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domingo, 29 de janeiro de 2012

"Anjo pornográfico" - trechos

Nasce Suzana Flag


"A história começava com um casamento entre uma jovem feia e ingênua e um viúvo dominador que não conseguia esquecer a primeira mulher - linda, inteligente, fabulosa -, todos morando numa fazenda isolada. Até aí era um plágio de 'Rebecca, a mulher inesquecível', de Daphne de Maurier, que Nelson vira no filme de Hitchcock com Joan Fontaine e Laurence Olivier. (Os moleques chamavam o filme de 'Recível, a mulher inesquebeca'.) Mas, dali para frente, sentia-se o dedo rodrigueano: a primeira mulher morrera estraçalhada por cachorros em uma situação misteriosa. O viúvo, aleijado de uma perna, tinha um irmão irresistível que passara a dar em cima da nova cunhada. Esse irmão tinha uma amante escondida na floresta e, dentro da casa da fazenda, havia uma prima a fim do viúvo. Os dois irmãos tinha uma mãe dominadora e as subtramas ficam por conta de um pelotão de irmãs solteironas e virgens.

Leão Gondim, entusiasmado, rugiu OK. Os seis capítulos começariam a sair enquanto Nelson seguiria fazendo outros, para ter sempre alguns à frente. Precisavam de um título - e de um pseudônimo, porque Nelson, o autor 'sério', não queria assinar o folhetim. Para que não tivesse dúvida, deveria ser um pseudônimo feminino. Freddy concordou, mas achava que deveria ser um nome inglês - se fosse brasileiro, ninguém leria. Nelson insistia num nacional, algo assim como Suzana, nome da mulher de seu primo Augusto. Freddy cedeu e forneceu o sobrenome.

Daí nasceu 'Suzana Flag'. Com essa assinatura, o título do folhetim só pode ser aquele: 'Meu destino é pecar'."

sábado, 28 de janeiro de 2012

"Anjo pornográfico" - trechos

Vestido de noiva


"Depois de praticamente inventar o teatro brasileiro, o autor de 'Vestido de noiva' viu-se na avenida Rio Branco, escura e deserta, caminhando feito um zumbi em direção à leiteria Palmira, no largo do Carioca. Ele, sua mulher, sua cunhada Julieta e sua sogra foram comer o 'jantar Avenida' da leiteria: bife, batata frita e dois ovos. (Pediu pão por fora.) O resto do elenco fora comemorar na chique sorveteria 'A brasileira', na Cinelândia.

E sabe porque Nelson não foi com os outros para 'A brasileira'? Porque não tinha dinheiro.

Não lhe faltaria, evidentemente, quem disputasse a primazia de pagar por ele. Mas, naquele momento, ainda não se dera conta de que, fechado o pano de 'Vestido de noiva', ele deixara de ser o miserável que se tornara desde a morte de Roberto*.

A morte de Roberto. Quando Nelson pegou o bonde e volta para a praça Bandeira, já eram quase duas da manhã de 29 de dezembro de 1943. Sem tirar nem pôr - nem um dia, nem uma hora, talvez nem um minuto - completavam-se catorze anos que seu irmão morrera."

Livro de Ruy Castro
*Roberto Rodrigues, um dos irmãos mais velhos de Nelson, que fora assassinado pela recém-desquitada Sylvia Seraphim. Digamos que estava de pé no lugar errado, na hora errada. O tiro foi fatal.