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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Quais são suas saudades?

Estudei a vida toda no mesmo cantinho e aquele lugar está entre as maiores saudades que eu tenho na vida. Não do espaço, mas dos momentos; a sorte é que não tenho saudades das pessoas, que estão todas aqui. Mas eu ainda lembro dos jogos de futebol dos meninos, das partidas de dominó (deles), das aulas de educação física, das partidas de basquete, das fardas iguaizinhas, de cumprimentar "seu" Pedro, "seu" Henrique, "seu" Passira, "seu" Vicente. Saudades do pão de queijo da cantina, do cheiro de tinta guache, do vestiário da natação, das aberturas dos jogos internos...

Tenho muitas saudades nessa vida, ainda no início.

Morro de saudade da casa de vovó Gilcéia, um prediozinho caixão super charmoso na rua dos Navegantes, em Boa Viagem. A fachada era pintada de salmon, tinha janelões amplos e um corre-mão convidativo. Foi o meu primeiro reduto de boemia, que me ensinou aquela matemática: (pessoas amadas) + (boa música) + (muita comida) = felicidade plena. O edifício Julieta nem existe mais, mas eu ainda tenho a maior atração por prediozinhos caixão, charmosos e com cara de lar.

Morro de saudade do quintal de vovó Edda, o maior dos mundos, o reino da fantasia, a floresta, o reduto do jamais esquecido Apolo, companheiro fiel, como todo canino o é. Dos coqueiros (do coqueiro de cocos amarelos, imexível), das goiabeiras, das flores de vovó e do cantinho onde eu plantava caroço de feijão. Ah, as fogueiras de São João.

Vivo com saudades da casa da Barbie montada debaixo da bancada, daquela brincadeira incansável com Juliana. De montar a escola, arrumar mochila da todos os nossos 15 filhos, de fingir que a Xuxa era a empregada da Barbie e de achar muito estranho que a Chuquinha cabeçuda fizesse as vezes de filha. Eduardo, meu primeiro filho, continua no quarto. Hoje meio mofado, meio esquecido, com cara de pidão em cima da estante. Ele não viaja mais, nunca mais ganhou uma muda de roupa...

Saudade também de tardes de cinema aos domingos e de conversa boa, numa inocência de que as coisas poderiam progredir. De acreditar que não tinha como haver distância ali, que não tinha como não dar certo. Saudades dos suspiros e de achar que ele era a melhor coisa do mundo.

É, meu amigo
Só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor...


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sobre gênios, sobre genialidades

Eu queria ser gênio. Quando era bem criança e tirava nota baixa em ditados ou cópias no colégio, por pura preguiça (óbvio), painho me colocava de castigo. Impunha-me um livro de Monteiro Lobato, um exemplar do longo Sítio do Pica-pau Amarelo, e me obrigava a ler e copiar um capítulo inteiro. Era um suplício.

Mas lembro bem de um dia em que copiava umas falas de Emília, que dizia ao Visconde de Sabugosa que iria escrever suas memórias, e ponderei ser uma ideia boa. Eu achava Emília genial. Entendia nada que ela filosofava e, por isso mesmo, achava que deveria ser tão inteligente que eu, recém alfabetizada, sequer tinha condições de entender. Aí fiquei naquela de aprender a escrever bem, cada vez melhor, e por aí seguir o caminho até a genialidade.

Até achei que seria possível alcançar tal patamar, até começar a ler Machado, Saramago, Clarice; até ouvir Bach, até analisar Chico. Percebi que era melhor procurar ser simplesmente boa, fazer o que gosto, que o resto seria mera consequência.

Hoje, eu ainda gosto de ler e, principalmente, ouvir o que toque, o que beire ou entre na genialidade. Mas acredito totalmente que a perfeição (ou algo próximo a ela) seja somente o resultado de muito esforço, disciplina, talento, dedicação... algo que toque alguém.

Vai, viajei... assiste aí pra entender.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Por quantos?

Aos sete, eu achava que gente de 18 era grande, adulta, dona da sua própria vida. Achava que eles, os seres de 18, já sabiam dos seus destinos, já que podiam dirigir. Era só no que eu pensava: vou poder dirigir...

Aos 18, tive que perder o medo de dirigir, assim, na bucha. Mesmo saindo da Rua da Aurora em direção a Boa Viagem e indo parar em Olinda. Precisava ainda aprender a ter noção de direção e ainda de tempo, de espaço, de responsabilidade.

Aos 25, achei-me velha pela primeira vez, quando olhei prum vidro de anti-rugas e li "25+". De certa forma, já notava que meus corriqueiros ares de poucos amigos e maus humores já tinham me deixado uma marca vertical entre as sombrancelhas.

Agora, aos 28, só penso nos 30 e nos carros que ainda terei, em tudo que evitarei para não envelhecer cedo demais, nos caminhos que evitei e naqueles que enfrentei e por onde caí. Mas penso ainda nos livros que terei para ler até os 40, em como vou encarar a mim mesma, quando chegar à última linha cosmética possível para evitar o inevitável. E, por alguns segundos, inclusive estes, eu penso em quem me tornei e em quem esta nova pessoa se tornará. Se for para escolher caminhos, quantos ainda terei?

E se vai dar tempo de ler todos os livros, de conhecer todas as pessoas, de transitar todas as avenidas. Quantas melodias deixarão de ser ouvidas, sensações esquecidas, momentos adiados?

domingo, 3 de julho de 2011

Além da vil superficialidade

Aproveitei o meio expediente do feriado passado, de São João, para aprofundar na superficialidade. Aliás, esse era o génesis desse blog, mas há muito não faço. Fiquei um tempo cevando o texto, até decidir publica-lo.

Pois então.

Tenho convivido com uma figura controversa nas últimas semanas e observá-la me fez pensar em superficialidade e superficialidades. Para ser mais exata, me fez pensar no quanto conseguimos ser superficiais – é quase sempre regra o quão conseguimos ser rasos.

Falando dessa personagem, eu digo e confesso: várias vezes me pego queimando de raiva ou se cenho franzido, sinal de reprovação evidente a alguma coisa que ela faça. Barulho, espalhafate, palavrões fora de hora ou conversas com decibéis a mais (logo quando eu estou no auge da concentração); a lista é enorme. Ela é capaz de tirar a paz do ambiente inteiro com uma risada.

Tudo isso poderia ser desnecessário, embora pense - quando estou mais de observadora que de interlocutora - que faz parte do conjunto. E quem parar para uma conversa pontual, um assunto mais controverso – que inclua esforço, trabalho, filho, despesas – vai perceber que há mais o que se observar ali. Vai além de uma ex-hippie (de boutique) declarada, ainda fora de lugar, que já não encaixa na vibe 70’ nem está ainda modelada na realidade dos quase-30. É porque ser mãe não deve ser nada fácil, ainda mais quando o sustento é de uma fonte só; ainda mais quando se é jornalista; muito pior se o tempo (melhor, a falta dele) for seu inimigo-mor. É que me soa louco demais dividir pífias 24 horas com trabalho, carro, jornal, lista de supermercado, roupa, tinta de cabelo, conta pra pagar, cerveja pra beber, problema pra discutir e filho pra ninar.

William Bouguereau (1825-1905)
Admiration Maternelle [Maternal Admiration] - modificado

É interessante observar o “além mar” das coisas e a gente viveria melhor se se desse ao trabalho de esticar a vista. Seria melhor que ser simplesmente rasteiro e atentar apenas ao que salta aos olhos. Oras, isso qualquer um vê, qualquer simplório observador pode constatar. Acho que a graça das coisas está mesmo em olhar além, em dar atenção ao que ninguém atinou, porque aí você acaba sentindo o que ninguém sentiu e nem vai.

Meu ambiente tem sido dos mais férteis e eu adoro a tarefa diária de observar. O bom é tatear a superfície, catalogar a paleta de cores, a trilha musical. Trejeitos, percepções, passados, manias, defeitos, medos. Os pormenores têm me fascinado. Eu observo desbotes de tinta de cabelo, simetrias de barbas, formatos de unhas, o tom da pele, linhas de expressão, contornos de olhos, os entrecortes das veias pelos braços e pescoços. E, acredite em mim, isso diz demais.

Na minha personagem, a alegria transborda até quando está ausente. Ela me parece ter a obrigação de ser feliz, sem qualquer saída, sem outra condição, numa “auto imposição” constante. Tem quem se irrite com isso (já me abusei várias vezes, bom lembrar), mas também é importante notar que isso é somente a camada aparente. Abaixo há muitas outras.

Eu comecei esse texto no carro, voltando da redação pra casa, no início do feriado passado. São momentos em que a cabeça despreocupada por minutos pode mergulhar em algo, mesmo que eu não me dê conta conscientemente. Mas para não perder mais essa viagem, foi uma mão ao volante, outra na caneta, pegando os lampejos antes que eles saíssem pela janela. A inspiração tem lá seus caprichos e a gente que tem que atendê-la, na hora que chega, ou ela vai embora e aqui, no superficial, não vai sobrar nada.

É bom permitir-se mergulhos como esses. Em vários lugares, em muitas almas. Dá sabor novo àquilo que você julgava já conhecer. Uma grata surpresa a cada dia.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Olha pro céu, meu amor...

Eu amo São João por causa das lembranças. Era a época de início de férias e de chegar na casa de vovó Edda e encontrar Monteiro (meu avô materno) ocupado montando uma fogueira bem jeitosa, enorme, que seria acesa no início da noite. Era religioso. Monteiro montava fogueira também para São Pedro, todos os anos.

E chegar na casa de vovó Edda (uma casa grande e querida, no bairro da Ilha do Leite, aqui no Recife) era abrir a mala do carro para tirar uma corda de bandeirinhas ou encontrar alguém (vovó ou uma das minhas tias) colando bandeiras num barbante comprido na mesa da sala - de jornal, de página de revista Veja ou de plástico colorido. 


Era também dia de ver Francisca (a negra querida e materna, de cozinha afável - sim, elas existem fora dos livros) descascando milhos sentada na garagem. Eu ficava lá, de tocaia. Não que gostasse muito de descascar milho (ficava me coçando por causa daquele monte de cabelo), mas adorava catar as lagartas verdes e fazer maldades com elas (Freud explica, calma...).

Dia 23 de junho também era dia de ver vovó moendo milho num moedor manual, de manivela, que ela prendia na bancada da cozinha. O processo consistia em tirar os grãos do sabugo com uma faca, colocar os grãos (que saíam enfileirados e eu achava interessantíssimo) no moedor e pegar aquela massa moída pra fazer canjica e pamonha. Eu gostava mais de canjica, ainda quente, mas achava a pamonha curiosa, vestida "a caráter". Francisca era mestra em fazer aquele pacote com a palha do milho. Era por causa disso que ela dizia: "tente tirar a palha inteira, senão não dá pra fazer pamonha". E eu ia com o cuidado e experiência de neta mais velha.

E eu achava aquele moedor de ferro o máximo. Tinha que fazer muita força e minha boa vontade de ajudar acabava logo. Mas ali não tinha corpo mole. Ajudar não era só questão de opção. Todo mundo fazia parte da festinha.

Mas então painho saía pra comprar fogos - traques de massa, aliadas, bolas metralhas, vulcões, três tiros, estrelinhas -, Monteiro descia com a radiola e os LPs de Gonzagão e mainha vestia a gente de matuta. Com detalhe: enquanto todo matuto junino tem muitas pintinhas nas bochechas, Juliana e eu tínhamos apenas uma, de um lado. Sabe lá Deus o porquê...

Receber Karina (nossa única prima na época - que ainda é de terceiro grau, sobrinha-neta de Monteiro) era outro detalhe junino. E tem um último que eu não posso esquecer: invariavelmente, todos os anos, eu me queimava. Fosse por me fazer de sabichona e querer soltar "fogos de adultos", fosse por achar que podia com a fogueira de Monteiro. Sempre terminei o São João com uma lembrancinha chamuscada!

Hoje, eu sinto cheiro de fumaça e uma saudade danada. Acabei de comer um pedaço de pamonha que mainha comprou não sei onde. Nem é a mesma coisa, mas o São João do "seu" João (o primeiro nome de Monteiro) era tão bom que a lembrança não poderia ser ruim.

**



Musique-se



Noites brasileiras

Ai que saudades que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras na fogueira
Sob o luar do sertão

Meninos brincando de roda
Velhos soltando balão
Moços em volta à fogueira
Brincando com o coração
Eita, São João dos meus sonhos
Eita, saudoso sertão

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Paris nights, NY mornings

Adoro velharia - quem me conhece, sabe disso. André mesmo, já diz: "Tati pode organizar tudo, menos o set list, senão a gente passa a noite ouvindo Cartola". Então, pra mim e pro meu saudosismo, o canal Viva é um prato cheio. Agora, toda noite eu tenho um ritual noturno, pós aula. Chegou em casa, ligo a TV e vejo "Anos Dourados", "A Muralha" e "Vale Tudo". Overdose de passado. Vale Tudo termina já depois da 1h da manhã - mas vale a pena.

É engraçado, porque é o tipo de experiência interessante. Vale Tudo é de 1989, época em quem Antônio Fagundes ainda era um jovem de cabelos mesclados, no auge do seu charme masculino. Na trama reprisada, Ivan (que faz suspirar) está naquela fase de tentar se livrar de Heleninha Roitman (de Renata Sorrah) para voltar com Raquel (de Regina Duarte) e nem imagina que caiu em armadilha de Odete Roitman. Aliás, essa dispensa comentários. Eu acho Beatriz Segall brilhante porque Odete não é má, mas primorosamente sarcástica, gélida como toda boa vilã merece ser.

Sim, mas o que chama a minha atenção (ainda pouco treinada para as minúcias técnicas da teledramaturgia) é a mudança física dos atores. Fagundes está na atual novela das oito, 20 anos mais velho - rosto mais largo e sem sombra de cabelos escuros. Beatriz Segall, no ar hoje no infame "Lara com Z", está no auge dos seus 80 e poucos anos e não sei por qual motivo resolveu fazer plástica. Óbvio que não prestou e a esticada está mais visível do que o desejado. Acho que Tônia Carreiro foi muito dura quando disse que "a velhice é a prova de que o inferno existe", mas o tempo é mesmo implacável.

Enfim. Fugindo ao assunto (tô sempre falando de tempo por aqui), nos intervalos do Viva passa a vinheta da nova programação do GNT, que tem uma musiquinha muito legal. Só para desempoeirar o IC e terminar esse post (esquisito, que saiu do nada pra canto nenhum), vai ela aí.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O porquê de eu ser eu

Transforme o seu maior hobby em ofício diário e, OU você terá orgasmos intelectuais todos os dias, OU terá dores - principalmente as de cabeça. Falo isso por experiência (profissional) própria.

É comum ter que responder sobre o porquê de ter escolhido minha profissão (e, ademais, de ter reiniciado a vida de graduanda num "singelo" curso de Letras) e costumo dizer que o sentido foi inverso. Certeza absoluta que ela me escolheu, que não havia outra saída pra mim; nem pra ela. 

Aliás, poderia não ter me tornado jornalista nunca, já que a primeira vez que fui "lida" me causou incômodos enormes. Era 1994 e eu, sentimentalóide, escrevi no meu "querido diário" um texto sobre a morte de Senna. Por azar ou sorte, deixei o diário à mostra e minha mãe não só o leu como, comovida com minha veia cronista (ou pelo lado materno dela), ligou pra metade da família. Comoção geral. Indignação minha, que arranquei as páginas e joguei-as fora.

(Lembro que o texto terminava assim: "...e doía no peito aquela tão enorme perda. E com ele, Senna, todo o Brasil morreu". Concorde comigo que isso soa cafona, piegas, mas podemos levar em consideração que eu tinha somente 11 anos. Hoje, acho que isso é culpa da radiola de vovô e sua mania de Lupcínio Rodrigues e Ademar Dultra)

Minha segunda leitura pública foi anos depois, em 98. Era dia de devolução de redações corrigidas no Salesiano. A professora Leodila (ah, Léa! Saudades) chamou todo mundo e nada de me chamar, até que pediu atenção pra ler uma "redação muito bem feita e contundente" e eu gelei quando reconheci meu título. Lembro que o texto falava sobre cidadania e a cada parágrafo, eu ficava mais vermelha e mais me abaixava na cadeira.

No final da época do colégio, estava certa do meu destino indisviável de fazer Letras e me tornar professora de Português. Naquela época, meu amigo Ulisses e eu fazíamos o jornal dos terceiranistas e foi por causa dessa experiência que eu me inscrevi no vestibular pra Jornalismo. Passei, detestei e decidi fazer vestibular de novo pra Publicidade, Medicina ou Fisioterapia - o que passasse primeiro.

Mas não passei. Então, dois anos depois, reabri o curso, voltei, meio sem querer. Não tinha dinheiro pra assumir as despesas, mas nada que o coração materno (e uma bolsa de estudos e uma tia fiadora) não desse jeito. E na primeira vez que entrei em uma redação de jornal, encontrei razão para tudo. Hoje eu (re)entendo isso - todos os dias.

Então tô aqui hoje, assim. Todo dia eu tenho surtos de raiva, quebro a cabeça, escuto coisas que não entendo, descubro, revelo, reporto, aprendo. E sou tão feliz pelo que sou.

É, a gente fez as pazes. =)

--

Assim que postei, eis:



Dá pra rir. Aqui, gente, não tem meio termo. É na base do "ame-o ou deixe-o".

terça-feira, 1 de março de 2011

A sutil dor da perda

Desde cedo, eu aprendi a "perder". Quando tinha sete anos, um dos meus tios paternos morreu em um acidente de carro. Marcelo tinha 18 anos, era lindo, sorridente, ia prestar vestibular pra Jornalismo. Eu, no alto dos meus sete anos, achava que ele era grande e que a morte era "normal pra gente grande". Eu nem cogitava que ele era tão criança quanto eu.

Naquele episódio, eu me lembro bem, pra nunca esquecer, teve muita dor. Vovó me marcou muito. O choro dela carregava dor e desolação, de quem queria ter protegido e não pôde. Nem poderia... ninguém podia fazer nada. Era o dia de Marcelo, sabe-se lá o porquê, mas era. Sempre tive certeza disso, mesmo no tempo de católica praticante: as coisas terminam exatamente no momento certo. Lembro que na época, fiquei duplamente triste, já que ficara sem festa de aniversário de sete anos. De 16 de junho para 20 de julho, o tempo era curto demais e as feridas estavam todas lá, abertas. Mas ele morreu feliz, viajando com os amigos. Tenho certeza.

Eu cresci lidando com perdas e ganhos, consciliando frustrações e vitórias. O próprio Jornalismo me ensinou isso e me relembra todos os dias. Mas tudo é mais fácil de administrar que a morte - embora não devesse. A morte dá a sensação de fim, sem poréns, sem muita chance pra frustação. Inês já era.

Vi pouca gente ir embora, até hoje. Tio Marcelo foi o primeiro. Em seguida, minhas bisavós, Clarice e Helena - nada mais natural. Anos depois, quando eu já estava adulta, foi vovó Edda, meu doce de banana favorito. Mas a perda de vovó foi leve, ela não me deixou nada que não fosse bom, gostoso e engraçado. Foi dos personagens mais simbólicos do meu início e eu seria incapaz de chorar por causa dela - vovó era riso demais pra merecer lágrimas. Pra ela, sempre, todos os sorrisos.

Mas, então...

Esse post é pra falar de algo interessante e triste que aconteceu hoje. Tenho três primos adoráveis, a quem amo muito, que moram em João Pessoa. Lydia, Samuel e Lucas são daqueles indispensáveis na vida da família. A casa, em dias de festa, fica vazia demais sem eles três (e olhe que somos nove!).

Eles criaram por anos uma calopsita branca cheia de personalidade. Sou capaz de apostar que Patrick (ou "Pratick", como Lucas chamava, mais novinho) pensava que era cachorro e depois se sentia o caçula da família. Andava livremente pelo chão, fazendo as vezes de dono da casa. Era reclamão e não gostava de ficar sozinho: quando se sentia incomodado, piava alto até ser atendido. Nessas horas, Tia Eddinha gritava: "Lyyyyydia, vá ver o que Patrick quer!". E ele era atendido. Taí, acho que poucos passarinhos tiveram uma vida tão feliz. Foi amado por aqueles três, mesmo quando a gaiola tava suja - quem precisa de gaiola quando se tem tanto amor e carinho e uma casa inteira?


Imagem figurativa, mas igualzinha ao Patrick original

Ontem foi o último dia da vida de Patrick. Recebi uma ligação internacional de Juliana, minha irmã, contando do falecimento do penado. Ah, e foi triste, gente. Patrick é da família, cantarolava o hino nacional bem afinadinho e tinha as asas encardidas (claro, branco como era, não podia ficar de outro jeito, andando no meio dos meninos). Ontem, ele estava no meio dos meninos de novo, como sempre estava, apesar do risco. Mas há sempre riscos na felicidade; Nem sempre ela custa pouco, mas quero ver quem quer abrir mão dela. Quem quer ser feliz, não abre mão de pagar preços pela própria felicidade e daqueles a quem ama.

Acho que, na verdade, Patrick morreu foi de felicidade. E os meus primos aproveitaram o companheiro até o fim. Mas é assim... eu tenho uma amiga que sempre repete que "saudade é um preço que se paga por momentos bem vividos". Nem sempre sem a sutil dor da perda.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Mensagem (retardada) de Natal

Sim, eu sei que hoje já estamos na madrugada do dia 29 e todas as atenções estão voltadas pros preparativos de reveillon. E, saibam, eu nem sou religiosa e nem gosto de Natal, mas recebi do meu tio o link para este vídeo e achei que, sim, valia a pena publica-lo aqui.

Acho que essa época do ano, pra mim (e pra tanta gente) tão melancólica, apesar de festiva e cheia de boas lembranças, tem lá suas vantagens. É sempre aquela sensação drummondiana de recomeço. É uma nova chance, dada todo santo ano, pra gente fazer diferente.

Então, ganhe seis minutinho nessa história, mesmo que você nem acredite nela. Ah, e espera que eu tenho pensado tanto no retrospecto desse espaço.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Cachorro é tudo de bom!


Eu adoro fotografia e, ultimamente, tenho visto coisas que sempre me fazem dizer: "eita, isso merecia uma foto". É bem o caso acima. O cidadão é o meu "sobrinho de estimação" em plena comemoração do Halloween.

Este é um daqueles posts que começam do nada. Eu ia colocar só a foto, escolhi o título, que já não tem nada a ver com este parágrafo. Fulga total ao tema? Sabe-se lá. Fiquei agora com a sensação de ter tergiversado sobre o vazio. Como diria uma ex-professora: saiu do nada para canto algum.

Tô achando que passo por um momento de entressafra criativa ou talvez uma preguiça patológica. Podemos também chamar de falta de foco ou hiperatividade, quem sabe? Eu faço coisa demais ao mesmo tempo mas talvez esteja condenando o que é, de fato, importante a segundo plano. Eu sempre tive o hábito de prolongar as coisas, sendo uma boa amante das delongas e dos casos mal resolvidos. E tem voz que me diz que eu tenho uma dificuldade grande de pôr um ponto final definitivo nas coisas. Pessoa bem chegada às reticências e às vírgulas da vida.

E tem gente demais por aí que sofre do mesmo mal. Medo danado de escolher o caminho errado, medo de calar, de dizer, de comer e de ter fome. Tá parecendo mais aquela música de Lenine, Miedo. A foto de Sawyer (meu sobrinho) tá bem propícia agora. Ele parece que tava com medo da abóbora, tanto que não conseguia encara-la e preferiu fechar os olhos. É... cada um com sua(s) abóbora(s)...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Você (se) acha o bastante?

Reclamaram comigo hoje por esse novo hiato aqui - logo eu, que reclamo do silêncio, da falta do que dizer, "dessa eterna falta do que falar", promovo um minuto de silêncio em memória da inspiração. Logo eu, sempre rotulada como criativa, promovendo uma grande ode ao vácuo. Que grande contradição. Mais uma.

Experimente trabalhar o dia todo numa função que é, ao mesmo tempo, mas em outra hora, o seu hobby. O seu passatempo preferido. De dia, é obrigação; à noite, pode ser prazer. (risos) Por um momento, pareceu-me isso a descrição de algo como a prostituição. Mas não deixa de ser; não deixa de ser a venda, de certo modo, de parte de mim. Todo dia, por horas. Por muitas e mal pagas horas extras.

E não é o bastante. Talvez precisasse de mais tempo, uns cinco segundo a mais em cada hora do dia e uma hora a mais em cada dia da semana. Isso me daria umas 25.320 segundos a mais. E se um dia normal tem 86.400 segundos, numa regra de três safada, deu dízima periódica que, arredondada, fica 0,29 dia. Viu? Não é o bastante. Nunca é, e basta.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A (nossa) vida e suas verdades

Eu só tenho 27 anos e 3 meses. São quase 10 mil dias de vida. Acho pouca coisa. A terra de bilhões de anos. E eu só tenho 27.

O arrudeio é pra ajudar na pseudofilosofia de hoje. O danado do tempo é um grande piadista, faz você pensar que conhece as coisas, as pessoas. Deve ficar te observando, todo senhor de si, e, quando você menos espera, te puxa o tapete. Vai te provar que, na verdade, você não conhece ninguém, não sabe de nada e, muitas vezes, que não conhece a si mesmo. Pior é quando o sujeito do engano é alguém bem próximo de quem você não espera contravenções. Mas eu aviso aos mais inocentes que me lêem: acreditem que até seu irmão é capaz de te surpreender. Negativamente, na maioria das vezes.

Tem um texto creditado a Shakespeare que diz que as pessoas erram mesmo e que você tem que estar preparado pra perdoá-las. Isso foi em 1600 e alguma coisa. Quer dizer, as porradas que a gente leva e dá são ciência há séculos.

Tava lembrando de uma coisa básica. Eu tenho um amigo que é físico e, anos atrás, me ajudando para uma prova do colégio, pegou uma bola e jogou na parede bem devagar. A bola voltou devagar. Depois, sacudiu a bola com força e ela, claro, voltou como bala. Então ele sentou, escreveu umas fórmulas e explicou sobre a lei da ação e reação. As coisas vão e precisam voltar; vão e voltam na mesma proporção. Nada existe sem ocupar espaço, sem interferir no entorno.

Mas, só pra lembrar, o bem e o mal têm proporções diferentes. É como um copo de água e outro, igual, mas cheio de óleo. Pesos diferentes, entendem? Padre Luís (nosso mentor espiritual) dizia que, se você fizer bem a "João", isso ficará entre vocês dois; se você fizer mal, todo mundo ficará sabendo.

São das regras da vida. E, de verdade, são difíceis de aceitar, mesmo que você já tenha quase 10 mil dias de incansáveis lições.

sábado, 25 de setembro de 2010

CAC, 21h

Como estão seus dias? Espero que bons, tão bons quanto os meus últimos dias. É esse clima de harmonia e equilíbrio que tem me deixado sem muito assunto. Creio que precise de extremos para produzir continuamente -  de noites mais longas de sono. Faz dias que começo e paro alguns textos, mas pretendo que, por ora, eles tomem seus rumos.

Ah, preciso contar que tenho gostado muito das últimas conversas - longas ou curtas - e parece que estou meio em osmose, no automático. Deve ser por isso que não tenho conseguido um raciocínio escrito completo. Lembra do que eu disse? Você aprendeu que, pra mim, tudo é motivo pra escrever. Apego-me à máxima rodrigueana: eu não tinha outro opção.

Ontem estava escrevendo sobre cores, mas não sei onde o texto foi parar; nem sei como começou. Também falava sobre drogas, na hora do almoço, e seus efeitos entorpecentes totalmente desnecessários. À noite, quando me dei ao trabalho de escrever, já depois de uma boa, longa e antiga troca, o que tentei foi juntar cores e o tal ópio. Quando estava chegando ao terceiro parágrafo e reli o todo, não entendi coisa alguma. E agora? Acho que desaprendi.

Sucumbi ao erro de guardar o texto, resistindo ao crime de modifica-lo, ao pecado de joga-lo fora. Pode ser que, depois, relendo as linhas eu possa apreender a hermenéutica e decifrar.

(...)

E gostei, tenho gostado de tudo. Tenho lido e ouvido coisas boas, coisas novas.

domingo, 19 de setembro de 2010

Aquilo que o tempo (não) muda

Anos atrás, desejei veementemente que tudo continuasse como era. Que as cabeças fossem sempre as mesmas, assim como o entorno; lugares, pessoas, programas e sensações. Também já desejei que tudo fosse diferente, que o tempo voltasse - como se fosse possível retrocedê-lo - assim como posso fazer com as músicas que gosto muito. Volto pra escutar de novo, pra sentir de novo.

O problema é que os lugares mudam, as sensações desaparecem, momentos perdem sentido e as pessoas se transformam; ou pode ser que elas continuem as mesmas e, por isso mesmo, fiquem vazias.

Tenho impressão que mesmo que o antigo contexto não exista mais, as peças permanecem, ainda que sem lugar. Então vale parar e observar, sentir saudades. É saudável e justo.

O melhor é notar que nem todas as peças perderam seus papéis. Há aquelas que são recontratadas, retornam ao elenco, juntam-se às novas recém escaladas. O palco muda, o roteiro muda para que as sensações renasçam.

Mas ao contrário de antes, você já não tem o desejo que o tempo modifique seu caminhar. Prefere que ele se desfie, que entrelace e desvende cada novo ato.

Acho que quero uma música pra isso.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Não me faça perguntas bobas


Vamos falar sério. Bem sério.
Quando cheguei por aqui, ninguém me disse que teria que aprender a mentir durante as 24 horas do meu dia de cada dia. Não me disseram que deveria ter que fingir que gosto, para ser educada, ou fingir que não gosto, para não dar "bandeira". Mas depois vieram me ensinar que falar demais é um pecado mortal e ficar calada é consentir, mesmo que haja discordâncias. Teve outra vez que me ensinaram que deveria amar um só - de cada vez - para não ficar "falada", mas depois disseram que deveria amar ao próximo como a mim mesma. E, olhe, tem gente que ama demais por aí.

Seria muito bom que vocês decidissem o que eu tenho que fazer.

Outro dia, brigaram comigo por dizer o que sinto, mas logo depois eu apanhei por não ter dito que estava doendo. Antes disso, me convenceram que deveria ser forte e que derramar lágrimas feridas era o mais puro sinal de fraqueza; todavia, há quem ria disso, do choro alheio. Então, seria sadismo?

Sim, é preciso paciência com o outro, já que esse outro será irremediavelmente diferente de você, de mim. Sempre me ensinaram que estamos aqui, nesta superfície, para viver juntos, embora o tal do homem seja um bicho essencialmente solitário. Aí vem Vinicius para sacramentar: "é impossível ser feliz sozinho". É uma mera cafonice?

Não sei não. Se fosse sozinho, brigar seria quase impossível ou até sinal de insanidade. Não haveria crises de relacionamento, "DRs" ou chatices verbais em horários pouco convenientes. Você teria que lidar apenas com as suas próprias mudanças e não mais se preocupar quando o sujeito deitado aí ao lado muda o tempo do verbo e tudo parece que ficou no passado. Fico com ares de louca, aí volta aquela história das lágrimas de que já falei. É bom enxugar; me disseram que eu nunca combinei com fraqueza - sou má, calculista e voluntariosa. Ademais, sei bem a listagem de adjetivos que "me" usaria de predicados.

Hoje, falvam-me que a vida é bem simples e, logo depois, que eu não tenho 27 anos. Sim, são quase 30, mas me sinto (de) longe. 
"O tempo não para"? Para, ou não, já que é relativo. Eu posso ser hoje, mas não amanhã; e o que seria amanhã e depois?

Você sabe o que quer, o que ama, o que desenha e o que sente? Você sabe o que (e quem) come? Sabe o que coloca pra dentro e o que deveria expurgar?

Talvez fosse melhor evitar tantas perguntas depois das 20h.
Comer demais à noite, engorda.
E pensar demais à noite? Insônia?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

de palavras e sentidos, O JOGO

Mudar para ser sempre o mesmo. Recriar para manter as sensações. Dividir para continuar único.
Receber, processar e digerir
Refazer, renascer, repartir

E talvez para mostrar que o tempo, apesar do contínuo movimento, é capaz de transplantar as coisas as seus lugares devidos.

sábado, 14 de agosto de 2010

Hã? Aqui e hoje

O que me importa, agora, andar na (sua) linha, tramar desculpas, escapar do zelo de não ser?
E o que me importa se, pra você, as (minhas) palavras já não têm a mesma superficial profundidade - não tocam mais, não tecem mais, não são tão mais?
E o que mais me importa senão mostrar que posso, além de ser tudo aquilo que me vem nomeado em rótulos, ser somente o que (me) convém?

Daqui a pouco, vai fazer tempo. Então, nem vai mais importar, como ainda importa hoje. O que era encontro, volta a ser lembrança e do que hoje ainda se lembra, esquecimento.

E o que me importa se continuar sonhando com o quê (ainda) não tenho, mesmo que passe tempo suficiente para faltar paciência?

Já não vai importar mais nada. Posso acreditar.
Posso?

terça-feira, 27 de julho de 2010

Tempo, tempo, tempo...

Faz alguns posts que eu reflito [sempre bom] sobre o tal do tempo. Acontece que faz tempo que não sei bem o que é tê-lo, então acabo tendo mesmo que escrever a respeito pra ver se lembro. As coisas vão se amontoando, as tarefas vão ficando pra depois e se acumulando; quando vejo, adeus fim de semana, adeus radiola, adeus máquina fotográfia. Ah, e adeus blog.

A minha "falta" de tempo foi motivo de piada no passado, quando era apenas uma desculpa esfarrapada para evitar essa ou aquela programação que eu não estava com muita vontade de fazer. Eu não mentia, não é isso, mas as atividades que me mantinham ocupada poderiam ser facilmente renegadas, se a proposta fosse muito tentadora (ou o convite, uma intimação). Hoje, minha falta de tempo continua sendo piada para alguns, mas motivo de reclamação e até de rompimento para outros. A verdade é que eu não tenho conseguido administrar as obrigações e acaba que o prazer fica pra depois.

Aliás, falando nisso, me ocorre agora que nunca foi muito diferente. Na minha escala hierárquica, os primeiros lugares sempre foram ocupados pelo que eu queria deixar pra depois, mas não podia. Também tinha colocação inferior para o que merecia mais atenção e muito mais tempo (perdido) com aquilo que não tinha nenhuma importância.

Muitas vezes fico com a sensação de estar perdendo tempo...
Dá tempo de corrigir?
(...)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Um ano, uma vela a mais

Datas como esta dão sensações diversas. Eu sempre gostei de ver os anos passando, sempre queria ficar um ano mais velha para desfrutar das "liberdades" de ter 8, 9, 10 anos de idade. Aos sete, queria chegar logo aos 10 e perguntava: "mãe, quando eu fizer 10 anos, vou poder passar ferro nas roupas de Eduardo?". Aos 12, vi um carro passando pela rua, num dia que voltava na escola, e contei nos dedos quantos anos ainda faltavam para eu completar 18 anos e poder, também, dirigir. "Seis anos ainda. Droga". Hoje, faz nove anos.

Acho que falar que o tempo é impiedoso é redundância, lugar comum. Ele é muito mais que isso. Faz parte de sua natureza mudar as coisas, transformar as pessoas e dar novos sentidos. A expressão "dar tempo ao tempo" pode significar tanta coisa. Antes de tudo, insiste que temos que ter paciência. As coisas têm seu próprio momento e nada que façamos vai acelerar. É uma máxima tão comum esta, mas tão esquecida.

Espero apenas que as mudanças sejam mais brandas, quiçá somente físicas. Que eu continue a acreditar fielmente no que é importante hoje, conjunto que inclui amigos, verdade e esforço.


O tempo sempre foi bom comigo; tenho ainda a impressão que consigo aperfeiçoar a minha capacidade de pensar. Transformar verdades é um ato corriqueiro e eu sempre me surpreendo. Quase diariamente. Mas a mesma capacidade que o tempo tem de mudar as coisas, ele tem que firmar outras. Hoje, no dia que completo 27 anos, tenho uma fria convicção de que ainda viverei para ver tantas outas verdades mudarem de lado. Só quero uma vela a mais a cada ano para juntar os amados. Preenche a vida.

sábado, 26 de junho de 2010

“Ele concebeu um mundo que o representa e a todos nós”*

O que falta de encantamento, além do que já nos demos? O que mais falta para fechar as condições impostas na consquista? São e foram demasiados testes, mas resultados nulos ou indissolutos. Não entenderei nunca. Nem você.

E quando pensamos que surpresas e surpresas poderiam ser motivações para que os trilhos tomassem outros rumos, parecemos estáticos. Novo, mas velho. Os resultados são os mesmos; as mesmas coisas que dão em nada. A gente se sente cada vez mais nulo, como se fosse possível que o nada fosse ainda mais nada.

Aí a gente passa a vida temendo pelo que não foi, planejando o que não será, criando aquilo que não se faz. Sabe dizer o motivo? Eu não sei.

Se na vida falta melodia, alegria, diversão, o que poderíamos mais dar a você, meu coração e eu, se não todas as doses possíveis dos ingredientes? Faltaria mais o que para harmonizar a receita do ser feliz? Dá pra acreditar nisso?

Acho que o tal do ser feliz está muito ligado a coisas que cabem em qualquer lugar, em qualquer tempo. Pode ser num canto do quarto, numa esquina ou numa mesa de bar. Bar não. Lanchonete. Pequenos inferninhos poderiam tirar nossa mística de ser – somos uma dupla pacífica e sem contaminação.

E o que somos? Melhor não prolongar perguntas difíceis, ainda mais se estando de “cara”, já que a gente não vai ter como tergiversar sobre isso. É, realmente, muito difícil de entender. São mundos bem diferentes, distantes?

Mas o esforço foi tão grande. O que deu de errado até aqui? O que foi que aconteceu que eu não vi? Não vi a massa desandar. Alguém deve ter mudado a rota da mistura ou tocado. Azedou?

Não sei.

Acho que podemos fazer diferente. Recomeçar de onde estancou. Que tal? Faz de conta que não sei quem é você e que você não conhece boa parte das minhas manias. Você pode fingir que não conhece meus piores defeitos, incorrigíveis. Faz de conta que não há arranhões entre nós e que nunca houve tons a mais (ou a menos) nas nossas conversas. Só açúcar. Só afeto.

Mas aí, teríamos que esquecer o passado. E lá tem coisas ainda boas, não? Creio que coisas memoráveis. Ele deixará de fazer parte da história se for esquecido? Aliás, se for mudo?

Um passado mudo? Isso me parece impossível. Tem como fazê-lo calar?

*editor português Zeferino Coelho, sobre José Saramago