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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Folha mostra contrastes entre Zonas da Mata

TATIANA NOTARO

Dois caminhos distintos do progresso podem ser apontados no mapa de Pernambuco - duas áreas próximas que têm números, estatísticas de crescimento e ritmo de desenvolvimento bem diferentes. Para traçar as linhas do crescimento econômico, a Folha de Pernambuco percorreu mais de 1 mil quilômetros nas Zonas da Mata Norte e Sul do Estado e conversou com autoridades e cidadãos que vi­vem dentro do tão falado “desenvolvimento chinês” pernambucano. Foram 17 municípios visitados e muitas disparidades constatadas. O resultado publicamos amanhã, no caderno especial “Zona da Mata: terra de contrastes”.

A mudança de vida nos municípios localizados no entorno de Suape, as transformações nem sempre benéficas da paisagem urbana e rural, a atividade canavieira e a falta de mão de obra são alguns dos itens da Mata Sul. Relatos que mostram além da economia - mais do que o progresso - como estão refletindo os investimentos que chegam ao Porto e seus entornos, ao seu território estratégico.

No outro extremo, é a cana-de-açúcar que movimenta as cidades. Goiana, Carpina, Itaquitinga são algumas das que dependem quase exclusivamente das usinas, maiores fontes de renda da população, junto com as prefeituras. A Mata Norte enfrenta ainda a escassez de chuvas, que compromete a sua principal atividade, além da sazonalidade do trabalho safrista e ainda um número bem reduzido de empreendimentos destinados à região. Com o caderno especial “Zona da Mata: terra de contrastes”, firmamos um registro desse momento peculiar pelo qual passa a economia de Pernambuco. Trajeto do progresso que modifica a vida das pessoas, das cidades. Para melhor.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O crescimento da célula cancerígena

Eu não gosto de usar o já cansado termo "contraste" para descrever disparidades gritantes e seus metros quadrados, mas preciso admitir que, para este caso, o vocábulo é bem propício. Então, todas as vezes que você ouvir falar em "contrastes", pense imediatamente em Pernambuco. Estado que mais cresce no País, que cresce mais que o País, mas que consegue cultivar todas as discrepâncias que se espera de um rico em ascensão.

Nos cinco dias que estivemos (a repórter fotográfica Andréa Rego Barros, o motorista Raimundo Nonato e eu) percorrendo um traçado de estrada até Palmares, eu descobri um Pernambuco diferente daquele cantado em pautas no Palácio do Campo das Princesas, a sede oficial do Governo. E não é um sentimento de imediatismo que me decepciona. Ontem, decupando a fita com entrevista da assessora especial do prefeito de Ipojuca, Simone Osias, fiquei refletindo quando ela disse: "Quando chegamos aqui, em 2005, Suape já exista há mais de 20 anos e Porto de Galinhas, há 19 anos. Então fomos pra rua saber o motivo pelo qual as pessoas continuavam pobres". Faltava educação, deficit que continua.

As cidades do interior, que antes eram simples e pacatas, hoje têm aspecto de favela. E nem falo de Barreiros e Palmares, que estão ainda se recuperando das águas de junho, que arrancaram e destruíram tudo o que havia pela frente. A natureza não foi tão cruel em Escada e, afirmo, nunca vi cidade mais feia, maltratada e favelizada. Em Ribeirão, nem um lugar limpo para passar a noite encontramos - as únicas pousadas da cidade, três ou quatro, não tinham a menor condição de receber esse nome. São sujas, feias, cheiram mal.

Lembrei também de outro entrevistado, o economista ecológico Clóvis Cavalcanti. Eu estava fazendo uma especial sobre sustentabilidade, em outubro passado, e o questionei sobre o desenvolvimento do Estado, ao que ele respondeu: "é a mesma lógica da célula cancerígena, que cresce por crescer". É a melhor explicação. Ainda estou analisando os dados.

O melhor da minha profissão é o aprendizado diário, rotineiro. Diariamente, eu vejo coisas novas, mas, principalmente, todos os dias eu mudo de ideia. Todos os dias, há nova contagens, novas cifras e motivos de esperança e de revolta. A injustiça é muito grande e eu ainda tenho a inocência de me surpreender quando vejo alguém que chama de esperteza o que é oportunismo.

Pernambuco cresce, sim. O censo do IBGE já mostra o aumento da renda percapita, do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mas os números são muito mais generosos que o que se vê. O que temos é um crescimento atropelado, "com índices chineses", mas não estamos na China. Quando se para para conversar com as pessoas nas ruas, quando se questiona prefeitos, se percebe que este é apenas o começo. Bate uma desesperança. Desenvolvimento concreto é aquele que abre escolas, asfalta ruas, equipa hospitais e dá dignidade - não é só movido à indústrias.
Foto: Andréa Rego Barros

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Jantar nas alturas

No começo desta semana, eu fui enviada pelas minhas (queridas) chefes para o Rio de Janeiro, atendendo a um convite do HSBC para conhecer um novo serviço que o banco passa a oferecer este ano, o Advance. Trata-se de um atendimento personalizado para jovens (e não tão jovens) que tenham “vocação para crescer”. Ganhando de R$ 3,5 mil a R$ 7 mil, você já está apto a ser um cliente Advance e pode receber orientação financeira para aplicar corretamente o seu dinheiro e assim, chegar onde você quer. A campanha de marketing, muito bem pensada, vende a proposta: “Onde você quer chegar?”.


Fim de tarde pela orla de Copacabana

De fato, a pergunta é boa.

Pois então. Para apresentar a ideia, o HSBC convidou a jornalistas de todo País para um jantar nas alturas (assim mesmo, sem aspas). Não há metáforas aqui. Estou mesmo falando de comer a 50 metros do chão, em um “restaurante” suspenso por um guindaste sobre o Pier Mauá, no Rio.

Bem, mas deixem-me contar o meu ponto de vista da coisa. Primeiro, eu morro de medo de altura. Não chega a ser uma fobia desenfrada, louca, mas é um medo grande, daqueles que me impede de qualquer aventura que se aproxime de alturas. Me impede, inclusive, de me sentir confortável em aviões.


Vista das alturas, do Pier Mauá

Mas, enfim.

A pauta foi “presentinho” de estreia das minhas novas chefes, que prontamente me perguntaram se eu tenho medo de altura. A resposta afirmativa foi quase um check in rumo ao Rio.

O HSBC investiu R$ 20 milhões na campanha de marketing de lançamento do Advance. E isso inclui levar e hospedar (bem) jornalistas de todo País. O meu quarto era o 1013 do Hotel Pestana, um cinco estrelas de frente para o mar de Copacabana. Quando cheguei, já me deparei logo com uma gravação que, saberia depois, era de uma das cenas de “Passione”. Tinha até Maitê Proença, mas eu não a vi.

Chegando ao quarto, achando estar devidamente instalada e precisando de um banho, descobri que já tinha feito a primeira “tatiada” da viagem: esqueci as chaves do cadeado da mala em casa. O resultado foi pedir uma ajuda de emergência ao hotel, que me mandou um salvador com um alicate. Em dois tempos, o cadeado (novo da minha mãe) já era.


Flávia Quaresma preparando pratos no jantar

Depois, resolvi dar uma volta pelas redondezas para ver se achava uma loja da qual Natália tinha me falado, que “vende sapatos lindos”. Almocei um yogoberry enquanto andava por Copacabana, depois resolvi pegar um ônibus para Ipanema. Desci e me perdi na Avenida Prudente de Morais (onde, registro, morava Cazuza), mas logo vi a Rua Vinicius de Morais e acabei me achando. O melhor de andar por ali é ver o nome de uma rua e lembrar do verso de uma música.

Eu achei a tal loja que Natália me falou: um beco de cores fortes e cheio de gente. Depois de andar horas, entrei na loja, olhei em volta e fui embora. Que programão! Comprei uma fatia de pizza de calabresa e uma lata de guaraná diet e voltei pro hotel.

Primeiro, no transfer, descobri que a única antipática era eu, porque todo mundo se falava animadamente e eu era a única calada. Acabei conversando com um repórter de Brasília que confundiu Folha com Diario de Pernambuco. Mas sanados os devidos equívocos, descobri que é na capital federal onde “mora” o filho do nosso Galo da Madrugada. Vitor, o repórter, disse que eles têm o Galinho da Madrugada, réplica despretensiosa do nosso bloco, que também desfila no Sábado de Zé Pereira.

Bem, feitas as devidas cerimônias e batidos os papos, fomos encaminhados aos nossos acentos. Fiquei no 22, “confortavelmente” instalada na cabeceira da mesa. E qual não foi a minha surpresa quando descobri que aquele troço que estaria suspenso em poucos minutos, comigo amarrada num cinto, não tinha parede nem piso. Era a cadeira, um suporte pros pés e um calafrio na espinha. Eu tava tão apavorada que nem consegui disfarçar o medo e fui pega de Judas pelo repórter da TV HSBC para dar um depoimento. Eu odeio TV, mas não tive saída.

Tentativa de mostrar a altura. O sapatinho de lacinho é o meu, e meus pés estavam gelados

Sei que o guindaste começou a suspender a nós e eu fui ficando gelada. Olhava em volta e sentia a espinha tremer. Acho que passei uns 20 minutos meio estática. Mas depois acabei conseguindo me virar e tirar algumas fotos legais. Apesar da escuridão, a sensação de estar no alto é uma delícia.


A avenida Rio Branco, vista lá do alto

O menu (muito bom, por sinal, cheio de sabores inusitados) foi assinado pela chef Flávia Quaresma. Olhaí meus registros:


De fato, uma campanha bem adequada à proposta do novo serviço. Mas, olhe, eu sei que quero chegar longe, mas espero que seja com os dois pés bem plantados no chão. Deixa a altura pra cabeça e pros pensamentos.

Avenida Atlântica, vista da cobertura do hotel


O dia nascendo em Copa (e eu acordada pra voltar pro Recife), às 5h da manhã