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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Anos dourados

Quero dizer que, como muita gente, aprendi a gostar de Chico Buarque ainda criança, como minha irmã caçula, Mariana, já diz gostar. E quero também, aproveitando o gancho, dizer que o ângulo da visão muda tudo - sentido, forma textura.

Ouvindo "Anos dourados", com os versos

Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais

pensava imediatamente que o narrador não podia afirmar a desistência ["dizer que não (te) quero"] sob pena de não ter mais os beijos daquela a quem dedicava os versos. Por todos os anos, interpretei assim.

E hoje, somente pela disposição das palavras, que mudaram a forma de ver, efetivamente, o que eu já ouvia - e deixou o verso assim

Te quero, te quero, dizer que não quero teus beijos nunca mais

Exatamente o que tentava dizer há tanto.
Nada como remodelar a velha hermenéutica.

domingo, 3 de julho de 2011

Além da vil superficialidade

Aproveitei o meio expediente do feriado passado, de São João, para aprofundar na superficialidade. Aliás, esse era o génesis desse blog, mas há muito não faço. Fiquei um tempo cevando o texto, até decidir publica-lo.

Pois então.

Tenho convivido com uma figura controversa nas últimas semanas e observá-la me fez pensar em superficialidade e superficialidades. Para ser mais exata, me fez pensar no quanto conseguimos ser superficiais – é quase sempre regra o quão conseguimos ser rasos.

Falando dessa personagem, eu digo e confesso: várias vezes me pego queimando de raiva ou se cenho franzido, sinal de reprovação evidente a alguma coisa que ela faça. Barulho, espalhafate, palavrões fora de hora ou conversas com decibéis a mais (logo quando eu estou no auge da concentração); a lista é enorme. Ela é capaz de tirar a paz do ambiente inteiro com uma risada.

Tudo isso poderia ser desnecessário, embora pense - quando estou mais de observadora que de interlocutora - que faz parte do conjunto. E quem parar para uma conversa pontual, um assunto mais controverso – que inclua esforço, trabalho, filho, despesas – vai perceber que há mais o que se observar ali. Vai além de uma ex-hippie (de boutique) declarada, ainda fora de lugar, que já não encaixa na vibe 70’ nem está ainda modelada na realidade dos quase-30. É porque ser mãe não deve ser nada fácil, ainda mais quando o sustento é de uma fonte só; ainda mais quando se é jornalista; muito pior se o tempo (melhor, a falta dele) for seu inimigo-mor. É que me soa louco demais dividir pífias 24 horas com trabalho, carro, jornal, lista de supermercado, roupa, tinta de cabelo, conta pra pagar, cerveja pra beber, problema pra discutir e filho pra ninar.

William Bouguereau (1825-1905)
Admiration Maternelle [Maternal Admiration] - modificado

É interessante observar o “além mar” das coisas e a gente viveria melhor se se desse ao trabalho de esticar a vista. Seria melhor que ser simplesmente rasteiro e atentar apenas ao que salta aos olhos. Oras, isso qualquer um vê, qualquer simplório observador pode constatar. Acho que a graça das coisas está mesmo em olhar além, em dar atenção ao que ninguém atinou, porque aí você acaba sentindo o que ninguém sentiu e nem vai.

Meu ambiente tem sido dos mais férteis e eu adoro a tarefa diária de observar. O bom é tatear a superfície, catalogar a paleta de cores, a trilha musical. Trejeitos, percepções, passados, manias, defeitos, medos. Os pormenores têm me fascinado. Eu observo desbotes de tinta de cabelo, simetrias de barbas, formatos de unhas, o tom da pele, linhas de expressão, contornos de olhos, os entrecortes das veias pelos braços e pescoços. E, acredite em mim, isso diz demais.

Na minha personagem, a alegria transborda até quando está ausente. Ela me parece ter a obrigação de ser feliz, sem qualquer saída, sem outra condição, numa “auto imposição” constante. Tem quem se irrite com isso (já me abusei várias vezes, bom lembrar), mas também é importante notar que isso é somente a camada aparente. Abaixo há muitas outras.

Eu comecei esse texto no carro, voltando da redação pra casa, no início do feriado passado. São momentos em que a cabeça despreocupada por minutos pode mergulhar em algo, mesmo que eu não me dê conta conscientemente. Mas para não perder mais essa viagem, foi uma mão ao volante, outra na caneta, pegando os lampejos antes que eles saíssem pela janela. A inspiração tem lá seus caprichos e a gente que tem que atendê-la, na hora que chega, ou ela vai embora e aqui, no superficial, não vai sobrar nada.

É bom permitir-se mergulhos como esses. Em vários lugares, em muitas almas. Dá sabor novo àquilo que você julgava já conhecer. Uma grata surpresa a cada dia.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Desmemoriado



E veja só, que coisa, você de novo a sonhar, planejar o que fazer, o que dirá. Planos já não faziam parte dos seus planos - se falassem de algo parecido, para você, era referência a um piso. Linear, reto. Sem curvas, sem níveis e sem voltas.

Em outros dias, outras vezes, era mais fácil pra você fingir estabilidade, como se fosse fácil fingir. Não assumiu o que queria e há tempos se arrastava. Avisei que era mais difícil agir assim, sem ser você o tempo todo, mas ninguém me ouviu - nem você nem os outros.

Por outro lado, você estava apenas agindo como a maioria. E é engraçado, não é? A maioria sempre se parece. Todas as suas partes, umas com as outras. Você quis ser diferente, mas acabou encharcado de mesmice. E por qual motivo não assumiria a fôrma? 

Outro dia me veio com aquele papo de eternidade. Logo você, tão efêmero. Logo você, tão volátil. Estava lendo Cecília e, como sempre, preferiu o caminho contrário. Mas eu te avisei, que se quisesse mais lógica, lesse Clarice. Seria uma troca justa.

sábado, 25 de setembro de 2010

CAC, 21h

Como estão seus dias? Espero que bons, tão bons quanto os meus últimos dias. É esse clima de harmonia e equilíbrio que tem me deixado sem muito assunto. Creio que precise de extremos para produzir continuamente -  de noites mais longas de sono. Faz dias que começo e paro alguns textos, mas pretendo que, por ora, eles tomem seus rumos.

Ah, preciso contar que tenho gostado muito das últimas conversas - longas ou curtas - e parece que estou meio em osmose, no automático. Deve ser por isso que não tenho conseguido um raciocínio escrito completo. Lembra do que eu disse? Você aprendeu que, pra mim, tudo é motivo pra escrever. Apego-me à máxima rodrigueana: eu não tinha outro opção.

Ontem estava escrevendo sobre cores, mas não sei onde o texto foi parar; nem sei como começou. Também falava sobre drogas, na hora do almoço, e seus efeitos entorpecentes totalmente desnecessários. À noite, quando me dei ao trabalho de escrever, já depois de uma boa, longa e antiga troca, o que tentei foi juntar cores e o tal ópio. Quando estava chegando ao terceiro parágrafo e reli o todo, não entendi coisa alguma. E agora? Acho que desaprendi.

Sucumbi ao erro de guardar o texto, resistindo ao crime de modifica-lo, ao pecado de joga-lo fora. Pode ser que, depois, relendo as linhas eu possa apreender a hermenéutica e decifrar.

(...)

E gostei, tenho gostado de tudo. Tenho lido e ouvido coisas boas, coisas novas.

domingo, 19 de setembro de 2010

Aquilo que o tempo (não) muda

Anos atrás, desejei veementemente que tudo continuasse como era. Que as cabeças fossem sempre as mesmas, assim como o entorno; lugares, pessoas, programas e sensações. Também já desejei que tudo fosse diferente, que o tempo voltasse - como se fosse possível retrocedê-lo - assim como posso fazer com as músicas que gosto muito. Volto pra escutar de novo, pra sentir de novo.

O problema é que os lugares mudam, as sensações desaparecem, momentos perdem sentido e as pessoas se transformam; ou pode ser que elas continuem as mesmas e, por isso mesmo, fiquem vazias.

Tenho impressão que mesmo que o antigo contexto não exista mais, as peças permanecem, ainda que sem lugar. Então vale parar e observar, sentir saudades. É saudável e justo.

O melhor é notar que nem todas as peças perderam seus papéis. Há aquelas que são recontratadas, retornam ao elenco, juntam-se às novas recém escaladas. O palco muda, o roteiro muda para que as sensações renasçam.

Mas ao contrário de antes, você já não tem o desejo que o tempo modifique seu caminhar. Prefere que ele se desfie, que entrelace e desvende cada novo ato.

Acho que quero uma música pra isso.

sábado, 14 de agosto de 2010

Hã? Aqui e hoje

O que me importa, agora, andar na (sua) linha, tramar desculpas, escapar do zelo de não ser?
E o que me importa se, pra você, as (minhas) palavras já não têm a mesma superficial profundidade - não tocam mais, não tecem mais, não são tão mais?
E o que mais me importa senão mostrar que posso, além de ser tudo aquilo que me vem nomeado em rótulos, ser somente o que (me) convém?

Daqui a pouco, vai fazer tempo. Então, nem vai mais importar, como ainda importa hoje. O que era encontro, volta a ser lembrança e do que hoje ainda se lembra, esquecimento.

E o que me importa se continuar sonhando com o quê (ainda) não tenho, mesmo que passe tempo suficiente para faltar paciência?

Já não vai importar mais nada. Posso acreditar.
Posso?

sábado, 26 de junho de 2010

“Ele concebeu um mundo que o representa e a todos nós”*

O que falta de encantamento, além do que já nos demos? O que mais falta para fechar as condições impostas na consquista? São e foram demasiados testes, mas resultados nulos ou indissolutos. Não entenderei nunca. Nem você.

E quando pensamos que surpresas e surpresas poderiam ser motivações para que os trilhos tomassem outros rumos, parecemos estáticos. Novo, mas velho. Os resultados são os mesmos; as mesmas coisas que dão em nada. A gente se sente cada vez mais nulo, como se fosse possível que o nada fosse ainda mais nada.

Aí a gente passa a vida temendo pelo que não foi, planejando o que não será, criando aquilo que não se faz. Sabe dizer o motivo? Eu não sei.

Se na vida falta melodia, alegria, diversão, o que poderíamos mais dar a você, meu coração e eu, se não todas as doses possíveis dos ingredientes? Faltaria mais o que para harmonizar a receita do ser feliz? Dá pra acreditar nisso?

Acho que o tal do ser feliz está muito ligado a coisas que cabem em qualquer lugar, em qualquer tempo. Pode ser num canto do quarto, numa esquina ou numa mesa de bar. Bar não. Lanchonete. Pequenos inferninhos poderiam tirar nossa mística de ser – somos uma dupla pacífica e sem contaminação.

E o que somos? Melhor não prolongar perguntas difíceis, ainda mais se estando de “cara”, já que a gente não vai ter como tergiversar sobre isso. É, realmente, muito difícil de entender. São mundos bem diferentes, distantes?

Mas o esforço foi tão grande. O que deu de errado até aqui? O que foi que aconteceu que eu não vi? Não vi a massa desandar. Alguém deve ter mudado a rota da mistura ou tocado. Azedou?

Não sei.

Acho que podemos fazer diferente. Recomeçar de onde estancou. Que tal? Faz de conta que não sei quem é você e que você não conhece boa parte das minhas manias. Você pode fingir que não conhece meus piores defeitos, incorrigíveis. Faz de conta que não há arranhões entre nós e que nunca houve tons a mais (ou a menos) nas nossas conversas. Só açúcar. Só afeto.

Mas aí, teríamos que esquecer o passado. E lá tem coisas ainda boas, não? Creio que coisas memoráveis. Ele deixará de fazer parte da história se for esquecido? Aliás, se for mudo?

Um passado mudo? Isso me parece impossível. Tem como fazê-lo calar?

*editor português Zeferino Coelho, sobre José Saramago

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Como conseguir que as coisas deem errado

Tem gente que pensa que eu sou super organizada, mas basta me conhecer um pouquinho pra perceber que meu sobrenome é DESORDEM. E se tem como piorar, eu consigo me meter em confusão nos momentos mais impróprios.

Ontem cheguei de outra pauta, dessa vez em Curitiba. O horário do voo de ida não podia ser pior: 7h10 - justamente o meu antigo horário de chegada ao colégio. Eu sempre me atrasava e o estigma pegou. E não deu outra.

Celular e despertador a postos, programados para tocar às 4h30 (eu sou lenta demais de manhã), e o que eu faço? Desligo os dois e volto a dormir. Resultado previsível: acordei num susto, saí correndo pro aeroporto e fiz check in em cima da hora. Pra completar, a alça da minha bolsa de mão quebrou.

Até aí, todo mundo vivo. Cheguei em Curitiba, um frio da peste e tal. O dia foi tranquilo e tudo deu certo. E na hora de me arrumar pro evento noturno, a avant premier do novo SpaceFox, cadê meu pente? Bati tudo, abri todas as mochilas e nada! Resolvi penteando os cabelos com as mãos mesmo. E até que ficou bom.

Chego do evento e antes de dormir, coloco o despertador do celular pra tocar às 7h30 para dar tempo de organizar tudo antes de seguir pro test drive do carro, que tinha saída programada pras 9h. E o que eu faço? Sabe deus o que houve, mas acordei achando que tinha dormido demais e, de fato, tinha! Achei o celular no meio dos travesseiros e: 8h56!

Acho que nunca tomei banho e arrumei mala tão rápido. Às 9h13, estou eu no saguão para fazer check out como se nada tivesse acontecido (a correria foi tão grande que esqueci até a fome).

Sigamos ao final da saga.

Hoje, véspera de São João, festa que eu adoro, me programo pra sair com Bruno e dar umas voltas nos festejos mornos do Recife (o movimento todo é no interior e ficamos, aqui, num silêncio quase fúnebre). Na hora de sair, vou atrás da carteira de habilitação... e cadê a danada?

Já bati o quarto todo atrás e só me vem na cabeça a PORCARIA do embarque no aeroporto de Salvador, depois da conexão, onde se exige a identificação. Foi a última vez que vi minha carteira de motorista.

Pra completar, às 6h de hoje, estava no Ceasa fazendo matéria sobre venda de milho. Acho que era um aviso para que eu aproveitasse os ares juninos logo ali.

E agora? Agora tô aqui, tentando registrar todos os inconvenientes de ser assim, como eu sou, pra ver se tomo jeito. E meu São João vai ficar resumido a um sanduíche com Bruno (isso que é amigo).

Aos que conseguiram sentir cheiro de fumaça, feliz São João.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

No meio do hiato, a luz

Eu ando correndo e até conseguir fazer uma danada de uma prova de linguística, não tenho como parar para deixar algo decente aqui. Mas no meio deste hiato, eis que surge uma pequena chama de esperança (credo, essa pesou).

Hoje, quarta, é dia de quê? Dia da coluna de Ivan Martins. Então, como de praxe, dou meu pulinho lá e eis que me deparo com algo, no mínimo, interessante:


Ao contrário de tantos brasileiros por aí, que falam sobre a mente feminina como quem descreve um sabugo de milho, eu admito ignorância sobre as razões que movem o gênero oposto. Seres humanos são sempre misteriosos e geralmente incompreensíveis. As mulheres, por diferentes de mim, constituem um enigma ainda maior.


Ivan, qualquer coisa, meu telefone é o (81) 91...
 
Ops..
Desculpa, gente. Vou embora estudar...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Comentário breve e com dor de cabeça

*postagem atualizada com links.

Ah, o tempo. Tem gente que vive correndo dele, tentando inutilmente evitar suas marcas, e tem quem viva querendo que ele passe logo, para que apareçam soluções que só ele pode trazer.

Eu preciso dele, de mais dele. Preciso de tempo para organizar papelada, pra pôr as contas em dia, para chegar mais cedo no trabalho, pra conseguir ir pra academia e, muitas vezes, preciso de tempo pra pensar. Colocar a cabeça no lugar é uma tarefa que venho adiando muito. Aparecem outras prioridades, sempre mais urgentes, e o sujeito em primeira pessoa do singular vai ficando pra depois. Sempre pra depois.

Hoje eu estava brincando com um amigo, depois que lemos a ideia que um designer teve em São Paulo: me dá um conselho? Pra mim, ele aconselhou um chicabom; pra ele eu aconselhei tempo pra si mesmo.

Muito ruim a sensação de tempo perdido. Pra quê serve tempo perdido?

ps: Sabe o que é bom nisso tudo? Tem um expediente feliz, todos os dias, apesar do tempo, apesar da correria...



DELE: Sr. Nelson Rodrigues

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Um momento pra lembrar, sempre

Eu conheço um monte de gente que vive a reclamar da vida. Uma amiga próxima, por exemplo. Se alguma coisa tiver 50% de chance de dar certo, ela se apega à outra metade, a um possível lado ruim, a uma possivel chance de erro. E já que eu penso diferente, ela diz que vivo num mundo positivista só meu. Alheio a tudo.

Não é bem assim. Apenas acho que se há uma ínfima possibilidade de algo dar certo, é esse pedacinho de vontade que a gente deveria se apegar. Pode ser que desalinhe, claro, mas pensamento positivo é o primeiro passo para dar certo. E isso é em tudo.

E tem como ter certeza de que uma coisa vai dar certo? - você pode me perguntar. Não, não creio, nem tenho experiência o suficiente para afirmar isso. Mas vovó, que viveu muito, sempre diz que é esse é o começo de tudo: acreditar. Se as dificuldades estão postas, não deve ser você, que, imagina-se, é o maior interessado no próprio sucesso, que vai criar novos obstáculos. Esses são os piores, os intransponíveis - aqueles que estão postos por sua cabeça.

Sabe o que é o pior disso? Tenho a impressão que a maioria das pessoas só se dá conta do quanto atrasou a própria vida quando dificilmente encontrará saída. Ainda assim, a saíde é "só" difícil, não impossível.

Hoje é um dia para se comemorar. A gente chegou até aqui.

E bom dia pra todo mundo que eu preciso dormir. As coisas andam fora dos seus lugares.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Feliz aniversário!


Eu já tinha certeza que daria trabalho, mas que seria bom demais!
Hoje faz 25 anos que eu ganhei o melhor presente de todos. Faz 25 anos que formamos a melhor dupla de todas!
Feliz aniversário, "Jou"

ps: Eu quero um sobrinho!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A escrita à mão

Por Ruy Castro*

RIO DE JANEIRO - Não sei em que dia caiu, mas houve um momento na Pré-História em que o homem, com um só gesto, avançou duas casas na escala evolutiva. Foi quando ele se pôs de pé e começou a garatujar com carvão na parede da caverna. Isso o separou dos outros animais, que continuaram ágrafos e de quatro.

De certa forma, esse gesto se repetiria nos bilhões de crianças que, desde então, fariam o mesmo na parede da sala, só que usando um lápis. Pois matéria de Talita Bedinelli numa Folha de janeiro me alertou para algo em que eu não tinha pensado: até quando nossas crianças, com suas mochilas equipadas com notebooks, celulares e toda espécie de badulaques eletrônicos, continuarão escrevendo... à mão?

A ideia de que tal prática seja abolida do cardápio de funções humanas é de assustar -mas, pela primeira vez, palpável. De fato, com um notebook sempre disponível, para que perder tempo e espaço com cadernos, esferográficas, lápis, borrachas e, pior ainda, com dicionários, gramáticas e livros de texto?

Ou talvez não haja motivo para preocupação. Eu próprio, em tenra idade, comecei a escrever a máquina quase ao mesmo tempo em que à mão. Isso não me livrou de usar caneta-tinteiro, mata-borrão, apontador de lápis, tabuada, régua e outros apetrechos, então obrigatórios na vida escolar. Mas só porque eu não podia levar a máquina de escrever para a sala de aula.


A história da escrita tem passagens lindas. Uma delas, narrada a mim por uma amiga, conta como, por volta de 1855, os barqueiros que singravam o Sena de madrugada, nos arredores de Rouen, se guiavam por uma luz de vela que, noite após noite, durante seis anos, saía da janela de uma casinha à margem do rio. Eles não podiam saber, mas era Flaubert escrevendo -à mão, é claro- "Madame Bovary".

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Insistência, teimosia e excelência

Anotar tudo que vem na cabeça não é um hábito que adquiri depois que abracei o jornalismo como profissão. Faço isso desde cedo, simplesmente para reforçar uma memória que falha nos momentos mais inoportunos*. Se vejo ou ouço algo interessante (ou burro), se lembro de algo que preciso fazer, se escuto numa música indo pro trabalho**, é certeza que vá anotar para lembrar depois - mesmo que não dê serventia alguma às anotações. Pouquíssimas coisas chegam ao seu destino final.

Bem, essa enrolada é pra falar que dia desses, mexendo em um dos muitos blocos de apuração que tenho, colecionados desde que o jornalismo é o jornalismo pra mim, encontrei uma frase. Interessante é que, apesar de não ter a data, eu me lembro quando e onde a vi: fazia uma prova de vestibular na Federal, há uns sete ou oito anos atrás, quando li na parede uma frase de Aristóteles. Na hora, vasculhei a bolsa atrás do bloquinho e anotei, pensando "isso talvez me sirva, algum dia". Fechei e lá ficou.

Então, com medo de esquecer de novo a tal frase dentro do bloquinho, arranquei a página e coloquei no meu quadro de cortiça: "Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito". Boa lembrança para os tempos atuais.

Imagens extraídas daqui

Agora há pouco, estava assistindo, na TV Brasil, um programa sobre Ziraldo. A primeira coisa que me chamou atenção foram os desenhos. Ok, nada demais, quando se trata dele, mas é algo além. O traço de Ziraldo é reconhecido, não passa despercebido entre outros. Os personagens têm a sua personalidade, traços e feições bem expressivas. Suas cores dão vida àquilo que está expresso no papel.



A segunda coisa é que, para chegar ao desenho final, Ziraldo risca, mede, desenha, redesenha, apaga, refaz. Insistentemente. Isso, tendo começado a carreira nos anos 50.

(ando com uma dificuldade grande de conseguir concluir meus textos).

ZIRALDO - Um mundo recheado de ideias brilhantes
Eu gosto da ideia de primazia, de excelência, de ser o melhor em algo. Nunca me importei em recomeçar, refazer, reeditar (embora perder um texto quase terminado é das piores coisas que pode me acontecer). Teimosia e insistência, sempre aqui.

*Essa semana, pedi a minha ficha 19 no Salesiano. Não quero nem relembrar minhas notas em Física e Matemática!
** Isso explica músicas soltas que aparecem por aqui. Na certa, eu ouvi em algum lugar...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Instantâneo

Sem pensar muito, eu penso na minha cabeça, a mil
Penso no meu pé, que dói por causa da sua própria mania
Penso no tempo que passa, impiedoso, pacífico, cruel
Dono de si, dono de mim

Único dono de nós

Então, vamos adiante
Não que seja destino
Mas é o único caminho

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Vem Dom Bosco sonhador, vem conosco caminhar...


O dia de hoje me fez refletir sobre o quanto estamos ligados às nossas origens e sobre na importância que isso tem. Não estou falando de amarras geográficas ou familiares, mas de laços afetivos, aqueles mesmos que fizeram meu coração acelerar hoje, durante a missa comemorativa pela passagem da urna com a relíquia de Dom Bosco, no Colégio Salesiano Sagrado Coração.

Bem, eu passei a infância e a adolescência ouvindo falar sobre Dom Bosco. Como sempre estudei em casa Salesiana, de 1986 a 2000, me acostumei a estudar sua vida – fosse nas aulas de Religião (disciplina obrigatória no colégio até o 2° ano), para a “Maratona de Dom Bosco” (um "quiz" organizado pelos professores, só com perguntas sobre ele) ou em todo “Bom Dia” (o momento de boas-vindas que tínhamos todas as manhãs, durante o primário). Isso sem falar que, no Salesiano, tudo é batizado com o nome de São João Bosco – quadra, laboratório, parque aquático, sala. Tudo! Concessão, só para Mamãe Margarida, a genitora, e São Domingos Sávio (este, o “modelo de aluno Salesiano”, em quem todos deveriam se espelhar, cujo lema assustador estampava um dos corredores do colégio: “Antes morrer que pecar”).

[Ah, e quem estudou no Salesiano que não lembra do Pe. Benevides, então diretor do colégio, dizer, incansavelmente, sobre o "sonho dos nove anos"?]

Minha turma e eu estamos completando 10 anos da conclusão neste ano. Eu tenho 15 anos de colégio mais 10 de participação em atividades ligadas a ele (oratório e União dos Ex-alunos de Dom Bosco), que somam 25 anos de uma relação estreita, de cumplicidade, de amor mesmo.

Eu tinha me esquecido disso, mas hoje as coisas se reavivaram. E são estes momentos, em que sua vida passa à sua frente, que fazem você perceber que tempo é uma coisa verdadeiramente mágica, capaz de mudar tantas coisas, mas de preservar tantas outras.

O tempo também transforma aquela dor da “separação” em um sentimento de gratidão e de pertencimento muito grande. Ali, eu aprendi muito e conheci pessoas que foram e são indispensáveis na minha formação: sentadinha num dos bancos da igreja, uma senhora de cabelos brancos assistia ao final da missa. Era “tia” Teca, professora responsável pelo meu primeiro grande passo: a alfabetização – e eu sempre lhe serei grata por isso. Eu não resisti a falar com ela. E como foi bom aquele abraço.

E é isso. Aquele momento, pra mim, não foi um culto católico a um santo(embora eu tenha comungado, acompanhando um antigo e querido companheiro de “grupo jovem”, João Alves), mas a chance de redescobrir um pedaço da minha vida que andava meio esquecido. Ali, eu lembrei que tenho raízes fortes o suficiente.

É um sentimento muito bem traduzido por Gregório de Matos:
O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo todo.



IMAGENS DE HOJE



Estátua de Dom Bosco, com rosto feito a partir de uma máscara mortuária



Santuário Sagrado Coração cheio de gente para a homenagem ao fundador dos Salesianos



Dom Edvaldo (ex-bispo de Maceió) e Pe. Benevides, diretor do Salesiano na época em que eu era aluna



Senador Marco Maciel, que vez por outra aparece por lá, encobrindo minha foto!



Todo mundo em cima da urna - e eu de longe, olhando...



Olha só a multidão que estava lá

“Meus caros, eu vos amo de todo o coração, e basta que sejais jovens para que vos ame muitíssimo”.
Dom Bosco

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Verdades musicadas

Às vezes eu fico pensando na vida
E, sinceramente, não vejo saída
Como é, por exemplo, que dá pra entender?
A gente mal nasce, começa a morrer

Depois da chegada, vem sempre a partida
Porque não há nada sem separação
(...)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sentidos rejeitados de tempo

Criar mundos requer responsabilidade - construções inacabadas podem desfazer ilusões vitais, essenciais, que terminam fragilizados pelo tempo.Momentos de silêncio, de uma contemplação dolorosa do próximo, que apesar de perto, parece longe o suficiente para ser paupável e ilusório ao mesmo tempo.

Vazios sempre fizeram parte, mesmo depois da última lição aprendida. Doação demais dói tanto quanto os arrependimentos dos titubeiam. Mas há a chance de construir certezas, mesmo que sejam fragéis como um castelo de incontáveis cartas de amor. "Ridículas..."

A busca pelos vocábulos parece corroer os sentimentos. Palavras não têm o poder de transpirar, elas unem-se e não somam forças; perdem o significado por que a vida já perdeu há tempos. E foram-se os sentidos.

Como bom lutador, tento agarrar-me aos últimos fios de sonho, que desfiam lacerando e tornando nada o que havia de mais valioso.



São ausências, quando se pretendia presenças; juntam-se amarguras quando se queria um outro sabor, só pra variar do gosto. Consegue-se silêncio, quando deseja-se retorno. Restam lamúrias, quando se queria conquistas. Desvalores de ações, pouco importa.

E resta o tempo para ser apreciado. Se o medo de outrem, ou qualquer outra falta de desejo que o freie, deixa a gélida sensação dos deveres descumpridos, entre a razão, prova-se que todos os caminhos foram percorridos, mas nem todos os perigos foram enfrentados. E ainda doem.

O que se tem por fim, enfim, são palavras válidas que perdem direito de trânsito. - proibidos sentidos, pensamentos sob censura, cláusula para os sonhos. O que resta é pouco e já não aquece as ingratas mãos que, por hora, ainda estão disposta a continuar ferindo a si mesmas pelo desejo de divisas da existência.

E já que as palavras, por quaisquer que sejam, parecem ínfimas em suas funções, é permitido a elas calar. Se o silêncio antes fora condenável, hoje é questão de honra ou sobrevivência;. Cada vez que é quebrado, perde-se um pouco da pulsação e, em pouco, ele se tornará insuficiente às funções. É a morte do eterno que jamais existiu.

domingo, 22 de novembro de 2009

Num instante de insônia


"Se pudesse, faria entender tudo que acontece aqui.
Todos os porquês, todos os olhares, toques, hormônios, palavras.
Se um dia puder, mostrarei a sensação, o desejo, a fé, o pecado e todos os cheiros dos meus pensamentos.
Um dia quero entender a palavra, o sabor, a inércia, a dor, as condições. O que pega, assegura, petrifica, o que faz ficar aqui.
Em um minuto, vou entender o gosto, textura, calor, velocidade, profundidade. Vou compreender o tempo, as dúvidas. As voltas, as ausências, a presença vazia.
Entenderei a razão, a teoria, a previsão, o futuro, o passado e aquilo que entre nós é elo.
Sentirei a pele, a cor, a respiração, aspiração. Terei respostas, o timbre, o ritmo, o prazer, a dor e o fruto.
Serei como penso, como traço. Como mais, como dois. Em um, como tudo.
Amor, desordem, criação, saber, sentir, traçar e tocar. Do gozo, da alma, da pele. Do pêlo.
Sem cicatriz, com vírgulas. Sem pontos, sem limites, sem perguntas. Sem respostas.
(...)"