segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

"Vem viver o verão/ Vem pro Salvador/ Eu sou camaleão..."

Há tempos eu não passava por uma experiência tão pitoresca (aprendi esse adjetivo com um colega de trabalho e acrescentei-a ao meu vocabulário). Vou mentir se disser que não aceitei de bom grado a oportunidade de ir ao Olinda Beer pela primeira vez. Afinal, um evento que junta mais de 40 mil pessoas e já acontece há 11 anos deve ser muito bom.

Depois da grata experiência do show de Lobão e Rita Lee, por que não Chiclete com Banana? Se "Lança perfume" me deixou elétrica, por que não "Cara caramba sou camaleão"?

Adentrar a arena foi esquisito. Primeiro, por que todo mundo estava vestido igual, fato que eu só tinha presenciado em UM Recifolia que acompanhei, sonolenta, da varanda do apartamento de uma amiga, na Avenida Boa Viagem. Segundo, por que o show da Timbalada já tinha começado e o pessoal pulava loucamente (isso eu já tinha visto, mas no Carnaval de Olinda). Logo na entrada do estacionamento, ainda no carro com o fotógrafo e o motorista do jornal, uma menina se jogou no vidro, totalmente bêbada. Guga (o fotógrafo), fez dois clicks e o motorista soltou:



- Duvido que isso seja só álcool...



Sem quaisquer moralismos, vamos combinar: a cena foi bizarra.



Ok, voltemos...



Timbalada não é ruim não. Eu curto um tambor. Confesso que o que incomodou (além daquela divisão*) foi o sol de rachar, as músicas (não conhecia quase nenhuma, salvo aquelas de uns 15 anos atrás [na 5ª série eu curtia essas coisas. Inclusive era fã do grupo de PAGODE Molejo]).

Chiclete é bizarro. Eu fico me lembrando das descrições de Bruno **, que tem um discusso ferrenho anti-chicleteiro.

Eva chega repaginada (sem o "banda". Agora são um "grupo"), com a milésima tentativa de um vocalista que substitua Ivete Sangalo. Parece que o tal do Saulo Fernandes se segurou na aparente barca furada que foi (ou é) a banda, ops, grupo, e deslanchou. Aliás, estão à deriva, já que todo o repertório é da antiga formação. Peças de museu que embalaram gerações e gerações, hoje já cansadas, de "axezeiros".


Música ruim, gente demais, segregação econômica e sol, muito sol. Cerveja à R$ 4. Isso sem falar do "bronze" de camiseta que eu ganhei.


Foi bom?


* Como todo Carnaval baiano, tem aquela conversa de "isolamento" (feito o cordão). No Olinda Beer, a galera de dinheiro, que pôde dar R$ 60 naquela camiseta rabujenta, ficou pertinho do palco, num espaço "adequado" para a quantidade de gente (isso, até a hora que eu fui embora, antes da bagaceira tomar o lugar por completo). Os pobres pagaram R$ 25 pela mesma camiseta, mas na versão cor-de-rosa, que lhes proporcionava uma visão esmagada e distante, já que eram impedidos de chegar perto do palco com uma barreira que ficava a uns 50 metros dos "artistas".


** Nas palavras do próprio:


Tati diz:
me diz aí o que vc acha de Bel, do Chiclete
Bruno diz:
eu acho ele um coroa ridículo; aquele pano de Tia Anastácia do Sítio do Pica-Pau Amarelo é ridículo
Bruno diz:
com aquele shortinho de Carla Perez
Bruno diz:
um cara q só sabe 3 notas
Bruno diz:
naquela guitarra q ele deve usar como "consolo" no fim do show.

Ok, aplausos para a descrição...

sábado, 19 de janeiro de 2008

Até o Fim

Composição: Chico Buarque

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

"Inda" garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim

Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim

Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim

Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou
Mas vou até o fim

Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Sempre tão gratas surpresas

Foram 15 anos no mesmo colégio. Mesmo ambiente e as mesmas caras familiares, tão sempre amistosas e tão minhas. Dos 3 aos 17 anos, ali era o lugar.

Quando acabou-se a vida do casulo, de fardinhas e tardes ensolaradas sem nada para fazer além de jogar conversa fora, eu pensei que seria o fim. Como sobreviver sem o cotidiado que eu conhecia tão bem?

Ah, vida sacana, que determina até quando podemos ter a confortável sensação se segurança - e nos joga em si. Traga.

Mas a vida tem essas coisas. Quando nossa cabeça começa com seus pensamentos frívolos, eis que ela vem e nos dá um tapa: "Acorda que tem coisa que só a porra daqui pra frente".

É, mas eu custei acreditar.

E depois dos quase seis anos (interrompidos, sim, mas seis) dentro da nova "casa", eu já me sentia parte dela. Era tão minha quanto a casa anterior, com sua devidas proporções temporais. Mas era. E como fora aconchegante e, ao mesmo tempo, madrasta. É a vida...

E se as fardas já não existiam mais, nem as caras sempre conhecidas, nem os horários rigorosos a serem cumpridos, restaram-me caras novas, que, depois da estranhesa original, são hoje parte do todo. Ficaram os conhecimentos e as mudanças. Sim, como mudamos.

Adultos, agora?
Duvido...

Certezas?
Algumas muitas poucas...

Casos?
A mais, que somam e permanecem.

É... quem sabe?
Ah, a vida e suas surpresas. Sempre tão gratas...

domingo, 6 de janeiro de 2008

Esse cara não dá mole


Um dos maiores talentos da nova geração brasileira de atores, ele está em toda parte: TV, cinema, anúncios... Volta às telonas este mês como protagonista de Meu Nome não É Johnny, história real de um traficante de classe média. Diz que queria pegar a Beyoncé (nós também) e revela que já usou todo tipo de drogas

POR MAURÍCIO SWARTMAN

Aos 35 anos, Selton Mello, mineiro de Passos, está cada vez melhor. Em 2007, chegou ao auge de sua carreira com o papel de Lourenço em O Cheiro do Ralo. “Costumo brincar que esse ano comecei cheirando ralo e terminei cheirando pó”, brinca, em alusão ao traficante que interpreta em Meu Nome não É Johnny. É seu único momento de descontração. Selton é blasé, desconfiado, orgulhoso e não faz questão de parecer simpático. Fala rápido e sem parar, sempre olhando para tudo ao mesmo tempo. Ansioso, em 50 minutos de entrevista fumou dois cigarros, tomou dois cafés, dois copos d’água e foi uma vez ao banheiro. Na primeira metade da conversa, se empolgou e deu longas respostas a todas as perguntas. Na parte final, parecia estar com a cabeça em outro lugar. E estava mesmo. Ele queria sair para assistir, junto a uma platéia de estudantes, ao final da pré-estréia de seu mais novo trabalho. O filme conta a história real de João Guilherme Estrella, homem de classe média alta que nos anos 90 se tornou um dos maiores traficantes de cocaína da zona sul do Rio de Janeiro. A performance de Selton no filme? Intensa, mas na medida certa. Assim como o próprio ator.

Você, o João Estrella e o diretor do filme, Mauro Llima, têm feito debates com estudantes a respeito do filme. Como tem sido isso?
Uma coisa que é muito forte nesse filme é o fato de o João estar vivo, e estar por aí. Quando eu entro nos debates com o João, as pessoas ficam nos comparando, vendo se eu imitei o cara. Querem saber dele, e não de mim. Eu quase não falo. Está ali, na frente das pessoas, o cara que viveu tudo.

Você se identificou com o personagem?
Sim. Tem aquela coisa de saber até onde vai o limite. “Não sabe brincar, não desce pro play.” Droga é um negócio perigoso, você pode perder a noção e passar do ponto.

Você já tomou?
Sim.

Continua tomando?
(Faz que não com a cabeça) Mas já experimentei de tudo.

Já saiu do controle?
Não, porque eu trabalho muito, faço muita coisa ao mesmo tempo. Sou centrado no meu trabalho, e droga é um negócio muito dispersivo. Qualquer tipo de droga. Com maconha, você fica lesado o dia inteiro e não produz. E com o pó, você fica falando de você, não ouve, fica em outra vibe.

E o cigarro? (A ponto para o que ele está fumando)
Isso aqui é foda. É um vício sinistro e vende em qualquer lugar.

Como foi interpretar alguém que você conheceu?
Foi a primeira vez que fiz um personagem que o cara já estava do meu lado. Ele ia no set, assistia às filmagens, mas não ficava azucrinando. Só observava. Acho que foi mais fácil, pra mim, ter feito o João Estrella do que pro Daniel de Oliveira ter feito o Cazuza. O Cazuza você vê na internet, os shows do cara. Então, o Daniel tinha de ser o Cazuza, não podia inventar. Já o João Estrella era um cara de classe média que começou a cheirar, a vender e virou o maior traficante do lugar. Mas só quem conviveu com ele sabe como ele era. Conversei com ele, ouvi as histórias, mas não imitei. Peguei a vibe do cara, senti como ele era.

Você ficou fã dele?
Não sei se fã... Eu viro fã vendo que ele viveu tudo o que viveu e deu a volta por cima. Hoje, ele é produtor musical, mas poderia estar preso ou ter voltado a traficar. Ele é muito carismático. Eu não poderia fazer um cara filho da puta. Se ele fosse vender enciclopédia, seria o melhor vendedor de enciclopédia do Rio.

E toda aquela cocaína que você cheirou no filme? Qual o truque?
Aquilo era soro fisiológico em pó. Não é bom não, é muito ardido. Dizem que dá até uma limpada, mas depois da primeira carreira eu tive de parar, saíam muitas lágrimas. É como ingerir wasabi, mas pelo nariz.

Queria que você comentasse sobre essa nova fase do cinema nacional.
A gente está aprendendo a fazer. A chamada retomada começou com o Lamarca, e eu participei dela fortemente. Nossa TV sempre vendeu muito bem no exterior. Virou uma indústria. Para o cinema brasileiro vender bem, tem de virar uma indústria. É o que estamos fazendo. Mas acho que vai mudar muito ainda. Em Árido Movie, meu personagem fuma maconha o dia inteiro. E tem uma cena que ele ensina a apertar um baseado. Essa cena foi parar no YouTube, “Bob e o Baseado”. Tem 40 mil acessos. O filme teve 18 mil espectadores no cinema. Com a internet, alguma coisa vai ter de ser revista. Você demora um tempão pra fazer um filme, e é uma dificuldade para arrumar dinheiro. Daí, chega aos cinemas e é visto por 20 mil pessoas.

Fora a pirataria...Exatamente.
Então, é mais jogo você fazer um negócio que ache sensacional, botar no YouTube e ser visto por 500 mil pessoas. Não sei qual é o critério, mas essas coisas vão mexer muito com o mercado.

Qual seu filme preferido?
A trilogia de O Poderoso Chefão faz cabeça geral. Paris, Texas, adoro. Laranja Mecânica. Gosto muito do David Lynch.

E dos seus filmes, qual o que Você mais gosta?
Pô cara, difícil falar. Tenho uns xodozinhos aí. Lavoura Arcaica, pelo que ele representou na minha vida, não só na minha carreira. Foi a partir daí que eu tomei um novo rumo. fuma maconha o dia inteiro. E tem uma cena que ele ensina a apertar um baseado. Essa cena foi parar no YouTube, “Bob e o Baseado”. Tem 40 mil acessos. O filme teve 18 mil espectadores no cinema. Com a internet, Ficamos cinco meses num retiro, eu tinha 25 anos. Eu tinha de escolher: fazia uma novela atrás da outra, ganhando um salário todo mês, confortável, ou iria fazer as coisas que eu quero? De lá pra cá, mudei o rumo. Saí da TV, fui fazer cinema, as coisas que eu queria.

Algum outro filme preferido?
O Cheiro do Ralo é meu xodozaço. Eu pedi pra fazer o personagem. Fui atrás do Heitor Dhalia (diretor do filme), fizemos com pouco dinheiro. Deu supercerto, virou cultzinho.

Com que diretor Você gostaria de trabalhar?
David Lynch. E acho que ele iria gostar também. É um cara com pensamento tão diferente, que acho que iria curtir trabalhar com um ator brasileiro. Ele iria gostar de O Cheiro do Ralo.

Pra Você, qual o melhor ator brasileiro?
Acho o José Dumont genial. O Tony Ramos também é fantástico. Mas o Tony faz muita novela, existe um preconceito de não conseguirem enxergá-lo como ele merece. Acho que o Tony é o nosso Al Pacino. Ele é maravilhoso, comedido, nunca se repete. "Em tropa de Elite, os atores apanhaVam. Eu sou ator. não preciso sair com olho roxo para saber como é levar um tapa na cara"

Perguntaram pro hector babenco por que ele não escolheu atores brasileiros para fazer "O passado". Ele disse que não havia gente suficientemente boa para o papel, que ficou com o ator mexicano Gael García Bernal.
Ele foi muito infeliz. Uma declaração realmente infeliz. Tem o Wagner Moura, o Lázaro Ramos. O Caio Junqueira está maravilhoso em Tropa de Elite.

Quanto o diretor influencia na sua atuação? Existe diretor de ator bom E diretor de ator ruim?
Acho que o cinema recente tem usado muito o artifício do preparador de elenco. Eu fiz 16 filmes e nenhum deles com preparador de elenco. Sempre éramos apenas eu e o diretor. Acho que o preparador pode ser um bom incentivo, mas o bom diretor é aquele que trabalha com o ator, diretamente. Ouço muitas histórias de filmes recentes em que o diretor não dialoga com o ator. Fica um negócio meio esquizofrênico. O diretor está do lado do ator, mas só dá as instruções ao preparador.

E tem o problema do sotaque, que no Brasil não se trabalha muito. Você Vê filmes brasileiros Em que pessoas humildes têm a dicção perfeita.
É. Num filme grande como o Johnny, que às vezes tem um cara que entra para dar uma fala, se ele mandar esquisito, pode botar tudo a perder, tirar a credibilidade. Talvez seja aí que o preparador funcione melhor. Funcionou em filmes grandes como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Mas eu discordo um pouco dos métodos usados. Em Tropa de Elite, os atores viveram aquela onda do Bope. Tapa na cara, chute. Saíam com o braço machucado, roxo. Eu sou ator. Não preciso sair com o olho roxo para descobrir como é tomar um tapa na cara.

Você aceitaria fazer um personagem pequeno para Entrar Em hollywood?
Talvez. Uma coisa é certa: eu jamais pararia a minha vida aqui pra ir lá e começar do zero. Seria uma burrice. Eu tenho um mercado aqui, consegui prestígio, bons trabalhos, belos personagens. O cinema brasileiro é bem visto lá fora. Uma hora você acerta. Eu devo fazer um filme em Londres, que é a história do Jean Charles (brasileiro morto pela polícia britânica, no metrô), com produção do Stephen Frears. Acho que pode ser um bom início lá fora, falando em português e inglês.

Você gostou de fazer O sistema, na Globo?
Gostei. Já tinha feito Os Normais e Os Aspones. Eu, particularmente, me identifico mais com Os Aspones. Uma pena ter acabado. É um programa que eu estaria fazendo até hoje. Era legal porque mostrava essa coisa da burocracia que você encontra no Brasil por todos os lados. E por que acabou? Por vários motivos, não sei dizer ao certo. Acho que a Globo não quis ousar tanto, não agradou ao grande público, que prefere o humor de A Grande Família. Que, por sinal, é um grande programa.

Mudando de assunto... Se você pudesse escolher qualquer mulher do mundo pra passar uma noite? Quem seria?
Puta merda. Acho a Beyoncé mó gostosa.

Você se vê casado, com filhos?
Não. Mas nunca se sabe. Filho é um negócio bacana, mas não me vejo casado. A gente vive numa era em que tudo é possível. Então, eu poderia ter um filho com uma amiga, ou uma mulher que eu admiro.

E política? Você é petista?
Votei no Lula estes anos todos, mas não sou petista. Não sei se votaria de novo. Acho que essa lama que rolou nestes anos, ele não sabe direito o que aconteceu, mas é tudo gente de confiança dele. Tudo meio nebuloso, meio estranho.

Dizem que a gente pensa quatro vezes mais rápidodo que fala. E você fala muito rápido. A quantas anda a sua cabeça?
A minha cabeça é a mil. Sou uma criança hiperativa. Estou terminando o Johnny, lançando O Sistema. Terminando de montar o meu filme, preparando os próximos. Agora, é hora de dar um descanso antes que eu dê uma pifada. Ultimamente, estou sentindo a pressão de ser workaholic.

Se você fosse bilionário, trabalharia menos?
Não. Acho que trabalharia o mesmo tanto. Mas teria dinheiro para produzir minhas próprias coisas. Iria ser mais fácil, apenas.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A bela arte de parar o tempo

Eu me perdi no tempo.
Perca-se.

Flick do meu colega de redação (e amigo-secreto) Alexandre Belém.
Uma pequena sugestão para deleite (com um simples click no título da postagem)!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O tempo


Fim de ano é uma época para se pensar no tempo. Num olhar acanhado, quase inerte, a gente senta abre "boca cheia de dentes" e fica esperando a morte chegar.
Não... separar o tempo em meses talvez não tenha sido uma idéia brilhante. É a falsa impressão, verossímil, de que podemos recomeçar, tentar, reorganizar e fazer tudo de novo. É só mais um amanhecer; mais uma ilusão. Hoje é igual ao amanhã, sem tirar nem por, só com mais uma mudança de dígito.
O fim do ano chega e com ele termina mais uma série de coisas. Trezentos e sessenta e cinco dias para apagar tudo e pensar: "agora vai ser diferente!".
Nesse meio tempo, entre um recomeço e outro, você se perde em seu tempo, em seu meio, e já nem reconhece mais um novo sorriso, um novo abraço ou aquele velho, que se renova. O lugar-comum ofusca; transforma o mutável em algo banal. Pormenores, detalhes, miudezas...
E você só se dá conta de tudo isso, quando o tempo, sempre ele, leva esse pedaço embora. Quando esse momento vira registro no hall das lembranças. Quando uma dor aguda incomoda e você reconhece a saudade.
Sugiro um pedaço de papel e uma caneta. Cinco minutos para pensamentos rápidos. Agora, deite 2007 sobre a folha...
Surpreendente!
Musique-se
Oração ao Tempo
Caetano Veloso
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo

Tempo tempo tempo tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que eu te digo
Tempo tempo tempo tempo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso

Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e migo
Tempo tempo tempo tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo

Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Ela fecha

"Não nasci para casar e lavar cuecas"
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Musique-se

Cor de rosa choque

Nas duas faces de Eva
A bela e a fera
Um certo sorriso de quem nada quer
Sexo frágil não foge à luta
E nem só de cama vive a mulher

Por isso não provoque
É cor-de-rosa choque
Oh, oh, oh, oh, oh Não provoque
É cor-de-rosa choque
Não provoque
É cor-de-rosa choque

Mulher é bicho esquisito
Todo mês sangra
Um sexto sentido maior que a razão
Gata borralheira, você é princesa
Dondoca é uma espécie em extinção

Por isso não provoque
É cor-de-rosa choque
Oh, oh, oh, oh, oh Não provoque
É cor-de-rosa choque
Não provoque
É cor-de-rosa choque

domingo, 16 de dezembro de 2007

Conversa de banheiro

Local: banheiro da redação, logo após o almoço. Duas pessoas conversam:

A: Menina, fui no cardiologista ontem, depois do expediente.
B: E foi? E aí?
A: Tava tudo bem. Conversando com o médico, disse a ele que tinha marcado aquela consulta para depois do expediente. Aí ele me perguntou: "você é jornalista?".
B: hahahaha
A: Eu fiquei toda feliz, achando que o tinha entrevistado e ele tinha me reconhecido.
B: E foi o quê?
A: Ele disse que percebeu pela minha roupa. Disse que tinha desconfiado porque jornalista tem esse jeito "despojado" de se vestir. Pode??
B: Despojado (olhando para as suas próprias roupas)??? A gente anda despojado?
A: Pelo que ele disse... achei logo que ele tava dizendo que eu tava mal vestida.

E as duas se olham no espelho. E saem...

Ok, vamos ao estudo.

Jornalistas, em tese (e na prática), adoram uma roupa "despojada". Embora haja aqueles que insistem em se manter no salto alto, a maioria prefere o velho All Star gasto. Usam uns óculos esquisitos, que entregam logo a sua raça. Acham que sabem de tudo; embora tenham certeza que não sabem nada.

É um bicho esquisito...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

None

O negócio tá feio.
Dias de pura inspiração efêmera.
Daquela que dá e passa.

Paciência...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Os alfinetes do Lobão

Sim, o exêntrico existe e sua melhor forma humana atende pelo apelido de Lobão. Cinqüenta anos de idade e mais de 30 de uma carreira que já passou do céu ao limbo. Hoje, ele volta às alturas: é dono da sua própria gravadora (a Universo paralelo), tem uma revista (a Outracoisa), um programa de televisão (o Debate MTV) e acaba de gravar um acústico cujo investimento chegou a R$ 1,5 milhão (o Acústico MTV Lobão). Sobre esse último, ele declarou: "eu quis fazer o melhor dos acústicos, e consegui".




Com o acústico, Lobão ganhou o Grammy de melhor disco de rock


Aparentemente avesso à modéstia, ele construiu a fama de polêmico. Foi preso várias vezes, por diversos motivos, "todos arbitrários e inconstitucionais", segundo o próprio. Declara-se totalmente contra o nacionalismo exarcerbado, o folclore, gravadoras, jabá e pensadores "atrasadíssimos", como, segundo ele, o escritor Ariano Suassuna. "Por ele, estaríamos vivendo num quilombo, sem computador".

Farpas à parte, Lobão é um poeta sensível em toda dureza de seus versos. Em seu acervo, partes importantes da música popular brasileira, como Me chama, Esta noite não, Noite e dia, entre tantas outras. Juntas, elas somam algo em torno de 350 canções. Já compôs com vários artistas, como Cazuza, com quem assina boas produções como Baby lonest e Azul e amarelo. "Eu não gosto muito que gravem as minhas músicas. Eu compunha com o Cazuza e dizia a ele que não queria ouvir o resultado. E não ouvia. Ele era muito manso comigo", diz, às gargalhadas. De Lobão, Cazuza gravou Vida louca vida e acabou marcando-a com seu estilo.


A entrevista abaixo foi feita por telefone, da redação do Jornal do Commercio, no Recife. Ele, em São Paulo, seguia com a turnê do acústico. Lá pelas tantas, no melhor do papo, ele se irritA com o motorista e dispara reclamações. Lobão perdeu-se na entrevista e o carro que o levaria para o hotel, seguia desavisado ao local onde, mais tarde, ele se apresentaria. Entre "porras" e "caralhos", ele voltou aos trilhos e à conversa, que seguiu assim:






Entrevista exclusiva com o roqueiro Lobão
Tatiana Notaro

Do Caderno C


Atualmente, o quê é o rock brasileiro?
Eu nunca me interessei por rock brasileiro, me considero um músico popular brasileiro. Não tenho nenhuma obrigação de ser ou não ser rock. Pra mim, esta não é a questão. Eu tenho uma intrínseca cultura de rock'n roll, evidentemente, mas sempre me preocupei em fazer música popular brasileira, que é o filão do lugar onde eu vivo. Eu acho que essa é a minha meta, apesar de ter ganho o Grammy de melhor disco de rock com o acústico (risos), o quê eu achei muito legal. Mas eu acredito que sou uma criatura rock'n roll, mas o que eu produzo é música popular brasileira. Sou tão brasileiro quanto Luiz Gonzaga e João Gilberto.

Como é que está a situação dessa música?
Olha, eu, como editor de uma revista cujo combustível maior é o artista novo, enquanto a criação de uma nova geração, a coisa poderia estar melhor.

Você acha que tem mais admiradores ou inimigos?
Olha, a única coisa que eu acho que não cabe na minha personalidade, que seria realmente muito difícil de suportar, é a indiferença. Qualquer outro sentimento é válido (risos). Eu vejo que isso acontece e que é característica da minha personalidade. Evidente, porra, que eu pressinto que sou amado por 95%. Tem uns 3% de ódio e 2% de indecisos, entendeu? (risos)

Você acha que as produções musicais de hoje são um reflexo do público?
Esse negócio nunca me preocupou. Minha produção não tem nada a ver com isso. Eu faço o que eu quero. Eu sou absolutamente livre com o meu trabalho. A minha produção é feita com duas coisas: com tesão e com vontade de excelência. Eu sempre me dediquei a isso e fiz disso uma marca na minha vida, e acredito que isso não vá mudar.

Como tem sido a receptividade do público em relação ao seu programa na MTV?
Tá um tremendo sucesso. As pessoas não acreditaram, nem eu. O programa saiu do traço pra dois pontos de média. Tá um puta sucesso. Em todos os shows que eu faço, as pessoas sempre se referem com muito carinho ao debate. O engraçado é que são pessoas de várias idades (risos). A gente já renovou, eu vou ter que me mudar pra São Paulo, por que é muito difícil ficar na ponte aérea. Em março a gente estréia nova temporada.

Lobão, você tem quantas composições?
Eu tenho umas 300, né?

Perdeu as contas?
Eu devo ter isso. Entre as que eu gravei e as que eu tenho escrito, acho que tem umas 300, 350...

Delas, quais você considera grandes heranças para a música?
Ah, cara, eu tenho muita música. Eu vejo pelos meus álbuns. A canção é como se fosse um capítulo do livro. É como se você perguntasse pra um autor "qual o melhor capítulo do seu romance?". Então, eu gosto muito dos meus três últimos discos, o A vida é doce, Lobão 2001 - uma odisséia no universo paralelo e o Canções dentro da noite escura. O Vida e o Noite são, de longe, os meus melhores trabalhos. Acho isso e toda a crítica especializada concorda.

Tem alguma que você ouve hoje e acha que foi uma falha?
Todos os discos dos anos 80 foram uma merda! Eu já sabia que estava fazendo uma merda e não tinha como fazer diferente. Tinha uma cultura toda impregnada, não se sabiam produzir um disco de rock no Brasil. A gente sofria muito com a falta de qualidade, com a precariedade, com a falta de cultura musical dentro desse segmento. Eu posso dizer um disco que eu gosto desses, que é o Cena de cinema, que é o primeiro, por que é muito fresco, e o Ronaldo foi pra guerra. Os outros, pode jogar fora que é porcaria mesmo (risos). Nesse disco agora, eu resgatei um monte de músicas que foram pessimamente gravadas, que agora ganharam vida. Pelo material não, mas pela produção, eram muito ruins.

Lobão, gravadora mata?
Depende da pessoa, eu acredito que não tenha morrido até agora (risos). É muito difícil, hoje em dia, alguma coisa me fazer mal, entendeu? Eu já passei por tanta coisa nociva, virulenta, truculenta, covarde e sobrevivi a isso, que eu acho que adquiri muitos anti-corpus nos últimos anos.

Em geral, ela mata o artista?
Olha, eu acho que isso é muito relativo, acho que depende do artista. Eu estou lendo a biografia do Hendrix. Ele morreu, principalmente, por preocupações com a vida profissional dele, em relação aos contratos e tudo mais. Isso sempre existe, né? Já perdi muitos anos da minha vida com brigas judiciais seríssimas. É um meio que você tem que ter atenção, mas, eu prefiro não me colocar como vítima nunca, sabe? Se tem algum terror, o fantasma sou eu (risos). Acho que é melhor que as pessoas morram de medo de mim do que eu ficar me lamentando por alguém. Por que as pessoas me respeitam? Por que eu posso causar danos bem piores (risos).

Em uma entrevista à revista Playboy, você disse que, se abrissem a barriga do Tim Maia, lá encontrariam um câncer chamado "Som livre". Qual o motivo disso?
Eu falei isso num show no antigo Metropolitan. Eu estava mesmo muito indignado. O Tim passou os últimos dez anos da vida dele, mal ou bem, totalmente rechaçado, achando que era maluco. O cara morre e mal foi enterrado, já arranjaram tributos. Isso é muito feio, realmente. Prestar uma homenagem a uma pessoa querida como o Tim e ver que isso tem especulações mesquinhas, isso é muito sórdido, né?

Qual foi a última gravadora com a qual você teve contrato?
Foi a Universal, em 98. O acordo de agora, é entre a minha gravadora, a Universo Paralelo, com a Sony Music. É um contrato completamente inédito dentro dos moldes que a gente está acostumado.

O jabá ainda consome o mercado da música no Brasil?
Sim, e é um dos grandes atores na derrocada do disco. Se há uma coisa que não pode ser deduzida do preço final do disco, e que acaba com a concorrência, é o preço embutido do jabá. São dos famigerados "insumos comerciais". Acaba, não somente com a música, por causa desses preços, como aniquila toda a possibilidade da paixão do radialista em fazer a programação de acordo com o que ele gosta, com o que ele fareja. O comercial já marca as cartas todas, então você tira todo o calor que o rádio tinha. Não tem mais por que é tudo negócio sórdido. Aí você tem vários radialistas que não têm mais contato com a música. As pessoas que estão no meio, geralmente, não entendem mais de música. A maioria, 94,8% (risos). E é muito triste. Eu continuo não tocando na maioria das rádios, mas um tiro só não vai me derrubar (risos).

Como você vê esse acústico da MTV?
Quando eu decidi fazer, decidi que seria o melhor acústico que já foi feio. E foi o que aconteceu (risos). Eu pensei: "agora vou fazer um acústico daqueles. Tudo que faltava nos outros, não vai faltar nesse". Liberdade artística, excelência e sonoridade. Conseguimos uma tecnologia de amplificar os violões de maneira adequada. Isso dá uma imensa diferença da qualidade sonora que esse disco tem para a qualidade medíocre que todos os acústicos sempre apresentaram. E essa foi uma das minhas maiores preocupações. Eu já estou cansado de registrar as minhas músicas de maneira medíocre, não quero mais isso. Quando eu vi que teria uma mega produção, mais de R$ 1 milhão à minha disposição para fazer o máximo, eu tinha que pesquisar músicas, violões, instrumentos dos mais variados e aprofundar junto com os músicos e a viagem musical maravilhosa, eu acredito que não tem precedentes. As pessoas vão sacar que o prestígio do Grammy foi por algum motivo. Não é qualquer trabalho que ganha um Grammy, não é verdade? Eu tenho que concordar que houve muitas críticas à minha pessoa, pessoais, mas nenhum crítico, se você percebeu, em nenhum momento conseguiu falar mal do disco. O disco foi aclamado como excepcional em todos os jornais e revistas que a gente conhece aqui no Brasil. Todo mundo queria especular sobre o meu caráter, se eu sou vendido ou se eu não sou, mas, com todas essas ressalvas, as pessoas não conseguiram atingir o disco. Na certa, iam colocar a própria credibilidade profissional em jogo. Eu quero dizer que estou muito satisfeito com esse corredor polonês que tem acontecido esse ano, com um disco absolutamente laureado, uma turnê maravilhosa, estão dizendo que o programa de televisão é o acontecimento televisivo do ano (risos). Os shows que estamos fazendo em vários lugares estão todos lotados, são shows memoráveis, então não podemos estar mais satisfeitos em relação ao nosso trabalho, sabe?

Mudando de assunto agora. Existe uma idade ideal para morrer?
Existe. A hora em que você perde o amor pela vida. Eu acho que enquanto você tiver vontade de viver, você merece viver. }

Quais são os melhores filhos? Os sangüíneos ou a música?
Olha, tudo o que se identifica com você é o melhor, não interessa se tem laços de sangue. Isso tudo é muito pequeno em relação a intensidade que você tem quando você tem uma relação, seja com pessoas, seja com aquilo que você produz.

A boa composição é diretamente proporcional ao tamanho do porre?
Não. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Pelo contrário, eu acho que as melhores composições foram feitas quando eu estava sóbrio.

Quantos problemas com a justiça?
Tenho 132 processos, fui preso inúmeras vezes, perdi até a conta. Todas as vezes foram absurdas, arbitrárias e anti-constitucionais. É só verificar a história, as condições que eu fui foram absurdas. Isso por que eu não passava pelas cortes como arrependido, inclusive, indignado com a tutela que o Estado pretende nos aferir. Eu, enquanto ser humano, não causando mal a terceiros, ninguém tem direito de interferir na minha vida particular, muito menos o Estado.

Isso é um preço que você paga por ser polêmico?
Eu não sou polêmico! Eu vivo num país de baixíssima escolaridade que se assusta com tudo o que uma pessoa mais ou menos instruída fala. Você não percebeu que isso é mais simples ainda? (exalta-se)Eu vivo num país de baixíssima escolaridade, ultraconservador, com tendências à direita, ultra religioso, atrasadíssimo e quando você fala alguma coisa, as pessoas se assustam. Eu não sou deliberadamente polêmico, as polêmicas são conseqüências desse atrito. Eu sou um cara super informado em tudo o que eu falo e vivo num país que despreza informação, entendeu? O Brasil não sabe conviver com vanguarda, com pensamentos de renovação, sabe? Você vê o Ariano Suassuna, por exemplo, é um poço de atraso, apesar de ser um cara genial. Tem uma obra maravilhosa, mas como pensador, é um atraso para o Brasil. Pior é que o cara é um erudito, porra. Então, imagine a besta fera que está no senado nacional, um parlamentar ou um governante que mal tem o segundo grau completo?

Se a gente pudesse fazer uma lista das figuras mais idiotas do país, quais encabeçariam a lista?
Olha, nós temos uma safra tamanha, uma variedade tamanha, que seria uma injustiça com os demais não nominá-los (risos). O que temos de pessoas sórdidas, idiotas, chupa-sangue e retrógradas em vários setores... de maneira nenhuma Ariano Suassuna seria uma pessoa sórdida, ele simplesmente é atrasadíssimo. Por ele, estaríamos num quilombo, sem computador (risos). Ele quer só coisas brasileiras, como se o Brasil fosse a coisa mais pura e intocada da humanidade. Isso me dá medo, porque isso é muito parecido com o nazismo, não é? E não há por que ter orgulho disso, muito pelo contrário, isso é um fanatismo armorial da pior qualidade. Isso é um cancro, por que ainda fica mascarado pela boa intensão, por que não tem o mau caratismo, apenas o fanatismo. Mas isso já é o suficiente pra gente ficar mais 50 anos para poder se livrar disso. Folclore é uma merda! Uma país bom não tem folclore. Acho que a gente tinha que se urbanizar e se globalizar. Eu to se saco cheio dessa coisa pé-de-chinelo, nacionalista de merda em que o Brasil vive, sabe? Principalmente sob as rédeas do PT, você deve ter percebido que isso deve ter aumentado.

Quem é o maior ícone da música de todos os tempos?
Da música contemporânea popular? Hendrix, né?

E aqui no Brasil, quem você acha que fez música boa, de qualidade, que correspondia ao seu tempo?
Ah, rapaz, tá pra nascer (risos). Não vem ninguém, amiga. Tem um casos bacanas, mas nada que você possa dizer "esse cara é um deus". Villa Lobos é bom, mas revestido de muito nacionalismo, que era o paradigma naquela época, mas a qualidade da obra é muito intensa. Isso, na música clássica. Agora, na música popular, cara, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, aquelas coisas. Mas eu não ouço nada disso. Pra mi, seria uma peça de museu. É bacana, absolutamente louvável, mas, porra, eu ouço uma vez na vida e outra na morte. Não é uma coisa que tenha me influenciado diretamente. O que me influenciou diretamente aqui no Brasil foram os Mutantes, Macalé, Tim Maia, Jorge Bem, a Jovem Guarda (Erasmo e Roberto), essas coisas mais espertas.

Qual é a parceria mais marcante, não só na composição, mas de pessoas que regravaram músicas suas?
Sinceramente, eu não gosto de ouvir minha música na boa de outras pessoas. Quando eu compunha com Cazuza, eu dizia a ele, a gente compõe mas você não me mostra. Eu fica decepcionadíssimo. O piano não é esse! Não é essa batida! Ai, então, não ouvia. Comigo ele era manso (risos).

Depois de 50 anos, como é a cabeça do Lobão hoje?
A mesma de sempre. Estou com a mesma vontade de produzir, mesma vontade de achar uma linguagem, maior vontade de compor e com a mesma ânsia de aprender novas coisas. Eu sou superativo e não sinto nenhuma diferença de energia. Eu nunca fiz shows tão intensos quanto nesses dois anos, têm sido incendiários. Aos 50 anos, eu estou muito bem (risos).

Então o Lobão cinquentão não é careta...
Olha, eu não consigo olhar as coisas com esse maniqueísmo. Eu sempre fui uma pessoa muito íntegra com as minhas posições, mudo muito de opinião, por que eu sou um cara em evolução, mas o meu eixo é o meu eixo (risos).

Deus é burocrata?
Não. Se Deus existir, ele não é burocrata. O diabo deve ser burocrata (risos), ou um arcanjo lá, de asas, que inventou coisas para atrasar a vida da gente.

Você acha que a gente ainda se safa da "idade da mídia"?
Eu sobrevivi a isso. Eu sou a mídia (risos). Hoje em dia, EU tenho uma gravadora, EU tenho uma revista, EU tenho um programa de televisão. Não tem mais essa não.

Agüenta ouvir Me chama ainda?
Não só agüento como adoro, uma música linda daquela. Tem músicas que cada vez que você canta é um mantra. Me chama da maneira como eu faço é irretocável. Tanto é que nenhuma versão se conserva perto da minha.

E sobre o episódio em que João Gilberto, ao gravar Me chama, tirou o verso "nem sempre se vê mágica no absurdo"?
Mesmo que ele não tivesse tirado, o arranjo foi tão vagabundo que não marca. Eu acho aquilo horrível. Pelo menos na minha música. Fiquei muito triste depois. Muita gente por aí grava, mas eu nem ouço. Segundo ele me disse, ele tirou o verso por que não entendeu. Ai eu disse: "mas você não me telefona toda hora, por que não me telefonou perguntando o quê é que era'? Procure saber! (risos)

O que é a "mágica no absurdo"?
Deixa eu tentar pegar um exemplo bem prosaico. O torcedor corinthiano deve estar dizendo isso depois que viu o Corinthias empatar ontem. Eles fizeram um gol, mas não adiantou, né? Nem sempre se vê mágica no absurdo (risos).

De onde veio o verso?
Ah, esse é muito antigo. Eu vi dois filmes que me ajudaram. O primeiro foi The flash dance. Quando eu vi, fui tirar uma balada e acabou se tornando refrão de Noite e dia [canta: Você está me convidando...]. Aí eu fui ver um filme em que o Touro sentadofaz a dança da chuva e passa a tarde inteira dançando. Chegou um determinado momento, sentou-se , e não surgiu porra nenhuma, e ele disse "é, nem sempre as mágicas funcionam". Aí eu formulei a frase, mas ela ficou jogada no meu bloco de anotações. Aí eu pensei que tinha que usar a frase numa música. Aí quando veio a parte da canção Me chama, ela caiu como uma luva. Aí começou a música por aí, mas ela veio de arrastando uns quatro anos antes.

Você quer alcançar alguma coisa com o novo acústico?
Todo conceito do acústico, além do divertimento, era poder mostrar que as minhas duas fases podem conviver juntas, com coerência. Elas têm excelência. E poder mostrar as minhas coisas para o público. Pô, eu inventei a música independente mas eu quero mostrar que existo. Teve gente que pensou que eu tinha virado uma personalidade, por que eu nunca saí da mídia enquanto pessoa, né? Só me proibiram de tocar em rádio, então eu achei essa uma solução bem interessante para acabar com esse mal-estar. Foi só eu colocar a cabecinha de fora que eu ganhei o Grammy (risos). A partir de agora, tem rádio me tocando, o disco é um sucesso. Eu não poderia fazer isso na independência, por que eu não tenho R$ 1,5 milhão para investir. Eu fico feliz de ter tido essa liberdade. Todas as gravadoras vieram a trás de mim para querer fazer e eu pude escolher. Com a Sony Music, além desse disco, vai sair toda a minha caixa de originais no ano que vem.

Musicalmente, você se considera um ícone a ser copiado?
Até agora, ninguém conseguiu e nem vão conseguir (risos).

Por que não?
Porque é difícil. Eu sou uma pessoa muito peculiar e eu não gostaria de ser imitado não. Tomara que as pessoas tenham em mente que eu tenho uma trajetória legal. Minha história é muito bonita, como músico e como uma pessoa que conseguiu se colocar. Se isso servir de inspiração, eu vou ficar super satisfeito.

Você acha que a sua vida daria um bom livro?
Daria sim, daria um super livro.

Vai fazer?
Eu só vou fazer quando eu perceber que eu já passei da metade daquilo que eu queria fazer.

E agora, você está em que estágio?
Eu acho que eu estou no primeiro décimo da minha vida (risos).