Vai, teu corpo, leva de mim Teu passado todo Consolo é ficar por aqui Vai ter a quaresma na Terra E a guerra não deve existir Só rima com escravos, não cravos De bonitas rosas Já que indaguei a mente e não a alma Já que indaguei a mente e não a alma Já que indaguei a mente e não a alma Que bonita flor
Vai, teu corpo, leva de mim Teu passado todo Consolo é ficar por aqui Vai ter a quaresma na Terra E a guerra não deve existir Só rima com escravos, não cravos De bonitas rosas
Já que indaguei a mente e não a alma Já que indaguei a mente e não a alma Já que indaguei a mente e não a alma Elegi o amor
Primeiro a imaginação, depois eu poderia pôr Primeiro a imaginação, depois eu poderia pôr Você faz bem isso e eu te amo Você faz bem isso e eu te amo Você faz bem isso e eu te amo Que bonita flor Primeiro a imaginação, depois eu poderia pôr Primeiro a imaginação, depois eu poderia pôr Você faz bem isso e eu te amo Você faz bem isso e eu te amo Você faz bem isso e eu te amo Que bonita flor Rima com escravos de bonitas rosas...
Com certeza, "Vagarosa" era um show esperado. Tanto que, mesmo com a concorrência de Zélia Duncan, que faz show hoje aqui no Recife, tinha muita gente no Teatro da UFPE para assistir Céu cantando. Mas, também com toda certeza, não foi um momento tão agradável quanto muitos esperavam. Primeiro, pelo atraso de mais de meia hora para o início do show, programado para as 21h. Segundo, porque Céu pareceu introspectiva demais. Arrisco, até indiferente ao público; que por sua vez, também começou a ficar indiferente - muita gente levantando das cadeiras e até conversando (atrás de mim estava um casal que não parou de conversar um minuto durante o show).
Vamos registrar que, sim, "Vagarosa" mantém o nível músical do primeiro trabalho da cantora. Os músicos que dividem com ela o palco conseguem uma sincronia harmoniosíssima entre bateria, teclado, uma pic up e até um acordeon. Céu interage bem com as suas back vocals "eletrônicas" - as vozes de fundo que a acompanham vêm da pic up, iguais àquelas gravadas no CD - mas não consegue ir além disso. É certo que havia lá fãs entuasiasmados, que davam aplausos igualmente entusiasmados ao fim de cada música e que foram dançar nos espaços que ficam nas laterais da plateia, perto do palco. Quando percebeu a movimentação, a cantora chegou a ensaiar algum contato com eles, sem muito carisma. E o resto do público parecia muito alheio.
Levei minha mãe e minha avó comigo. Lá pras tantas, quando eu já tinha percebido a impaciência das duas, Céu começa a cantar uma música em inglês ('Two to tango", que ela ouvia "quando era adolescente" num álbum de Ray Charles e Betty Carter). Segue o diálogo:
- Essa moça é daqui? - vovó perguntou à minha mãe.
- É...
- E por quê ela só canta em inglês?
- Não, essa é a primeira música que ela canta em inglês- respondeu minha mãe.
Quer dizer, depois de quase uma hora de show, vovó ainda não tinha entendido UMA PALAVRA do que Céu cantava no palco. E não era problema de som não...
Não bastasse a conversa paralela dentro do teatro, comecei a sentir cheiro de maconha. Eu não tenho nada contra quem gosta da erva, mas daí a pessoa se achar no direito de fumar num ambiente fechado, com arcondicionado, é demais. Quando Céu anunciou a saideira, eu me ofereci pra ir embora. Aí identifiquei a galera da fumaça, que puxava e fumava, lá trás. E ninguém da organização do teatro viu isso.
E como falei num outro post, "Vagarosa" recebeu patrocínio do projeto cultural da Natura, que propunha, entre outras coisas, "ingressos a preços populares". Só se for em outro lugar, por que aqui na minha terra, ingresso a R$ 30 não tem nada de popular.
ps: eu tirei umas fotos, mas ainda não baixei.
ps2: descobri que o release que recebi sobre o show estava errado. Este não foi o primeiro show de Céu no Recife. Ela se apresentou aqui no Abril pro Rock do ano passado.
Nesse feriado que passou, cedi ao convite da minha mãe e a acompanhei em uma viagem para Garanhuns (cidade natal dela, aqui no interior de PE). A cidade estava "movimentada" por causa da quinta edição do Festival de Música, evento comparado àqueles antigos festivais do século passado, que revelaram jovens e (então) desconhecidos compositores e cantores, como Chico Buarque, Nara Leão e Caetano. Foram 2 mil músicas inscritas e 45 selecionadas para passar pelo crivo dos jurados. Cinco foram premiadas - o primeiro lugar ficou com um garanhuense, pela primeira vez.
Bem, mas o que quero contar aqui não são os detalhes do festival, mas uma experiência interessantíssima. Lá pras "uma e tantas da manhã", eu saí de casa, meio a contra gosto, pra ir jantar com a minha mãe no Relojoeiro (cujo dono e cheff trabalhou no famoso e antigo restaurante Leite, no Recife). Aliás, o lugar é mais que recomendado para que gosta de comida boa!
Bem, mas sem tergiversar muito, vamos ao que interessa. Lá no Relojoeiro, havia um encontro dos jurados do Festival de Música (exceto Roberto Menescau, que preferiu ficar no hotel). O radialista José Mário Austregésilo, o maestro Neneu Liberato e o compositor Carlos Fernando (abaixo). Este último, uma grande enciclopédia viva da história da nossa música.
Eu achei alguns comentários dele curiosíssimos e anotei para registro. Por exemplo, a música "Eclipse oculto", de autoria de Caetano Veloso. Disse-nos Carlos Fernando, a letra foi escrita por Caetano para Regina Casé, com quem o baiano estava tendo um affair. Acompanhe o raciocínio. Repare nos versos grifados e imagine o "tesão murcho":
Eclipse Oculto
(Caetano Veloso)
Nosso amor não deu certo, gargalhadas e lágrimas De perto fomos quase nada Tipo de amor que não pode dar certo na luz da manhã E desperdiçamos os blues do Djavan
Demasiadas palavras, fraco impulso de vida Travada a mente na ideologia E o corpo não agia como se o coração tivesse antes que optar Entre o inseto e o inseticida Não me queixo, eu não soube te amar, mas não deixo de querer conquistar Uma coisa qualquer em você - o que será?
Como nunca se mostra o outro lado da lua Eu desejo viajar pro outro lado da sua Meu coração galinha de leão não quer mais amarrar frustação O eclipse oculto na luz do verão
Mas bem que nós fomos muito felizes só durante o prelúdio Gargalhadas e lágrimas até irmos pro estúdio Mas na hora da cama nada pintou direito, é minha cara falar Não sou proveito, sou pura fama
Nada tem que dar certo, nosso amor é bonito Só não disse ao que veio atrasado e aflito E paramos no meio sem saber os desejos, aonde é que iam dar E aquele projeto ainda estará no ar?
Não quero que você fique fera comigo Quero ser seu amor, quero ser seu amigo Quero que tudo saia como o som de Tim Maia sem grilos de mim Sem desespero, sem tédio, sem fim
Hã?
Bem, Carlos Fernando passou a noite exaltando a genialidade de Caetano ao compor recados. Eu mesma não fazia idéia de que "O Leãozinho" (gosto muito de te ver, leãozinho/ caminhando sob o sol...) fora composta para Dadi, baixo e guitarra da banda A Cor do Som. Eu também nem cogitava que "Esse cara" também era um "recado" de Caetano para o seu então empresário:
Ah! Que esse cara tem me consumido A mim e a tudo que eu quis Com seus olhinhos infantis Como os olhos de um bandido Ele está na minha vida porque quer Eu estou pra o que der e vier Ele chega ao anoitecer Quando vem a madrugada ele some Ele é quem quer
Ele é o homem Eu sou apenas uma mulher [Continua...]
Passei o ano inteiro lendo trechos do livro “Clara Nunes – Guerreira da Utopia”, de Vagner Fernandes. Não, o livro não é ruim, pelo contrário, é uma história instigante de alguém que criou a si própria, mudou tudo e ganhou a todos. É a história de Clara Francisca, mineira, que virou Clara Nunes, brasileira. Brasileiríssima.
Em sua narrativa, Vagner abre espaço para todos aqueles que conviveram com a cantora Clara Nunes, mas também com a Clara mulher, fã, ídolo, irmã, amiga, esposa. Criou merecidos floreios, destrinchou uma infância pobre, seu apogeu pela Música Popular Brasileira (da música romântica, passando pelo forró e pelo samba, sua marca) e a apoteose. A vida de Clara foi um samba, partido de altíssimo nível, que deixou seus registros em muitos outros ritmos.
Quando li o capítulo que conta sobre sua morte, fiquei voltando ao início, como se tentasse mudar o fato consumado. Talvez por ser muito difícil de acreditar que tudo aquilo que foi Clara tenha se esvaecido por tão pouco. Como não pôde ser mãe (devido a cistos no útero), sobrou-nos da cantora sua voz, seu misticismo, sua figura marcante. Não tenho como ponderar a comoção que sua partida gerou, aos 39, mas sendo ela tão presente e baseada nos relatos do autor, arrisco-me a dizer que foi uma perda irreparável. Primeiro, por que ela não deixou herdeiros sangüíneos nem musicais; segundo, por que ninguém, jamais, conseguiu imita-la. Ficou um enorme vácuo.
Em tempo: Clara Nunes morreu em abril de 1983, depois de sofrer um choque anafilático durante uma cirurgia de varizes. Passou 28 dias em coma até ser declarada morta pelos médicos. Curandeiros, rezadeiras, pais-de-santo, gente de todo tipo de amontoou no hospital querendo levar cura à cantora.
Tudo bem. Não houve quem substituísse Maysa ou Elis (apesar de Maria Rita). Também não enxergo suplentes para Gal, Betânia, Nana Caymmi. Talvez estejamos numa entressafra, salvo algumas minguadas exceções.
Abaixo, um dos grandes sucessos de Clara, Feira de Mangaio. Excelente interpretação de alguém que cantava com gosto e com alma. "Clara Nunes - Guerreira da Utopia" é uma leitura mais que recomendada àqueles que apreciam a boa música.
Salve Clara Nunes!
Sobre Clara:
“À Clara foi negado o direito de ter um filho. À Clara foram negados tantos direitos em troca dos aplausos que ganhou aqui e pelos cantos do mundo”
Tom de Clara:
“Você passa, eu acho graça/ Nessa vida tudo passa e você também passou...”
Clara, por Clara
“Cantar pra mim é como respirar, eu não saberia viver sem isso.”