
Assim mesmo, sempre chego na redação com esperanças de que o dia será melhor. Com esperança de que não haverá tiros, ligações pro IML e perguntas do tipo "o corpo ainda está aí?", ou "fulaninho de tal vai pro Cotel de que horas?"...
Hoje eu senti um nó na garganta quando a chefe de reportagem me delegou a morte de Rafael. Até ontem, era uma criatura de 24 anos, que tocava flauta e se divertia por aí com sua música. Hoje, virou personagem de script de jornal... Isso eu pensava enquanto empilhava as folhas do roteiro e vi a minha nota sobre o caso, na página 13.
Fiquei indignada. "Vou ter que ligar para algum parente dele?", perguntei à chefe de reportagem. "Se precisar, sim", ela me respondeu. Então minha chefe me olha do birô e diz: "Não fique assim. Vista sua máscara de jornalista. Esse é seu trabalho".
Ah, tenha paciência. Fiz mil malabarismos, liguei pro IML, pra assessoria da banda em São Paulo, pra um cardiologista... tudo para não ter que tocar na ferida alheia. E deu certo. Retranca e nota abaixo, para registrar nos meus arquivos!
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FALECIMENTO/ RAFAEL
FOI ENTERRADO NA TARDE DE HOJE, NO CEMITÉRIO DE SANTO AMARO, O CORPO DO FLAUTISTA DA BANDA MOMBOJÓ, RAFAEL VIRGÍNIO VITAL TORRES, DE 24 ANOS.// ONTEM À NOITE, RAFAEL SENTIU FORTES DORES NO PEITO E FOI LEVADO AO HOSPITAL DA RESTAURAÇÃO, MAS JÁ CHEGOU SEM VIDA.// DE ACORDO COM O LAUDO DO SERVIÇO DE VERIFICAÇÃO DE ÓBITOS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO, A CAUSA FOI UM ENFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO.// SEGUNDO A ASSESSORIA DE IMPRENSA DA BANDA, O MÚSICO SOFRIA DE TROMBOCITOSE, UMA DOENÇA QUE AUMENTA A QUANTIDADE DE PLAQUETAS NO SANGUE, PODENDO LEVAR AO ENFARTO.// A BANDA MOMBOJÓ FOI CRIADA EM 2001 E JÁ EM 2003 RECEBEU O PRÊMIO DE MELHOR GRUPO MUSICAL PELA ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE CRÍTICOS DE ARTE.///
CONTATOS
SVO – 2126.8557
Cemitério de Santo Amaro – 3232-1414
Kátia Cesana (assessora da banda) – (11) 8122.9051
Dr. Rubens (cardiologista) – 9114.2828
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Uma singela homenagem ao meu personagem de hoje.
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E um minuto de música!
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sábado, 7 de julho de 2007
As pedras no chinelo rasteiro
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
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