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sábado, 30 de julho de 2011

CONTO - Cadeira branca

João morreu no dia 29 de abril, há alguns anos, em uma das listas que a morte cumpre cotidianamente. Todos os vizinhos lamentaram com o mesmo jargão: “tão jovem, coitado” – reiterando aquela velha mania que têm os homens, que sempre discriminam a morte, como se ela evitável fosse.

Na verdade, João se foi aos 34, pouco mais de dois meses antes de chegar aos 35. Para ele, nem tão jovem assim. Raciocinava que sua vida, até ali, fora curta demais, e como previa morrer aos 70, tinha pela frente pouco tempo.

Quando o enfarte veio e foi, quiseram vestir-lhe em uma camisa de linho, devidamente adequada à ocasião. Talvez acreditassem que João precisaria chegar apresentável ao recinto celeste. “Sabe-se lá com quem encontrará?”. Cogitaram que ele, de toda forma, pudesse fazer uma primeira parada no inferno, talvez para pagar algum lapso rápido. Afinal de contas, tudo o que morre acaba irremediável e indissoluvelmente absolvido de seus erros. “Tão bom, coitado. Pessoa boa”.

Amarela? Melhor que seja azul, para combinar com a cor do firmamento. Pra lá é que ele vai.

Se pudesse ter levado algo para o “além-túmulo”, João queria aquela cadeira branca da cozinha, de palhinha, tinta já gasta. Desde criança, passara tantos bons momentos ali sobre, assistindo às habilidades culinárias da avó e da ama negra, que foi a primeira coisa na qual pensou, já que as duas também já haviam entrado nas estatísticas da morte. Poderiam, quem sabe, compor novamente o cenário do outro lado. Ele sobre a cadeira branca de palhinha; elas a bater massa. Ainda pensou em voltar rapidamente, levar a cadeira consigo e as lembranças – mas lembrou que “desse mundo, nada se leva” e desistiu da ideia. Deixou a cadeira (e as lembranças) lá mesmo.



Talvez, quem sabe, pudesse levar um livro; ainda pensou nisso, mas detestava a bíblia e, fora o catálogo telefônico e um livro de receitas (com aquela de biscoito de povilho e torta de castanhas do Pará), era o único exemplar que tinha em casa. Desistiu. Jamais saíra do Gênesis, embora vivesse no apocalipse.

Pensou ainda, antes de atravessar totalmente, em levar algumas fitas K7, assim, como quem não quisesse nada, dentro do bolso da calça de linho. Havia a remota, improvável possibilidade de encontrar um rádio ou coisa parecida. Ademais, que mais haveria para fazer? Junto com as fitas, podia levar pilhas. Amarelas, porque as alcalinas são caras demais e João achou melhor não partir liso, liso.

Por um instante, pensou em voltar, levar umas cuecas, meias, esparadrapo, uma bússola, coisas que, com certeza, precisará. Pensou. Talvez um mapa do lugar, se soubesse para onde estava indo, uma caixa de canetas e uma resma de papel. Um bloco, que pesa menos! Talvez uma revista de palavras-cruzadas de nível difícil, para demorar mais. Acomodou a resma debaixo do braço – precisava estar pronto para a eternidade. (TN)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ali, na Rua Chile, 371


Olha que maravilha!!

Buenos Aires (a capital internacional do Brasil) acaba de ganhar uma estátua da sua filha mais ilustre*. Na esquina das ruas Defensa e Chile, no bairro de Monserrat, bem sentada num banquinho, está Mafalda, a filha-prodígio de Quino (o escritor Joaquín Salvador Lavado, sobre quem você pode ler mais aqui). De acordo com o escultor, a estátua retrata a Mafalda em tamanho real. Olhaí:

Mafalda e seu "pai", Quino
A escultura, do artista Pablo Irrgang foi inaugurada no sábado passado, 30 de agosto, com presenças do criador e de fãs. Fãs mesmo, como o cartunista Carlos Garaycochea que propôs que Mafalda fosse estampada nas notas do peso argentino.

[Coitadinha da Mafalda, Garaucochea! Com sua sapiência infanto-psicológica, ela merece virar estampa para moedas mais valorizadas, como o Euro. Veja aqui a cotação de hoje para o peso argentino.]

Quino declinou a proposta, e disse que, se fosse o caso, a figura mais adequada para tal função era Manolito, o amiguinho capitalista-mirim de Mafalda - aspirante a Rockefeller portenho - cujo pai era o dono do armazén "Don Manolo". O tal do "Don Manolo vende baratíssimo!". (blog de Ariel Palácios)

É provável que a estátua seja deslocada no lugar atual até ficar em frente ao prédio em que “mora” Mafalda, na Rua Chile, 371. Foi neste endereço onde Quino começou a desenha-la nos anos 60.

De acordo com o post de Ariel Palácios (veja completo aqui), a prefeitura de Buenos Aires finalmente tomou vergonha, deixou a burocracia de lado, e colocou uma placa na fachada do prédio, indicando a localização da residência de Mafalda, “a menina que odeia sopa, ama os Beatles e é ‘cult’ há décadas”.


Curiosidades:

- Mafalda foi publicada somente entre 1964 e 1973.
- Jornalistas investigaram tirinhas e comentários de Quino até descobrir o “verdadeiro” endereço de Mafalda. Juntando o “coletivo 86” e demais indicações, chegaram à conclusão que a mocinha mora na Rua Chile, 371, no décimo andar, apartamento “E”. O resultado foi confirmado por Quino, sendo este o endereço do escritor na década de 60.
- Mafalda foi oficialmente criada em 25 de março de 1962, com tinta nanquim, para uma propaganda de uma empresa de eletrodométicos, a Mansfield. O anúncio deveria ser publicado no Clarín, mas o contrato foi rompido e a campanha, cancelada.
- A estreia de Mafalda nas tirinhas foi em 29 de setembro de 1964.
- A personagem Mafalda tem seis anos (e uma capacidade surreal de filosofar).


* Mafalda é mais inteligente que qualquer Perón...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

É cada uma...

Meu ócio profissional tem sido de grande valia, pelo menos no que diz respeito ao que eu chamo de “acúmulo de experiência de vida”. Havia cinco anos, eu me dedicava única exclusivamente ao jornalismo e seus afins, então estar desligada dessa obrigação diária acabou de mostrando outras coisas. Claro que, se pudesse escolher, não teria optado por isso, mas já que estamos aqui, vamos aproveitar.

Fui intimada a prestar serviços na loja da minha mãe, agora no período de namorados. Mas não se engane, não é um mero passatempo. Sendo a loja pequena, certamente isso seria uma razão para que o trabalho, igualmente, fosse pequeno. Ledo engano... em épocas como esta, quando as pessoas tem motivos óbvios para presentear, a loja da minha mãe fica absurdamente cheia. Absurdamente entupida de gente...

Pois bem. Apesar de fazer parte de uma família voltada ao comércio, de certo, esse dom não veio adicionado aos meus genes. Além de não ter poder de persuasão para fazer alguém comprar, a paciência não é lá meu forte. Minha mãe sabe disso, então me poupa de ficar no balcão e eu fico bem instalada na embalagem. Uma semana inteira fazendo pacotes, embalando presentes.

Vamos em frente.

Sendo a loja pequena, por ora, forma-se uma enorme aglomeração. Eu olho pra fora e vejo a fila da embalagem atravessando o salão de uma ponta até outra. Bate o desespero. Pior é a criatura, mesmo vendo a multidão, insiste:

- Não pode ser embalagem prateada?
- Não, senhora, não tem deste tamanho...
- E aquela dali?
- Essa é o tamanho extra-grande, senhora. Não tenho como embalar seu chaveiro dele...

Tem quem reclame da embalagem quando eu já terminei todo trabalho. Ponho um papel cheio de corações, um laço vermelho bem fofo, colo o adesivo da loja, e...:

- Moça, esse presente é pra um amigo. Essa embalagem ficou muito gay!
- ...

O melhor do comércio, particularmente esses que ficam no centro da cidade, é ter que lidar com todo tipo de gente. Ok, não é “o melhor”, mas é interessante.

Dia desses, chega uma senhora com um pacote de uma loja de sapatos, querendo um laço para incrementar. Prontamente, a atendi. Aí ela olha pro balcão e vê um sapo de pelúcia de um cliente que estava no caixa. Drama um:

- Ah, eu quero esse sapo...
- Senhora, este sapo já tem dono, aqui é o balcão da embalagem.
- Ah, mas eu quero esse mesmo. Tome o dinheiro
– diz, me empurrando uma nota de R$ 50.
- Senhora, infelizmente este já está vendido. Se a senhora quiser, pode pedir um no balcão de pelúcia. - Completei, vendo o ar de aflição do verdadeiro dono do sapo, que esperava logo atrás.

Tardelle correu e trouxe outro sapo, mas não teve jeito. Drama dois:

- Não... esse é feio – disse a senhora, sobre o sapo EXATAMENTE IGUAL ao outro – eu quero aquele.
- Mas aquele é desse senhor
– explicou Tardelle, com toda paciência.
- Então eu não quero nenhum. Vou comprar em outra loja...
- Fique à vontade, senhora.

Nessa, eu já tinha me retirado, com o sangue em ebulição. É cada uma...

Mas nem só de aborrecimento vivem aqueles que vivem do comércio. Há também alguns fatos engraçados que ajudam a desopilar. Já no dia 12, passando das 19h, chegam dois rapazes que haviam comprado duas caixas e me pediram que ajudasse a acomodar os presentes nelas. Então me deram uma rosa [aquelas “solitárias”, embaladas individualmente] – eu medi, cortei o talo, amarrei e pus nas caixas. Era apenas uma parte do presente, composto ainda por um sutiã preto e uma calcinha microscópica. Com certeza, eu não caberia numa daquelas nem em 5 mil anos de dieta.

Caixa devidamente fechada, os dois, agradecidos pela minha “destreza e habilidade”, me ofereceram R$ 5 de gorjeta, que eu, educadamente, rejeitei.

- Obrigada, senhor, mas não precisa. Espero que seu presente faça sucesso.
- Vai fazer, moça... mais do que sucesso.

E sairam gargalhando.
É cada uma....


SUCESSSO Nem em 5 mil anos

sábado, 30 de maio de 2009

E onde vocês moram mesmo? **


Estar no lugar certo na hora certa pode mudar a sua vida, concorda? Num conceito não tão drástico assim, estar no lugar certo na hora errada também tem suas consequências. Pois bem.

Dia desses, fui ao oftalmologista para ele me receitar novos óculos para substituir os velhos e arranhados. Entreguei os documentos à secretária e disse a Tardelle:

- Bora sentar ali em cima? - me referindo ao salão, logo depois das escadas.
- Não, bora ficar aqui mesmo. - respondeu, já sentadão.

Aí peguei minha Rolling Stones do mês e tentei começar uma leitura. No lugar onde estávamos sentados havia duas cadeiras vagas, uma de cada lado. Aí senta uma senhora do lado dele e puxa conversa:

- Tá cheio aqui, né?
- É, né? - Responde, meio sem puxar muito papo, como lhe é peculiar.

Pronto, foi a deixa. Eu pensei que enterrar minha cabeça na entrevista com Caetano Veloso ia me salvar, mas eis que um senhor, sentado do meu lado, também puxa conversa e emenda uma piada:

- Eu assisti há muito tempo atrás no A praça é nossa...

Foi um esforço surreal para parecer simpática, pelo menos por fora. Mas aí foi a deixa também, e ficamos os dois, incumbidos de dar atenção aos dois senhores que, saberíamos dali a alguns minutos, eram um casal.

Dona Maria José (ou Mazé), 73 anos, era super falante, daquelas senhoras espaçosas, engraçadas. Pois não é que ela achou de se engraçar com meu namorado?


- Ela é ciumenta? - Perguntou Dona Mazé a Tardelle, referindo-se a mim.
- É, muito. - Respondeu ele, rindo.
- É... ela tem que ser mesmo. Um rapaz bonito desses...


Aí ela me puxa pelo braço e solta:

- Se eu fosse mocinha, tu tinhas deixado eu conversar com ele?
- Claro que não, né? – respondi.


Dona Mazé deu uma gargalhada...

- Mas do jeito que as coisas estão hoje, - continuou – você deveria ter medo!

- E como estão as coisas hoje?

- Você não viu Elza Soares? Ela tem mais de 70 também e namora um menino de 25.


Ri pra não dar um fora. Fiquei com medo do Estatuto do Idoso.


O problema foi que, no meio da graça, a gente começou a perceber algo errado:

- Vocês moram onde? – perguntou a “doce vovó”.

- Aqui perto - respondi.


Em 15 minutos, ela pergunta:

- E vocês moram onde?

- Ali perto do Náutico...


Vamos contabilizar: foram 35 minutos de espera, 30 minutos de conversa. Dez vezes ela perguntou onde a gente mora, outras oito, nossos nomes:

- E como são os nomes de vocês?

- Tatiana e Tardelle...

- Tardelle... que nome diferente. É bonito. Como se escreve?


Mas ela anotou num pedaço de papel pra não esquecer mais. O problema deve ter sido encontrar aquilo lá escrito e não saber do que se tratava... Mas como a própria Dona Mazé repetiu 14 vezes: "Melhor ser falante do que não falar nada, né?"


É...



** Dona Mazé sofre do Mal de Alzheimer, doença degenerativa do sistema nervoso, caracterizada pela demência.

domingo, 17 de maio de 2009

Operação radiola

Estou à procura de uma radiola. Tardelle diz que é coisa de velho e que prefere ipods. Eu não. Eu amo som de vinil, aquele chiado...

Fui no centro da cidade atrás de uma dessas relíquias, até uma rua daqui que tem algumas lojas de móveis, umas funerárias e duas lojas de antiguidades. Numa delas, encontrei várias carcaças do que, um dia, há muuuuito tempo, foi uma radiola. Entretanto, segundo o dono da loja, só uma funcionava. Aí ele tirou pilhas de coisas de cima e desenterrou uma preciosidade: uma radiola quarentona, mala, com duas caixas de som, toca-fitas e rádio AM.

Eu fiquei encantada, aí virei pro dono da loja:
- Quanto custa?
- Seissentos reais. Ela funciona...
- Ah... ela funciona [num tom de desânimo]

E fui embora da loja. No caminho de volta. Tardelle ficou me dando sermão, dizendo que era melhor comprar um ipod.
- Cabe muito mais músicas - ele disse.
- Mas não toca vinil - rebati.
- Ainda bem... - ele disse.
Fiquei calada pra não me aborrecer mais ainda.

Por enquanto, a operação radiola está abortada por falta de recursos.

Agora à noite, tava conversando com Bruno. Ele é adepto ao passado suas velharias musicais e, com certeza, seria muito mais sensível ao meu desejo. Fiz uma busca no Mercado Livre e fui passando algumas coisas pra ele ver.

Eis que uma radiola me chama atenção: rosa choque e por R$ 159,00!!! Já ia dizendo a Bruno que tinha encontrado a minha radiola "nova", mas parei antes pra ler o anúncio direito. Então, tive que dividir com ele a minha frustração:

- Tinha achado uma ótima aqui. Era até rosa e tinha um preço legal. A chamada do anúncio dizia que ela funcionava, mas olha o que diz no rodapé: "A radiola está funcionando (rodando), mas não emite som". - disse.

E Bruno:
- Oxe, deve ser pra surdo!


Roda, mas não emite som



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Ps: Alguém conhece alguém que queria vender uma radiola QUE RODE e EMITA SOM?