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terça-feira, 27 de julho de 2010

Tempo, tempo, tempo...

Faz alguns posts que eu reflito [sempre bom] sobre o tal do tempo. Acontece que faz tempo que não sei bem o que é tê-lo, então acabo tendo mesmo que escrever a respeito pra ver se lembro. As coisas vão se amontoando, as tarefas vão ficando pra depois e se acumulando; quando vejo, adeus fim de semana, adeus radiola, adeus máquina fotográfia. Ah, e adeus blog.

A minha "falta" de tempo foi motivo de piada no passado, quando era apenas uma desculpa esfarrapada para evitar essa ou aquela programação que eu não estava com muita vontade de fazer. Eu não mentia, não é isso, mas as atividades que me mantinham ocupada poderiam ser facilmente renegadas, se a proposta fosse muito tentadora (ou o convite, uma intimação). Hoje, minha falta de tempo continua sendo piada para alguns, mas motivo de reclamação e até de rompimento para outros. A verdade é que eu não tenho conseguido administrar as obrigações e acaba que o prazer fica pra depois.

Aliás, falando nisso, me ocorre agora que nunca foi muito diferente. Na minha escala hierárquica, os primeiros lugares sempre foram ocupados pelo que eu queria deixar pra depois, mas não podia. Também tinha colocação inferior para o que merecia mais atenção e muito mais tempo (perdido) com aquilo que não tinha nenhuma importância.

Muitas vezes fico com a sensação de estar perdendo tempo...
Dá tempo de corrigir?
(...)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Madrugadas do tempo inclaustrofóbico [1]

Os anos vão passando e não deixam somente marcas na pele, vista cansada e limitações físicas. Deixam, principalmente, lições. Hoje, elas nos são passadas por quem tem o que ensinar; mais tarde, será nossa obrigação passar essas lições – e as nossas – para frente.

Então, vamos para frente...



Faz mais ou menos uma semana, li um texto super bom sobre o tempo, escrito do jeito que eu gosto de ler (e escrever) – cheio de coloquialismos. Quem assina é o jornalista Ivan Martins, da revista Época. Separei alguns trechos, que seguem (para ler na íntegra, clique aqui):


Quem já teve oportunidade de namorar a mesma mulher com intervalo de alguns anos sabe: as pessoas melhoram. As duas pessoas. O sexo fica mais intenso, as conversas ganham outra densidade, a vida torna-se mais simples e o convívio, mais confortável. Aquilo que na juventude é problema, chega ao futuro resolvido. Ou incorporado. É como se as pessoas parassem de ensaiar e se aproximassem, afinal, do seu papel verdadeiro na vida. Relaxam e desfrutam.
(...)
Por que falar disso? Porque eu tenho a impressão de que as pessoas, homens e mulheres, estão vendo o tempo sob uma única dimensão: a do envelhecimento. Tempo virou sinônimo de bunda caída, papada e rugas. Tempo traz barriga, careca e Viagra. Tempo só nos enfeia e nos debilita. No fim da linha, nos mata. É o inimigo. Um pesadelo que se mede em tictacs do relógio, do qual se foge permanentemente. Mas será mesmo isso?

Acho que não. Assim como o prazer, que cresce com o tempo, outras dimensões fundamentais da existência se tornam melhores à medida que o tempo passa. Sem pensar muito, me lembro de uma: a capacidade de lidar com as pessoas e com as situações. A falta de traquejo social dos jovens é um fardo horrível. Ela produz angústias e equívocos em quantidades astronômicas. Ainda bem que passa.




Concordo com Ivan, simplesmente por que convivi e convivo com pessoas mais velhas que têm formas fabulosas de levar a vida. Vovó é uma delas. Aos 38 anos, ganhou a primeira neta, quando minha prima mais velha nasceu. Hoje, 27 anos depois, está pertinho de se tornar bisavó e cultiva o mesmo ar jovial e animadamente contagiante de quando a conheci, 26 anos atrás. Vovó  é do tipo que usa cremes (muitos deles), faz dieta (é diabética), come doce (mesmo sendo diabética) e tem uma risada gostosa. Um dos prazeres da minha vida é ouvir a gargalhada de vovó, alta e estridente.

Recupero outra fala sobre o tempo, dada a mim pela professora Nonete Barbosa, do Centro de Nutrição da UFPE. A conheci durante uma entrevista para uma matéria sobre os 50 anos de formatura da sua turma, a primeira do curso de Nutrição da Federal de Pernambuco. Como a professora continua lá, dando aulas, perguntei-lhe se havia a hora certa de parar. “Olhe, enquanto eu estiver sendo útil. Um dia me disseram que depois dos 60 anos, ninguém tem o direito de parar, mas a obrigação de passar suas vivências para frente”.  Eu vi muita verdade nos olhos azuis de Dona Nonete, e naquela vontade de viver e de ser útil.


Nesses dias em que estive em São Paulo, conversei muito comigo mesma (eu me escuto e me entendo como ninguém, coisa de quem dedica bom tempo às boas companhias) e um dos assuntos em pauta foi justamente o tempo. Num dia, estava esperando o início de um filme (“O solista” – recomendo) e vi um senhor sentado próximo, lendo jornal. Fiquei observando um tempo a dificuldade que ele tinha em ler – pouco maior que a minha, que por safadeza, teimo em não usar meus óculos com a freqüência que deveria. No dia seguinte, sentada perto de uma livraria, na Avenida Paulista, pensava e via o tempo passar quando percebi o mesmo senhor sentado perto de mim. De novo, um esforço enorme para ler, que quase o fazia arrastar o nariz pelas páginas da revista. Passei um tempo contemplando a cena, até que ele cansou, levantou e saiu a passos lentos. Era ele lá, tempo.

[continua...]