiu se colocar. Se isso servir de inspiração, eu vou ficar super satisfeito.

Você acha que a sua vida daria um bom livro?
Daria sim, daria um super livro.

Vai fazer?
Eu só vou fazer quando eu perceber que eu já passei da metade daquilo que eu queria fazer.

E agora, você está em que estágio?
Eu acho que eu estou no primeiro décimo da minha vida (risos).



terça-feira, 20 de novembro de 2007

1º capítulo...

No fim de semana, no Recife Antigo, estacionei a moto e fui em busca da primeira rodada de cerveja. Seria a primeira, de incontáveis.
O barato, dipensei. Só no álcool, esperei que ele passasse. Dentro do bar tocava algo entre Vinícius e Ney; algo parecido com isso, mas não me recordo agora.

Na verdade, tocava Gil.

No meio da coleção de camisetas customizadas, os olhos verdes dele, cintilavam com toda força. E eu larguei o copo, levantei. Comprei fichas pra radiola e colei o nariz no vidro:
- Elis, Cazuza, Gonzagão, Zé Ramalho...

Pus um samba de Cartola e muita gente careta torceu o nariz. Ele, sem pestanejar, olhou em minha direção, levantou, largou o copo e veio. Chegou, enlaçou-me pela cintura, encoxou-me [como só ele o faz] e me tirou dali. Era a senha.

♪ ♪ Alvorada lá no morro que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo
Tingindo, tingindo

Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco
Quase nada de que ir assim
Vagando numa estrada perdida ♪♪

Ninguém viu nada, mas era como se houvessem holofotes e aplausos para os nossos compassos. E saímos.

Da cerveja, pra vodka. Vinho e cachaça pura, na areia.
Mas aí, antes do nascer do sol, antes do fim da noite, ele pega minha mão e propõe a prisão eterna.
Olho para o anel que brilha.
Olho para sua expectativa. Tiro o compromisso, coloco-o em sua mão, levanto e saio.

♪♪ O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer... ♪♪

domingo, 11 de novembro de 2007

A matéria embolorada do teste!

Montagem/ Filipe Falcão (gentilmente cedida sem aviso prévio)
Trashes da vida, na seqüência: trash do catamarã, em abril/2007; primeira trash com paquitas; show de Kátia Cega e homenagem de Lívia e Filipe à cantora.



» COMPORTAMENTO

O passado é a onda do presente
Publicado em 04.11.2007

Cada vez mais pessoas buscam em décadas que já vão longe inspiração para o que toca no seu aparelho de som e até nas roupas que vestem

Tatiana Notaro
tnotaro@jc.com.br

Hábitos de consumo e transformações políticas e sociais deram a cada década do século passado um estilo peculiar. Entretanto, o passado está presente em grande parte do que vemos (e como vemos), vestimos e ouvimos hoje. As regravações, a moda retrô, artistas que ressuscitam e tribos que revivem estilos existem aos montes. Os revivals formam uma nuvem de nostalgia que começou no início dos idos anos 90 e trazem até hoje a saudade dos bons e velhos tempos.

O professor de publicidade da Universidade Católica de Pernambuco, Fernando Fontanella, estuda as chamadas culturas populares. “Na minha tese de doutorado, analiso a atração das pessoas pelo passado, principalmente o cultural. A partir do fim da década de 80, a cultura pop entra em uma auto-referência muito forte em relação ao passado e começa uma série de ciclos”, disse. Segundo Fontanella, o início dos anos 90 trouxe um revival dos 40 e 50, com referências do rockabilly (subgênero do rock criado nos anos 50) e seriados como Anos dourados e Anos incríveis, e filmes, como De Volta para o futuro.

Gradualmente, houve uma transição para o estilo anos 60 com uma onda hippie e a releitura do festival Woodstock em 1994, em Nova Iorque. “Logo depois, ressurge a disco da década de 70. É o retorno da calça boca-de-sino, do ator John Travolta às telas e de grupos como o Village People”. Nos últimos anos, houve uma explosão 80 e as festas trash caíram no gosto do público. “Agora estaríamos à beira de reviver os anos 90, mas o que se vê são tribos que tomam o passado como estilo de vida”.

Passando para a prática, o estudo de Fontanella pode ser comprovado. Depois de começar a estudar a língua espanhola, o estudante de direito Bruno Araújo, 26 anos, tornou-se fã do cantor cubano Bienvenido Granda (foto). Conhecido como “el bigote que canta” (o bigode que canta) e famoso na década de 40 por seus boleros e voz inconfundíveis, Bienvenido morreu em 1983. “O professor sugeriu que ouvíssemos músicas hispânicas para melhorar a fluência. Um dia, meu pai chegou com o CD de uma figura de bigodes enormes. Os nomes das canções eram curiosos, como La cancíon del borracho (A canção do bêbado)”, disse Bruno. Ele comprou vários álbuns do cantor e apresentou a descoberta aos amigos. “A maioria deles não gostou, falavam que era música de radiola de ficha”. Apesar do preconceito, Bruno cultiva outros ídolos atípicos para a sua idade, como a cantora argentina Mercedes Sosa. “Meus amigos dizem que tenho gosto de velho, mas eu não acho. Gosto de coisas boas”.

As influências das cinco últimas décadas do século 20 também estão espalhadas pelas vitrines. A estudante de design Raíza Bruscky, 21, tem o guarda-roupa bem ao estilo retrô (do francês rétro, que significa antiquado). “Uso camisas de botão, saia confortável e sapato tipo boneca”, descreveu. A professora de moda da Faculdade Senac, Carmem Marinho, explica os estilos inspirados no armário da vovó. “O retrô é influenciado por modelos antigos. São peças novas com ares de brechó. Já para o vestuário original, realmente feito em décadas passadas, o nome dado é vintage". Ela alerta que é necessário cuidado com o gosto pelas modas do baú. O exagero pode transformar charme em uma fantasia de época.

Mas referências sutis aos detalhes mais charmosos e marcantes de outras décadas podem ser encontradas facilmente. Na loja Maria da Silva, no bairro das Graças, as coleções de design moderno carregam laçarotes, botões grandes ou cobertos e detalhes como casas de abelhas e nervuras. “Nossas roupas não são retrôs, mas têm bagagem. Usamos muito o estilo balonê e as mangas fofas”, descreveu Germana Valadares, estilista da marca. Já a Madame Surtô, assinada pela estilista Thaïs Asfora, tem, assumidamente, o pé no passado. “Em todos os segmentos existe aquilo que já deu certo e dispensa mudanças. Na moda, Chanel chegou ao ápice do charme”, disse Thaïs, referindo-se à estilista francesa falecida em 1971. O glamour dos anos 50 e 60, na sua opinião, são dos estilos mais marcantes já criados. “É nisso que busco a feminilidade que se tornou o traço da Madame Surtô. Aderir ao retrô é buscar esse glamour perdido”.

Nem a sétima arte, hoje já tão cheia de efeitos especiais, consegue se livrar dos seus antepassados. O jornalista Filipe Falcão, 25, é fã dos gêneros produzidos nos anos 80. “Adoro a estética dos anos 80. É tudo muito malfeito se comparado às produções atuais”, disse. Ele usa como exemplo a série A hora do pesadelo (Nightmare on Elm street, EUA), que teve seu primeiro filme lançado em 1984, precedendo uma época de grandes clássicos, como Massacre da serra elétrica (The Texas chain saw massacre, EUA, 1973) e Psicose (Psycho, EUA, 1960). “Hoje, não temos séries que se assemelhem à saga de Freddy Krueger. São 27 anos e 10 filmes. Os filmes de hoje têm uma megabilheteria, mas são caríssimos. Os da década de 80 têm coisas precárias, como cenários de papelão e elenco ruim, mas conseguem envolver o público nessa combinação estranha de coisas”.

Filipe também é fã da banda Roxette e da cantora Madonna. Perguntado se esses artistas teriam a mesma repercussão se tivessem despontado hoje no cenário musical, o jornalista é enfático. “De jeito nenhum. Madonna abriu a porta do entretenimento para um formato que não existia. Foi contestadora, falou de sexo, afrontou a igreja. Hoje, isso não surtiria o mesmo efeito. Qual o artista que você conhece tem 25 anos de carreira e a turnê mais lucrativa da história da música, para uma artista feminina?”. A mais rentável turnê da história da música foi a dos ingleses da Rolling Stones, que durou 3 anos. A última turnê de Madonna, Confessions tour, durou 4 meses e faturou US$ 194 milhões.

Voltando às teorias, Fontanella explica que as marcas culturais substituem ciclos da vida que se perderam. “Vamos dizer que antigamente as fases eram a escola, faculdade, o casamento, filhos e aposentadoria. Hoje, essas etapas não estão claras e perderam espaço para uma forte vivência midiática. Dizemos ‘quando eu era criança, assistia tal desenho’ ou ‘quando era adolescente, ouvia tal música’. Revisitamos esses momentos consumindo as mesmas coisas da época”.

E se estamos em uma época em que a passagem do tempo não faz muito sentido, é natural, segundo o professor, que busquemos referências. “É como se existissem compartimentos para você mergulhar, com um universo de símbolos livremente disponíveis para consumo”.


Festas trash ressuscitam melhor e pior dos anos 80

“Superfantástico, amigo, que bom estar contigo no nosso balão”. Esse é o primeiro convite aos corações mais nostálgicos que comparecem às festas estilo trash que acontecem no Recife desde 2002. Nelas, já pisaram figuras como a cantora Rosana (do inconfundível verso “como uma deusa você me mantém”, da canção O amor e o poder), as Paquitas (do Xou da Xuxa, extinto em 1992), Kátia (a “afilhada” de Roberto Carlos, dona do hit Não está sendo fácil) e Luiz Caldas (que na trash de Carnaval embalou abelhas ao som de Haja amor), além de covers bem satíricos de Sidney Magal, Simony (do Balão Mágico - foto) e Roberto Carlos.

O estilo começou no Rio de Janeiro e São Paulo, no ínicios dos anos 2000. As festas Ploc exploraram um universo até então esquecido. Segundo Manoel Guimarães, organizador de uma das trash recifenses, o estilo já conquistou o público. “Na nossa primeira festa, em abril deste ano, juntamos 1.200 pessoas. Com o sorteios de ingressos para usuários do JC OnLine, ficamos sabendo que 56% das pessoas que participaram são homens entre 25 e 35 anos”, disse. Manoel conta que nas enquetes promovidas na comunidade da festa no orkut, no quesito set list, músicas infantis ganham na preferência. “O jingle mais lembrado foi o da Estrela (a fábrica de brinquedos fundada em 1937). Com essa, eu já vi marmanjo emocionado”. Os jogos Banco imobiliário, Genius e War, e o brinquedo Pogoball estão no topo da lista dos mais lembrados.

Relembrar as festas traz risos a Manoel. “Uma vez, fizemos uma performance do grupo Dominó, com peças de dominó feitas de papel coladas na camisa e calças apertadas. No concurso de lambada, o casal vencedor ganhou uma geléia de mocotó Inbasa”. No telão instalado no fundo do palco, diz o organizador, passam cenas de desenhos animados inesquecíveis, como Smurfs (foto), Snorkels e Caverna do dragão.

Mas há uma linha que separa os saudosistas dos fanáticos pelos revivals. O termo kidadults (do inglês kid, criança, e adults, adultos) define pessoas que não aceitam a vida adulta e mantêm comportamentos e hábitos de crianças. “Não é o simples saudosismo. O saudosista suspira pelo passado, mas com consciência de que ele passou. No Bloco da Saudade, por exemplo, as pessoas sabem que aqueles carnavais não voltam e vivem a atmosfera apenas naquele momento. Os kidadults têm a vida mergulhada no passado. O nível de consumo é maior, já que não é somente aquele momento da festa trash. Os anos 80 passam a ser o estilo de vida”, explicou Fernando Fontanella.

Perguntado sobre o motivo pelo qual as pessoas tendem a resgatar o passado, Manoel é taxativo. “Para mim, tudo já foi inventado, o que nos resta agora é imitar”. A respeito disso, Fontanella entra em uma discussão sobre os limites da criatividade. “É um tabu determinar isso no campo da arte, mas na música o que ainda falta? Você tem possibilidades infinitas de criação, mas elas fatalmente acabam sendo influenciadas pelo passado. Entretanto, isso não é ruim se há uma relação saudável com essas memórias”, explicou. Então, vale a pena cultivar as boas recordações e para isso, a teoria não define idade.

Renato Russo, a peça

[A partir de hoje, esse espaço também servirá para minha livre expressão. As matérias aqui publicadas estarão livre de defeitos editoriais]


» Renato Russo
Líder de uma legião de fãs
Publicado em 10.11.2007

Tatiana Notaro
tnotaro@jc.com.br


Divulgação
Absolutamente nada atrapalhou a excepcional performance de Renato Russo no palco na noite da última quinta-feira. Nem os contratempos com o estacionamento lotado do Centro de Convenções, nem o microfone, que resolveu parar de funcionar. Nada. O ator Bruce Gomlevsky livrou-se de si mesmo e cedeu lugar ao eterno líder da Legião Urbana, saudade desde 1996. Renato Russo – a peça, encenada no Teatro Guararapes até ontem, foi show para deixar fãs extasiados por quase duas horas. Trejeitos, sotaque, delírios, filosofia; Renato estava ali por inteiro.

O monólogo escrito por Daniela Pereira e dirigido por Mauro Mendonça Filho tem roteiro forte, um cenário interessante e música ao vivo. Bruce canta de verdade, grita, encara a platéia e transpira Renato Russo. O texto não é didático; serve para que os que conhecem a história do cantor possam ter a sensação de vê-lo de novo. Leigos no assunto, no máximo, cantarolam versos mais conhecidos.

O set list, aliás, corre pela vida de Renato, desde a época do Aborto Elétrico, passando pela breve carreira solo como “trovador solitário”, até o começo, meio e fim da Legião. Ouviu-se faixas como Perfeição, Tédio, Geração Coca-Cola, Ainda é cedo, Eduardo e Mônica, Será e Que país é esse. Acompanhado pela excelente banda ou sozinho ao violão, Bruce cantou e interagiu com a platéia. Deu para esquecer que Renato já se foi e vivê-lo novamente.

Assim como o Renato da música, o do palco vai se recolhendo à medida que o seu espetáculo se aproxima do fim. E tal qual a morte do cantor, a do personagem se dá de forma sutil, num leve apagar de luzes e com a mensagem de um legado: “força sempre”.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Atalho

Saudades enormes.

Não há o que lamentar; nem os freios, nem pudores ou a sensação de ter deixado passar o momento ideal.

Foram muitos.

Cheiro de CK, gosto de taco, absinto. Brilhos de strass, conversas "apimentadas", dissabores e dores. Por que não?

Amam-se e se vão, tal qual segundos, incessantes.
Desconcertantes momentos à dois, de troca de farpas, calafrios.
Instintos contidos, gestos suprimidos, beijos engolidos.

Indiferença e anestesia.
Indolor, incolor, insípido, intragável...

Musique-se

Sampa

Caetano Veloso

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo, afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso o avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan Américas de Áfricas utópicas
Túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi

E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

domingo, 4 de novembro de 2007

Teorias rodrigueanas salvam o dia...

Hoje, finalmente, vi minha trabalhosa matéria sobre revivals publicada no Jornal do Commercio, com direito a página inteira (sem publicidades) só pra mim.

Como personagens, dois amigos adoradores de coisas velhas, um doutorando em cultura popular e uma estilista adepta ao estilo retrô, além de um organizador de festa trash.

Comprei "o profeta" (jornal de domingo que sai no sábado à noite), louca para ver a matéria. E lá estava ela, linda de morrer, com meu nome, orgulhosamente assinado.

Hoje, Filipe (uma das personagens, amigo meu, também jornalista) me disse que eu acabei trocando os títulos em inglês de Sexta-feira 13 e de A hora do pesadelo. Fred por Jason...

Mas que droga!!!!!
Fiquei enfurecida. Depois de quase dois meses de encubação, a matéria ainda sai errada??

Afoguei as mágoas num copo de coca-cola zero, agora há pouco, no aniversário de Ulisses... isso, depois de ter tido a fantástica experiência de conhecer sogro, sogra, cunhada, cunhado, tia...
Uma beleza!

Aí, cá estou eu, com requícios dessa mágoa, quando me surge o sempre sábio Nelson Rodrigues, por quem me apaixonei perdidamente há pouco tempo (assim como meu já amado Cazuza, ele "escarra na boca que 'lhe' beija"):


"Perfeição é coisa de menininha tocadora de piano".

Disse tudo.
Palmas para o grande anjo maldito.