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terça-feira, 12 de julho de 2011

Adeus ao velho Mussa

A gente corre pra burro em redação de jornal. Não há dia tranquilo, no máximo, um menos corrido. E é comum também ter apurações de última hora ou aquele último gráfico ou previsão que não ficaram, assim, tão claros. E nesses momentos, comum era ouvir alguém dizer: "liga pra Mussa que ele explica". A partir de agora, vai ser muito triste não poder mais fazer isso.

Conversei poucas vezes com o economista, mestre em Economia e administrador de empresas Josué Souto Maior Mussalém nesse meu primeiro ano de Folha. Apesar de saber de sua boa fama de didático, a recomendação da editora era que a gente procurasse outras fontes. Por ser muito prático e acessível, Mussa era o primeiro nome que vinha na cabeça (pra mim, junto com Tânia Bacelar e Roberto Ferreira, ambos professores e igualmente simpáticos, didáticos e acessíveis) e Lorena (Ferrário, minha chefe) pedia sempre: "gente, dêem um tempo com Mussalém". O pedido tinha suas razões. Se deixasse, toda semana, lá estava o velho Mussa dando seus palpites e explicações no caderno de Economia da Folha.

Hoje de manhã, a estagiária começou o dia: "Tati, Silvia (Baisch, sub de Economia) quer alguém pra ir pro enterro de Mussalém". Nem sabia ainda e passei o dia lamentando. Além de ter morrido jovem, com 64 anos, ele deixa um vazio porque pouca gente falava de economia de forma tão clara e com tanta propriedade. Poucos atendiam com tanta disponibilidade. A gente, claro, vai sentir falta das "quebradas de galho" dele, que remediava sempre, sobre muitos assuntos, a qualquer hora. Se fosse tarde da noite, ele dizia: "ligue aqui pra casa que eu te explico". Pronto. A partir daí, a conversa durava longos minutos. Mas era ligação terminada, assunto resolvido.

Foi minha primeira cobertura de velório. Chegamos (a fotógrafa Andréa Rego Barros, a colunista Rochelli Dantas e eu) meio constrangidas, mas já é sabido que, em ocasiões como essa, tratando-se de alguém como Mussalém, a imprensa precisava estar lá. Mas não é fácil ter que interpelar parentes inconsoláveis ou catar alguém conhecido que possa falar do momento, das memórias, do legado. Mas, enfim, foi feito.

Conversando com o cunhado de Mussalém, o médico Aníbal Gaudino, tive a reafirmação de quão bem preparado e bem informado era o economista. Também que, apesar de obeso e hipertenso, ele não procurava um médico há 20 anos. "Era uma caixa preta", comentou Gaudino. O edema pulmonar que levou Mussa, na madrugada de ontem, 11 de julho, foi fatal. Não deu tempo nem de socorrê-lo; morreu em casa, de repente.

Gentil, generoso, didático, competente, simples. O velho Mussa vai deixar saudades. Ficarão interrogações muitas sem suas aulas livres de "economês".

BOM E VELHO MUSSA - "Posso te explicar. Ligue aqui pra casa..."

sexta-feira, 8 de julho de 2011

PAUTAS - Escala do Jacarandá, primeiro navio do PAC, no Porto de Suape

Tecon Suape recebeu o Jacarandá, mês passado. Na foto, os 280 metros de comprimento e os guindastes do navio

O guindaste, mais de perto

Pátio de armazenamento de contêineres do Tecon Suape, no Porto de Suape

Mesa do comandante do Jacarandá, com as coordenadas da rota

Presidente da Log-in, empresa proprietária do Jacarandá, Vital Lopes, dando entrevista sobre a primeira escala no navio no porto pernambucano

O "pequenino" Jacarandá, que tem 280 metros de comprimento por 30 metros de largura
A fotógrafa da Folha de Pernambuco, Nathália Bormann, registrando o Jacarandá

Vida de fotógrafo, tendo que lidar com o sol. E que sol...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Diploma? A gente tem!

Fez dois anos: estava apreensiva, assistindo ao Jornal Nacional, quando a repórter, direto de Brasília, avisou que o Supremo Tribunal Federal tinha derrubado a obrigatoriedade do diploma de jornalista. Na hora, a raiva foi tão grande que eu sacudi a almofada na televisão e chamei Gilmar Mendes de todos os nomes feios que vieram na minha cabeça. Logo depois, imagem de outro ministro, chamando jornalismo de arte... Arte?

Pois bem. Por ora, estamos na mesma. Periodicamente, recebo o informativo virtual da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), falando da PEC (o tal Projeto de Emenda Constitucional), que revalidará o diploma (se meu São Assis Chateaubriand permitir). Antes garantido por uma emenda (termo muitíssimo adequado), o diploma de jornalista teria sua própria lei. Será reconhecido por lei... vejam só... como se jornalismo fosse pouca coisa. Como se fosse favor.



Eu investi muito na faculdade e morro de orgulho do meu diploma. Orgulho danado de ser jornalista e ter compromisso, de fato. Já recebi tanta crítica por isso. Chamaram-me de positivista, infantil, ingênua - mas todo jornalista tem lá seus rótulos e eu nem ligo pros meus, enquanto forem esses.

É triste que alguém que estudou tanto para chegar onde chegou (imagino eu, sobre o Gilmar Mendes) bata o martelo e determine que seja dispensável estudar para exercer uma profissão tão socialmente importante. Se a sociedade não puder exigir que nós, Imprensa, tenhamos formação universitária, estudo, base, vai exigir o quê? É triste que a gente viva em um país que aprove retrocessos. E antes que falem de novo, não estou puxando sardinha pro meu lado. Eu continuo com meu diploma, com meu salário, com meu cargo de repórter, mas me  preocupo com a condução do Estado, aquele que acha normal não estudar, acha normal fazer de qualquer jeito, na base do remendo. O velho jeitinho, que já perdeu a graça faz tempo.

Você pode até dizer que compromisso, ética, honestidade e qualquer outro item do bom jornalista não se aprende na faculdade; mas ajuda, garanto. Mas, por enquanto, não se preocupe. A imensa maioria (perdoe-me a redundância, mas preciso dar ênfase) dos profissionais que conheço - da equipe da qual participo e de outros jornais - são sérios, competentes, comprometidos (dentro de suas restrições - lembremos sempre que jornal é empresa e empresas têm vontade própria) e bem formados. Diplomados.


PARA NÃO PERDER O HUMOR
Jornalista é um bicho excêntrico, divertido. Então, mesmo falando de coisa séria, cabe uma leveza aqui. Outro dia, estava defendendo a vocação. A do jornalista, acredite, é forte:


Sem vocação, você faz medicina, pelo dinheiro.
Sem vocação, você pode até fazer administração, para tentar colocar ordem em qualquer coisa que aparecer. Não que o emprego vá ser tudo de bom, mas ele existirá...

Mas, sem vocação, você faz jornalismo? Pra quê? Não tem dinheiro, não tem emprego e, acredite em mim, não tem glamour.


Tacy Viard, na época do fim da obrigatoriedade, andava propagando uma frase da sabedoria popular: Diploma, "você não vale nada, mas eu gosto de você".


Duda Rangel, do "Desilusões perdidas", consegue colocar humor nessa coisa toda de ser jornalista. Para lembrar essa data marginal, ele entrevistou o diploma de jornalismo. Lê aqui.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Com atraso, pelo dia da Imprensa

Dia 1° de junho foi Dia da Imprensa e, sobre esse tema, eu tenho muito a dizer. Aliás, procuro dizer todos os dias. Nessa relação, o abraço tem que ser forte. Muito forte.

Não por falta do que falar, mas por falta de inspiração, reproduzo um texto de Duda Rangel. Irônico e interessante. Bom para marcar a data.



Balzac, escritor francês e inspiração para este blog, disse que “se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”. Eu sempre me encantei com esse quê desencantado do velho Balza, mas acho a tal frase meio radical. Tudo bem que, se a imprensa não existisse, o Zeca Camargo teria sido apenas um exímio dançarino do ventre, o que seria ótimo, mas não posso resumir a questão ao Zeca Camargo. A imprensa tem muita coisa boa também.


E se a imprensa realmente não existisse?

Quem denunciaria as contas secretas, as maracutaias, os dólares na cueca? O novo CD da Preta Gil, que perigo, chegaria às lojas imune de críticas. Não haveria os bares de jornalista e as filosofias de botequim de jornalista. Quem avisaria sobre as graves de trem, as ruas congestionadas e as chuvas de fim de tarde? 

A arte da investigação não teria conhecido o talento de Zé Bob. Pescoção seria apenas o cidadão interessado em olhar o decote da moça ao lado. A liberdade de expressão não teria tanto valor. O Nelson Rodrigues teria sido... o que o Nelson Rodrigues teria sido? Talvez médico? Ginecologista? Meu Deus! 

Não existiria o blog “Desilusões perdidas” para falar mal (e às vezes bem) da profissão. Jamais teríamos conhecido as histórias do bebê-diabo do ABC e do homem que torrou o pênis na tomada divulgadas pelo saudosoNotícias Populares. O Pedro Bial teria, muito provavelmente, dedicado toda a sua carreira a reality shows. 

Não haveria o caderno de Esportes da segunda-feira para a gente ler os elogios à vitória do nosso time. Eu jamais teria acordado com o Jornal da Manhã da Jovem Pan. Repita: eu jamais teria acordado com oJornal da Manhã da Jovem Pan. Os fotógrafos só sobreviveriam com casamentos, batizados e festas de debutante. O furo seria apenas um orifício qualquer.

domingo, 1 de maio de 2011

Be-a-bá // Dívida pública brasileira

Dívida que fica para a eternidade


Para honrar compromissos, Brasil atingiu saldo negativo de R$ 1,7 trilhão


TATIANA NOTARO


A dívida pública brasileira ficou 1,39% maior no mês de mar­­ço, segundo divulgou a Secretaria do Tesouro Nacional, e atingiu a soma total de R$ 1,695 trilhão. Também segundo o Tesouro, a dívida interna chegou a R$ 1,611 trilhão, depois do aumento de 1,6%; já o saldo devedor externo, depois da redução de 2,63%, dá conta que o País de­ve R$ 83,53 bilhões.

Os números são muitos, mas, simplificando, a dívida pública cresce porque o Governo precisa honrar seus compromissos, investimentos, gastos com saúde e educação. Entram também os juros, os grandes culpados pelo “trilhão”. Quando eles aumentam, aumentam também os encargos da dívida. O economista Jorge Jatobá explica que o Governo não consegue bancar todos os gastos com o que arrecada e precisa pedir dinheiro emprestado. “O montante da dívida brasileira corresponde a quase metade do Produto Interno Bruto (PIB) nacional“, diz.

Essa história vem desde a época em que o Brasil ficou independente e “herdou compromissos com alguns credores ingleses”, segundo explica o economista do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau, Djalma Guimarães. Esse primeiro endividamento foi ganhando somas ao longo da história. “O período militar foi o que contraiu o maior endividamento”, comenta. A dívida também se acumulou nos anos 1970, quando havia mais liquidez (mais dinheiro disponível no mercado). “Quando o governo americano aumentou a taxa de juros, os investidores passaram a investir lá e o governo brasileiro teve que se organizar para pagar os compromissos. Foi quando decretou a moratória da dívida e a inflação subiu”, explica.

Na década de 1990, o Plano Real previa o corte de gastos, melhor organização das despesas e combate à inflação. “Foi aí que se estabeleceu o superavit primário, que determina que uma percentagem do orçamento do Governo seja economizado”, relembra Djalma Guimarães. Junto com a valorização do câmbio, a inflação foi reduzida e a economia estabilizada.

Guimarães explica que o Brasil lança títulos da dívida pública no mercado e as pessoas (ou instituições) os compram, o que caracteriza a dívida interna. “Vale a pena usar o dinheiro da restituição do Imposto de Renda para investir nesses títulos”, diz Guimarães. Mais de cinco mil novos investidores se inscreveram no Tesouro Direto no mês de março, elevando o número de participantes desde o início do programa a 230.997, com crescimento de 25,87% nos últimos 12 meses.

O especialista diz que 40% do orçamento brasileiro é destinado a investimentos, pagamento de pessoal e obras,. Os 60% restantes são para juros e serviços da dívida. Em resumo, é mesmo o maior fator de endividamento do País, “por causa da taxa de juros”, como explica Guimarães. O problema da dívida pública é esse: o dinheiro que vai para pagamento de juros e deixa de ser revertido para coisas mais importantes, como necessidades básicas da população. “Não é interessante para nenhum país pagar a dívida pública externa aos grandes bancos estrangeiros. Nos Estados Unidos, por exemplo, ela representa 60% do PIB. O que se pode fazer é melhorar a qualidade da dívida”, analisa.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O porquê de eu ser eu

Transforme o seu maior hobby em ofício diário e, OU você terá orgasmos intelectuais todos os dias, OU terá dores - principalmente as de cabeça. Falo isso por experiência (profissional) própria.

É comum ter que responder sobre o porquê de ter escolhido minha profissão (e, ademais, de ter reiniciado a vida de graduanda num "singelo" curso de Letras) e costumo dizer que o sentido foi inverso. Certeza absoluta que ela me escolheu, que não havia outra saída pra mim; nem pra ela. 

Aliás, poderia não ter me tornado jornalista nunca, já que a primeira vez que fui "lida" me causou incômodos enormes. Era 1994 e eu, sentimentalóide, escrevi no meu "querido diário" um texto sobre a morte de Senna. Por azar ou sorte, deixei o diário à mostra e minha mãe não só o leu como, comovida com minha veia cronista (ou pelo lado materno dela), ligou pra metade da família. Comoção geral. Indignação minha, que arranquei as páginas e joguei-as fora.

(Lembro que o texto terminava assim: "...e doía no peito aquela tão enorme perda. E com ele, Senna, todo o Brasil morreu". Concorde comigo que isso soa cafona, piegas, mas podemos levar em consideração que eu tinha somente 11 anos. Hoje, acho que isso é culpa da radiola de vovô e sua mania de Lupcínio Rodrigues e Ademar Dultra)

Minha segunda leitura pública foi anos depois, em 98. Era dia de devolução de redações corrigidas no Salesiano. A professora Leodila (ah, Léa! Saudades) chamou todo mundo e nada de me chamar, até que pediu atenção pra ler uma "redação muito bem feita e contundente" e eu gelei quando reconheci meu título. Lembro que o texto falava sobre cidadania e a cada parágrafo, eu ficava mais vermelha e mais me abaixava na cadeira.

No final da época do colégio, estava certa do meu destino indisviável de fazer Letras e me tornar professora de Português. Naquela época, meu amigo Ulisses e eu fazíamos o jornal dos terceiranistas e foi por causa dessa experiência que eu me inscrevi no vestibular pra Jornalismo. Passei, detestei e decidi fazer vestibular de novo pra Publicidade, Medicina ou Fisioterapia - o que passasse primeiro.

Mas não passei. Então, dois anos depois, reabri o curso, voltei, meio sem querer. Não tinha dinheiro pra assumir as despesas, mas nada que o coração materno (e uma bolsa de estudos e uma tia fiadora) não desse jeito. E na primeira vez que entrei em uma redação de jornal, encontrei razão para tudo. Hoje eu (re)entendo isso - todos os dias.

Então tô aqui hoje, assim. Todo dia eu tenho surtos de raiva, quebro a cabeça, escuto coisas que não entendo, descubro, revelo, reporto, aprendo. E sou tão feliz pelo que sou.

É, a gente fez as pazes. =)

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Assim que postei, eis:



Dá pra rir. Aqui, gente, não tem meio termo. É na base do "ame-o ou deixe-o".

domingo, 12 de dezembro de 2010

Hasta, Mainardi!

Boa parte da minha vida acadêmica (e pouco depois dela), dediquei ao estudo da ética jornalística. Mais exatamente, ao estudo do código de ética dos jornalistas e sua não aplicabilidade por parte dos veículos, com foco na Veja. Aliás, objeto de estudo rico em crimes, especializado em contravenções. Não precisa se aprofundar muito na análise nem entender do correto exercício do jornalismo pra perceber que ali, em cada edição, há questões densas a serem levantadas.

Politicamente, a Veja é antilula. Não importa quem esteja do outro lado, Lula será travestido de Judas e malhado até o fim, com ou sem motivo. Guardo até hoje a edição especial da eleição do petista, em 2002. Eu achava que seria a prova de que até os que se pensam poderosos podem e devem se redimir, mas bastou checar as edições seguintes para ver que não é nada disso. Longe disso. Há capas lendárias, manipulações explícitas e, assim, a Veja vai vivendo de massacrar o que for de esquerda, o que lembrar regimes comunistas - assim vai fazendo um mau jornalismo há mais de 40 anos.

Hoje estava lendo o Acerto de Contas e lá os meninos contam que Mainardi vai se aposentar. Há um tempo, anunciou que sua coluna semanal passaria a quinzenal; agora, que passaria a ser mensal.

Nesse caso, não há de se ter meias palavras, Diogo Mainardi não as conhece. Sempre foi direto e seco, cruel e pouco profissional, tanto nos ditos escritos como nos falados. Além da coluna da Veja, ele tece seus comentários peçonhentos no Manhattan Conection, um programa na tv paga, de nome cafona e conteúdo diverso. Para assisti-lo, é necessário que o telespectador ligue o filtro. Vai ouvir de tudo, inclusive muita asneira.

Mas, não, não é preciso odiá-lo. Sempre digo aos meus colegas de profissão que Mainardis são necessários, já que tudo na vida precisa de um contraponto. Para que haja o bom jornalista, que respeita seu ofício e a sociedade para e por qual trabalha, precisa-se do mau (leia-se, neste caso, o péssimo). Taí um belo exemplar.

Faz tempo que aprendi que a objetividade do jornalismo é pura mística, invenção de algum inocente. Respeito a posição que Mino Carta dá à Carta Capital, lulista assumida, assim como o "direitismo" da Veja, mas vamos questionar os meios para entender os fins. É bom também questionar o que quer um comunicador como Mainardi quando batiza um livro publicado de "Lula é minha anta". Mas faz totalmente a linha editorial da majoritária revista. A Veja é, sim, desse tipo de postura.

Em 89, quando a Veja publicou as cartas enviadas à redação que tratavam sobre a matéria publicadas sobre Cazuza (para lê-la, clique aqui), uma me chamou atenção. Aliás, uma serviu-me de veredicto. Era assinada por um deputado em exercício na época, ofendia aos signatários da carta de repúdio à matéria (Chico Buarque, Marília Pêra...) e terminava dizendo: "e ao indecoroso Cazuza, que o inferno o espere ardente e brevemente" (algo assim, não me lembro exatamente das palavras). Isso, para não dar ênfase àquela famigerada matéria:


Eu duvido que a Veja deixe de ser quem é quando Mainardi tomar seu rumo. Aposto que será capaz de ceder o local de destaque a outro do mesmo tipo. São milhões de assinantes. É a revista mais lida do País, escrita por gente boa e por profissionais de conduta duvidosa. É jornalismo de alta periculosidade. Concordo com o Acerto de Contas: já vai tarde.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dilma e os impasses da política econômica

[íntegra da matéria publicada na edição de hoje da Folha de Pernambuco]

Em 1º de janeiro, será encerrada a Era Lula. De certa forma. Com a eleição de Dilma Rousseff, o espírito é muito mais de continuidade que de recomeço. E com Dilma eleita, atenção para a economia brasileira, um dos pilares mais fortes da política lulista. É necessário que os cidadãos acompanhem as especulações quanto ao destino econômico, rumo que interfere diretamente na vida de todos.

O professor de Economia da Faculdade Boa Viagem (FBV), Antônio Pessoa, considera positiva a manutenção da atual política econômica, responsável por boa parte do que o País conquistou nos últimos anos. "Mas deve haver algumas mudanças. Lula assumiu o governo com o Real desvalorizado e hoje temos o inverso: um mercado interno crescendo, especialmente para as classes C e D. Agora, é necessário o controle do gasto público", explicou. 

Os analistas vêm o cenário mais favorável para o início do governo Dilma. Estável. Com isso, pode-se apostar em uma reforma tributária. Antônio Pessoa analisou que o ICMS (o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) pode ser alvo das mudanças com a retomada das discussões a respeito do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) que incide no mercado de destino, que o poderia substituir. "Essa questão já está em debate na Câmara, mas o governo precisará de muita negociação já que a mudança onera o estado de origem", disse Pessoa. Hoje, funciona assim: se Pernambuco compra mercadorias de São Paulo, 17% do valor é pago à Fazenda paulista e Pernambuco fica com a diferença entre esse percentual e a tarifa do ICMS estadual. Se for de 25%, no final das contas, Estado fica com 8%. Com o IVA, o imposto é pago à fazenda do estado de destino.

A medida mais "emergencial" para Dilma é a política cambial. "Não é algo que se faça de imediato, é uma questão mundial. Com o Real valorizado frente ao Dólar, por exemplo, nosso produtos ficam mais caros lá fora e os importados, mais baratos por aqui", analisou Antônio Pessoa. Outro ponto é a da dívida pública. Sim, deve haver o controle, mas o professor explicou que a brasileira não é tão alta, ficando em torno de 40% do Produto Interno Bruto (PIB). "É administrável por medidas como redução da taxa de juros, administração do gasto público e a manutenção do crescimento da economia", enumerou.

Analistas consultados pelo Banco Central aumentaram a estimativa de expansão para o PIB brasileiro em 2010 - de 7,55% para 7,6%. Para 2011, a projeção tem se mantido nos 4,5% há 47 semanas. "Certamente o crescimento durante o primeiro ano do governo Dilma será menor, aposto na variação entre 5% e 5,5%. Se houver em 2011 um PIB tão alto quanto neste ano, é provável que haja inflação", analisou Antônio Pessoa. "A vantagem do programa de governo do PT é o crescimento descentralizado, mais que no governo de Fernando Henrique Cardoso", destacou. O professor lembrou ainda que Dilma terá vantagens como a Petrobras à frente do Pré Sal. Mas, antes de qualquer coisa, Dilma foi eleita por e para suceder o governo Lula. Aliás, uma grande responsabilidade.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Lições para um repórter de rua

Dia a dia de repórter é difícil, pode acreditar. Começa pelo horário - você pode até saber que horas começa, mas nunca a hora que vai conseguir apurar tudo e dizer tchau ao editor. É cansativo, muitas vezes penoso, mas a gente se diverte (ou não) e aprende (e muito) todos os dias.

Fui pautada para acompanhar a volta ao trabalho dos bancários, que estavam em greve desde o dia 29 de setembro. Às 10h, já estava pelo meio do mundo, perguntando às pessoas sobre eventuais problemas causados pela paralisação de 15 dias. Olhem, é na rua, abordando estranhos e buscando informações, onde estão as verdadeiras lições do jornalismo.

Entrei com a fotógrafa Nathália Bormann na agência da Caixa Econômica Federal que fica próxima ao Teatro de Santa Isabel para conversar com as pessoas que estavam na fila sobre seus afazeres nesse primeiro dia de retorno. Eis que abordo uma senhora negra, aparentemente de uns 40 anos:

- Bom dia, como é o nome da senhora?
- Bom dia, é Marize...
- Com "z" ou com "s"? [eu, anotando]
- Não sei, olhe aqui... [ela, me entregando a carteira de identidade]
- É com "z", dona Marize... a senhora faz o quê?
- Tomo remédio controlado
- Ah, sim... e a senhora veio fazer o quê aqui no banco?
- Vim buscar o auxílio moradia. R$ 150, minha filha, vê se pode... 

E dona Marize me contou que completa o aluguel do apartamento onde vive com mais sete pessoas com mais R$ 100. "Não dá pra nada", resmungou, antes de seguir na fila. Dona Marize estava naquela fila pra pedir nova senha ao banco - ela não lembrava mais da antiga e esperou os 15 dias da greve para sacar o dinheiro.

Eu aprendo todo dia que o mundo aí fora é bem grande. Muitas vezes, triste e injusto.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

"Cada um enxerga o que quer ver"

Do Acerto de Contas, a velha (e caquética) imparcialidade do jornalismo:


Na legenda da foto, lê-se:

SEM COMUNHÃO Dilma assiste a missa em Aparecida (SP) ao lado de Gabriel Chalita (PSB); ela não comungou e deu a entender que a doença a reaproximou de Deus”

Leitor, duvide, investigue, use o google:



Ambas imagens, de Joel Silva, da Folhapress.
Preocupante.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Papo furado de trânsito [1]

Saindo do jornal hoje, aproveitando para dar uma caroninha ao meu querido André Clemente e aproveitando mais de sua agradável [e sempre compatível] companhia, conversávamos sobre os professores figuras que tivemos na época da Católica. Foram vários, mas duas professoras especificamente têm espaço garantido no coração da gente. É uma identificação que temos, os dois, por pessoas que conseguem ser "grosseiras" sem perder a classe. Sabe a doce "acidez" de ser inteligente e chato? É isso...

É difícil de entender, então, vamos a elas. Por ordem alfabética.

Neide Mendonça é uma senhora (não arrisco chutar sua faixa etária, tenho medo), aliás, é a "senhora" da Língua Portuguesa. Mas digamos que ela é direta, curta e grossa. Prática. É ela mesma aí nessa foto, que eu achei ilustrando essa matéria do Diario de Pernambuco. Mas não se engane muito com o sorrisão não...

Contei eu a André que, quando pagava cadeira com ela, chegou o dia de apresentar trabalhos. Lembro de ter lido incansavelmente o texto que me cabia para não fazer feio. Não tinha um pé de gente naquela sala que não morresse de medo de Neide. Só que um teve a ousadia de chegar lá na frente da turma, pior, na frente de Neide, e começar a ler o texto. Ao que ela interrompeu:

- Meu filho, alfabetizado eu sei que você é. Se for pra ler, pode sentar. Não perdemos nem o meu tempo nem o seu.

[quem arrasa com um é ela!]

Então André me contou que quando ele era seu aluno, Neide perguntou em sala como a turma fazia para identificar um erro de grafia [nunca diga erro de "ortografia" perto de Neide, o fora é certo*], para identificar se uma palavra estava escrita de forma correta. Uma pobre alma respondeu:

- Professora, eu escrevo de várias formas e utilizo a memória visual para identificar a correta...

E Neide:

- É uma saída... de ignorante, mas é uma saída.

E André morreu de rir. Eu também.


Stella é o mesmo tipo. Aliás, é um tipo mais ameno, mas não menos ácido. Filipe (meu amigo Filipe Falcão) costuma dizer que Stella Maris Saldanha é a "dama da tv pernambucana". André e eu assinamos embaixo. A elegância passou por ali e ficou.

Pois então.

Stella foi professora da minha turma em três das quatro cadeiras que pagamos de televisão. Em TV 1, avisava logo que a leitura de "Chatô, o Rei do Brasil" era obrigatória e, pra piorar, com prova oral. E fez mesmo. Lembro até que tirei um 8, em companhia do eu amigo Rodrigo Raposo.

Mas vamos aos clássicos "stelísticos". 

Filipe contava (fique claro que não sei se é lenda) que certa vez, assistindo a um stand up de uma aluna, Stella interrompeu e disse:

- Algo em você incomoda ao telespectador, mas ainda não sei o que é...

E reviu o vídeo mais duas vezes, até que:

- Aaaaah... é que você tem os olhos 'assimétricos'. Eu não sei se é o caso de uma intervenção cirúrgica ou se uma maquiagem resolveria o problema.

[Nesse momento, André diz: palmaaaaaaaaaas!!!]

Em outra vez (essa eu estava na sala), ela virou-se para uma colega nossa e disse, com o script da matéria na mão:

- Minha filha, antes de qualquer coisa, sugiro que você faça um investimento em você. Compre uma gramática... seus erros de Português são inadmissíveis para uma aluna de jornalismo.

[momento tenso de silêncio...]

Num outro momento, também na nossa sala, Stella assistia a uma matéria de uma colega nossa. Até que aparece "Fofão", o dono de um dos bares do entorno da Católica. Digamos que Fofão não é das pessoas mais bonitas do Recife. Ele mais parece que pegou varíola... Stella então manda o pessoal parar a fita e diz:

- Minha filha, como é que você coloca um ser tenebroso desse no vídeo?

A "repórter" se zangou com o "preconceito" da professora, que deu logo um corte:

- Nada, menina, nada pode chamar mais atenção na reportagem do que a notícia. Nem você, nem seu cabelo, nem seus brincos e, muito menos, o personagem.

Mas Stella tem uma coletânea de frases impagáveis:

- "Olhe, Tatiana, sua matéria sai do nada para canto nenhum" - sim, essa foi comigo.
- "Você tem a voz infantilizada. E quem vai dar credibilidade a uma criança?" - essa foi com uma amiga nossa, Ana Patrícia.
- "Meu filho, o seu sotaque não precisa gritar: EU SOU DE CARUARU" - essa foi pra André.

Ai, ai... Neide e Stella são tudo! E que fique claro que são profissionais exemplares, excelentes mestras! Amor eterno às duas!

* segundo Neide ensinou: ORTOGRAFIA ["orto" - correta; "grafia" - escrita]

domingo, 23 de maio de 2010

Jornalismo sobre qualquer matéria

Lembro quando tinha acabado de reabrir o curso de jornalismo e fui para um congresso de comunicação aqui no Recife. Um dos palestrantres, o jornalista Ricardo Noblat, profetizava que dali a alguns poucos anos, seria o fim do jornalismo impresso - sentença de morte para o papel.

Achei os argumentos dele falhos. Fosse a tecnologia o grande algoz do jornal "de papel", pelo mesmo motivo, o rádio estaria somente na lembrança, depois de ter visto seus ouvintes virarem telespectadores. Teria pendurado as chuteiras nos anos 50, pedido aposentadoria e cedido espaço para a moderna TV. Mas o rádio continua aí, firme, funcional em seu cargo de companheiro inseparável. Quero conhecer motorista que não precise dele.

Não é simplesmente por ser declaradamente apaixonada pelo jornal impresso, de gostar de pegar e sentir aquele cheiro ruim de tinta. Nem é pelo meu lado emotivo-canceriano que se manifesta quando, ao largar do dia de trabalho, já perto das 21h, vê e ouve as rotativas do jornal trabalhando.

Os grandes já põem em prática algumas mudanças substanciais para adequar a velha arte da imprensa aos novos tempos da tecnologia. Aos antigos e aos bons tempos, o sempre bom e bem feito jornalismo.

Vídeo interessante sobre o tema, clique aqui.

sábado, 15 de maio de 2010

Vão fechar o Canecão?

Estava correndo pra almoçar quando ouvi na televisão da redação que a UFRJ tinha conseguido a reintegração de posse do prédio onde, desde o fim de década de 60, funciona a casa de shows Canecão. Voltei da porta pra conferir se tinha ouvido direito. E tinha.

A ação movida pela Universidade tem mais de 40 anos e o reitor Aloízio Teixeira acompanhou a ação do oficial de justiça e da Polícia Federal, porque funcionários do Canecão não teriam respeitado a decisão da Terceira Vara Federal do Rio de Janeiro. Na segunda passada, 10 de maio, não houve apresentações e o agentes lacraram as entradas da casa com fitas e cadeado. O acervo da casa pertence ao atual administrador, então será feito um levantamento de todas as coisas. Depois, dizem, vão reunir os artistas para discutir projetos futuros.

Fiquei mais "tranquila" quando soube que o Canecão não será desativado, apenas mudará de gestão. Isso foi o que prometeu o "prefeito da Cidade Universitária", Hélio de Matos, mas ele não soube dizer que a  ação prejudicará a agenda da casa. “Não há pretensão alguma de acabar com a casa de espetáculos. Isso não passa pela cabeça da UFRJ. O Canecão é um patrimônio cultural do Rio de Janeiro. O que muda apenas será gestão. A UFRJ passa a gerenciar o local”, afirmou.

(Ainda bem que ele sabe disso)

No ano passado, a Procuradoria Regional Federal do Rio deu parecer favorável à universidade. Na época, além de devolver o espaço, o Canecão teria que pagar uma indenização à universidade. Uma série de recursos, porém, permitiu que a casa de shows continuasse funcionando.

Consta que o imóvel foi cedido pela universidade à empresa em 1992 e a previsão contratual é que a cessão durasse cinco anos. As disputas se acirraram em 1997, quando a empresa deveria ter desocupado o local.

Mas não desocupou, né? Tanto que, em janeiro de 2007, eu estive lá para assistir ao show "Carioca", de Chico Buarque. Olha lá meu registro no dia:



Só espero que o impasse não feche as portas do Canecão, que é um espaço emblemático da história da música brasileira e mundial. Foi aberto em junho de 1967, como uma grande cervejaria com espetáculos de variedades. Com o passar do tempo, o espaço passou a ter shows de MPB e recebeu grandes astros como Cazuza, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Clara Nunes e Elizeth Cardoso.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Jornalistas, somos artistas?

Ayrton Maciel, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco (SinjoPE)



Haverá o dia em que ouviremos a notícia de que um pai, nos momentos de felicidade pelo nascimento de um filho, lhe dará, como primeiro presente, o registro de jornalista no Ministério do Trabalho. Ou seja, já se nascerá com uma profissão. E se não der certo em nenhuma outra que vier a escolher depois, não terá problema. É só voltar à raiz.

É certo que a Terra tem alguns milhões de anos, e certamente terá outros milhões. É possível que nesse espaço futuro de tempo voltemos ao estágio em que a Medicina seja praticada por curandeiros, que os rábulas sejam os grandes oradores do Direito, que a Igreja volte a negar que a Terra gira em torno do Sol. No entanto, por enquanto, ainda saudamos a ciência, a pesquisa, a formação e a razão, bases do processo civilizatório, do progresso material e do desenvolvimento humano.

E por que tanto rodeio para dizer que somos contra a filiação de não-diplomados aos Sindicatos de Jornalistas? Porque curandeiro não consegue registro nos conselhos de Medicina, rábulas não fazem a prova da OAB e a Igreja não manda mais ninguém para a fogueira por cientificamente negar dogma.

Não podemos ser cúmplices. Nossa obrigação é lutar. Não podemos admitir que o processo termine por transformar Sindicatos em clubes de recreação e balcão de comércio de identidade profissional ou arena para estreitismo ideológico. No primeiro caso, há o risco de se chegar a um sindicalismo de compadrio; no segundo, termos um sindicato estéril. Estamos em uma etapa de luta, não cabe cair na luta.

Somos contra a filiação de não-diplomados. A decisão do STF foi um retrocesso de 100 anos. O mais grave ataque à profissão e à sua organização de trabalho em um século. Se todo mundo é jornalista, onde tudo começa e tudo termina? Admitir a filiação de pessoas que se beneficiam dessa decisão é referendar a posição do nosso algoz.

E agora, o Código de Ética dos Jornalistas serve para quem, se todos são jornalistas? O que valerá é o código de ética das empresas ou o código de cada um? Ou, o não-código?

Jornalismo não é arte. Não é arte plástica, não é arte cênica, não é literatura e não é cordel. É só uma profissão, um ofício com suas técnicas de apuração, redação e apresentação, que tem seu espaço de criação, mas, que - diferentemente da arte - não tem qualquer traço de ficção nem é ilimitado no imaginário do jornalista.

O jornalista não cria, apenas relata. Nos assemelhamos aos artistas apenas na vital necessidade de liberdade. Jornalismo não se vende, não é mercadoria, não é moeda de troca, de barganha ou de acumulação de riqueza. Quem assume o papel do capital é a empresa privada e quem assume o papel do poder público é o Estado, não é o Jornalismo. Portanto, precisa ter alguém para exercê-lo com identidade.

O risco de hoje é perdermos tudo o que construímos para aqueles que acham que Jornalismo é arte.


quarta-feira, 7 de abril de 2010

O que importa pra você?

Acabei cancelando um post que fiz para hoje, 7 de abril, Dia do Jornalista, quando parei para acompanhar as notícias sobre as chuvas que caem no Rio de Janeiro.

O mundo carioca tá em colapso, a Globo foca todas as câmeras por lá, seu próprio umbigo. Mas sejamos solidários.

O que me chamou atenção foi o ranking das notícias mais acessadas do dia. E eu já falei tanto sobre isso aqui, né? Eu fiquei sem muitas palavras, mas olhem pra isso:


O ranking de interesses me preocupa muito.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Estamos no caminho...

Estamos, alguns, na luta insistente de debater o ideal; mesmo sabendo que o embate será eterno. Sempre haverá o real para se sobressair ao pobre e raquítico idealismo e suas correções. Só não quero, mais tarde, ao olhar num espelho, perceber que o idealista de testa franzida e discursos firmes virou um conformista empoeirado e lacônico, daquele que repete, como um vinil velho: “é assim mesmo”. 

Abaixo, um texto assinado por Alberto Dines, que exerce o jornalismo há anos.


EDIR MACEDO
Bispo quer a carteirinha de jornalista

Por Alberto Dines em 2/3/2010

O bispo-empresário Edir Macedo insiste em ser jornalista. É dono de uma poderosa rede de TV, tem concessões para dezenas de emissoras de rádio, pode dizer o que quer, enganar, subtrair, distorcer, criar fatos e factóides. Mas não está satisfeito. Quer uma carteirinha de jornalista. Para atender suas angústias existenciais ou ganhar convite para as estréias de filmes.

Apelou para a justiça em 2001, conseguiu ser admitido como jornalista-colaborador e em agosto de 2009, depois de o Supremo Tribunal Federal acabar com a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, entrou com uma ação no Tribunal Regional Federal da 2ª Região. O desembargador Fernando Marques o atendeu.

Errou o meritíssimo, data vênia: a entidade à qual Edir Macedo pretende associar-se (o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro) é composta exclusivamente por trabalhadores. Na condição de patrão, empregador – e aqui não vai nenhum juízo de valor –, Macedo não pode pretender a defesa dos interesses dos empregados. É incompatível.

Sindicato é, segundo o dicionário Houaiss, uma...

"...associação, para fins de estudo, defesa e coordenação de seus interesses econômicos e/ou profissionais, de todos os que (na qualidade de empregados, empregadores, agentes ou trabalhadores autônomos ou profissionais liberais) exerçam a mesma atividade ou atividades similares ou conexas."

Edir Macedo tem todo o direito de associar-se a um sindicato de empresas ou empresários. São seus iguais, conexos. Suas atividades e funções na Rede Record (ou em qualquer outro veículo do seu grupo) não são similares às dos demais funcionários. A começar pelo poder de admitir ou demitir que o colocam em posição desconexa frente aos demais companheiros.

Especificidade liquidada

Absorvido pelas novidades aportadas pela decisão do STF no tocante ao diploma, o magistrado passou ao largo dos condicionantes ontológicos e morfológicos de uma entidade sindical. A guilde francesa, guild inglesa ou gilde alemã eram corporações de artesões formadas na Idade Média, organicamente coesas e obrigatoriamente uniformes.

Segundo o mesmo Houaiss, corporação é um...

"...conjunto de pessoas que apresentam alguma afinidade profissional, de idéias etc., organizadas em uma associação e sujeitas ao mesmo estatuto ou regulamento... Organismo social que reúne os membros de uma mesma profissão".

A um comerciante de vinhos jamais ocorreria associar-se a uma corporação de vinhateiros. Um vende, o outro produz, ambos lidam com vinhos mas em diferentes posições do processo, com interesses divergentes.

Mesmo que Edir Macedo seja capaz de redigir corretamente um texto de 10 linhas como as centenas de jornalistas aos quais paga salários, o simples fato de ser o detentor de um meio de produção (e representar o capital), coloca-o em posição diametralmente oposta à daqueles que representam o trabalho. Não são categorias melhores ou piores – são diferentes, radicalmente diferentes.

Ao justificar a extinção da exigência do diploma, o ministro Gilmar Mendes do STF tentou ir além e liquidou a especificidade de uma profissão com registros históricos que remontam ao Império Romano. Agora, o egrégio Tribunal Regional Federal da 2ª Região avança na dissolução de um sindicato e anula sua definição e função social.

Estamos no bom caminho...

terça-feira, 2 de março de 2010

Resultado da queda do diploma para jornalistas: começa a bandalheira

[Bom para aqueles que pensam que a nossa revolta é somente corporativismo]

Justiça concede carteira de jornalista para Edir Macedo 
Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro

Era só o que faltava! O desembargador Fernandes Marques, do Tribunal Regional Federal, determinou que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio expeça Carteira de Identidade Profissional de Jornalista em nome do bispo Edir Macedo, líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus.

A decisão do desembargador, proferida em 26 de agosto de 2009, atende a um recurso de apelação em mandado de segurança impetrado por Edir Macedo para tentar obter a carteira de jornalista, negado em sentença proferida, em primeira instância, em 13 de março de 2001, no mesmo ano em que o líder religioso encaminhou o pedido à Justiça.

Paralisado desde então, o mandado de segurança foi concedido integralmente no ano passado pelo Tribunal de Regional Federal, em segunda instância, baseado na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que em 17 de junho de 2009 extinguiu a obrigatoriedade de diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista.

No esclarecimento que está encaminhando ao TRF, o advogado do Sindicato, Walter Monteiro, explica que existe uma série de exigências para serem cumpridas e que aguarda o pronunciamento do TRF para saber como proceder diante da decisão.

Explicações
O advogado lembra que o bispo Edir Macedo, quando impetrou o mandado de segurança em 2001, informou que possuía um registro especial de "jornalista colaborador", embora hoje não exista mais esta função nem a obrigação de diploma de nível superior para se exercer o jornalismo. Destaca, no entanto, que "não é verdade que o registro profissional tenha deixado de existir - até para continuar dando algum sentido à identificação do jornalista, como é a intenção do impetrante (Edir Macedo)".

Na opinião de Walter Monteiro, agora o bispo deve obter um registro de jornalista no Ministério do Trabalho e não apenas um registro especial de colaborador, “que era facultado aos não portadores de diploma antes da inconstitucionalidade da decretação desta exigência”.

No pedido de esclarecimento à Justiça, o advogado do Sindicato observa que a carteira é um documento legal de identidade, com validade de três anos, emitida em formato digital com um chip, além de assinalar que Edir Macedo precisa comparecer pessoalmente ao Sindicato, com fotos, RG e CPF.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Mataram Alcides. E agora?

Eu ainda não tenho filhos. O mais próximo disso é a minha irmã mais nova, de sete anos. Desde que Mariana nasceu, comecei a atentar mais para a responsabilidade de pôr alguém tão inocente e frágil em um mundo como este. Para ser exata, em uma cidade como a minha, um pedaço pequeno de Brasil, impecavelmente igual ao resto, cheia de alegria, de belezas, de gente boa e – na mesma proporção – cheia de injustiças.

Desde criança, ouvi que faço parte de um país injusto – e conformado. Daquela época, lembro do primeiro choque, quando uma menina de cinco anos foi seqüestrada e queimada. “Assim, do nada?” - pensei. É... do nada, sem explicações. Eu só tinha 9 anos e essa foi só a primeira da (minha) lista. Aqui, se aprende cedo que o mundo não está para brincadeiras, que as pessoas são más e que a desconfiança é uma questão de sobrevivência. Violência é uma coisa corriqueira, diária, presente em qualquer esquina ou na porta de casa.

No dia em que os jornais noticiaram a morte de Alcides, eu me lembrei da música de Nando Reis, Relicário: “o que está acontecendo?/ o mundo está ao contrário e ninguém reparou?”. Você pode até me lembrar que, todos os dias, alguém morre por os mais banais motivos imagináveis. Concordo. Precisamos concordar. Eu só me pergunto onde vamos parar com isso. Pergunta difícil...

Dona Maria Luiza vivia do trabalho de puxar carroça e criou três filhos com todo o esforço e dedicação que a missão exige. Alcides enchia o peito da mãe de orgulho; passou em primeiro lugar da rede pública no vestibular da Federal de Pernambuco em 2007 e estava prestes a se tornar um Biomédico. Um dia desses, mataram o menino, de apenas 22 anos. Assim, do nada. Era sábado, 6 de fevereiro, por volta da 1h da manhã, quando Alcides levou dois tiros na cabeça (o terceiro, impedido por sua mãe, que segurou o assassino), dentro de casa, depois que os bandidos interromperam seus estudos. Os dois tiros mataram Alcides e acabaram com o esforço da vida de Dona Maria Luiza. Se tiver como piorar, mataram por engano.

Eu me indignei, mas a mísera indignação de nada adianta. Você sente agora, mas ela passa. Também não adianta esbravejar, gritar – isso é o mínimo. Prender os assassinos é o mínimo. Estamos no limite do aceitável, no extremo, e parece que ninguém reparou. E Alcides? E Dona Maria Luiza? E o que faremos nós com nossos filhos, irmãos. O que faremos?

Parei e recomecei esse texto várias vezes hoje. Procurei respostas para dar àqueles que lêem, procurando cumprir a função de jornalista. Hoje, com 15 dias do enterro de Alcides - hoje, com Pernambuco contabilizando a morte de 552 pessoas apenas destes 52 dias de 2010, eu não tenho o que dizer, não tenho explicações. Não há motivos para clamar misericórdia divina, por que dizem que ele nos deu livre arbítrio – a infeliz ideia de nos dar o rumo da própria vida. Parece tão inútil quanto pedir justiça, tão inútil quanto cobrar medidas do poder público.

Vamos nos acostumando a viver de migalhas, conformando com números levemente menores de violência, com um pouco menos mortes a cada dia. Embora pobre e negro, como tantos que morrem todo dia no Recife, Alcides toca porque é capaz de fazer pensar, porque traz o pesar de uma boa lição que não teve a chance de chegar ao destino que lhe cabia. Então, você me pergunta: não há nada nessa história para servir de consolo? Não sei.

O jornalista João Valadares escreveu (clique aqui pra ler o texto na íntegra):
Morador da Vila Santa Luzia, na Torre, filho de uma ex-carroceira, tirou fino da miséria e passou no vestibular de Biomedicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Passou bem. Foi primeiro lugar entre os alunos das escolas públicas. Não fazia outra coisa. Só estudava e frequentava o grupo jovem da Igreja da Torre. Deixou a mãe louca de felicidade. E a Vila Santa Luzia também. As mães de lá ganharam um rosto para mostrar aos filhos. "Tá vendo aquele ali. Passou no vestibular."

E como fica o exemplo para os outros jovens que poderiam superar a miséria financeira e escolar? Alcides morreu. E agora?

A irmã dele também foi aprovada na Federal de Pernambuco, neste último vestibular. Serve de consolo? Ao contrário do guri da música de Chico Buarque, os filhos de Dona Maria Luiza chegaram lá – de verdade.

Alexandre Gondin/JC Imagens
Dona Maria Luiza, no enterro de Alcides - "...e na sua meninice/ Ele um dia me disse que chegava lá"