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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Quantos, Pernambuco?

Sim, então.

Na semana passada, no dia 26 de maio, prenderam o assassino de Alcides. Um outro rapaz, de 28 anos, chamado João Guilherme.

Qual o pesar dessa história? Ficamos sem Alcides, ficamos sem o final apoteótico para contar, na desolação da espera que não chegou. A história morreu como Alcides: sem explicações, num estampido. É como um filme de final frustrante - e como toda história que não teve a chance de terminar, dói a dor do inexplicável, dói as dores sem porquês. O que seria Alcides, se João não tivesse lhe cruzado o caminho? Estaria, no final deste ano, recebendo seu diploma de biomédico pelo qual ele tanto se dedicou.


O suspeito pelo crime, Guilherme Nunes da Costa, o Guiga, 28, e o adolescente de 16 anos conhecido por Baby não mataram o jovem por engano, mas sim, para "não perder a viagem". Segundo o delegado Cláudio Castro, responsável pela prisão de João Guilherme nessa quarta, o acusado teria dado o primeiro tiro em Alcides e o de menor, o segundo. A demora na prisão aconteceu porque João Guilherme conhecia o 'modus operandi' da polícia, de acordo com o secretário de Defesa Social, Wilson Damásio.
No fim de maio, Dona Maria Luiza foi recebida pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que num gesto "humanitário" atendeu de pronto ao pedido dela por uma casa. Também providenciou estágios para as duas filhas, que também são universitárias. Dona Maria Luiza saiu do Palácio agradecida, sem saber que, em sua posição, Eduardo representa o Estado omisso que deixa a população à mercê da violência que levou Alcides. Que estender-lhe a mão era o mínimo que ele podia fazer enquanto governante de um lugar tão ingrato quando este. Poderia tentar, mas não consigo me sensibilizar.


Há três anos atrás, quando Alcides passou no vestibular, apareceu em rede nacional como um vencedor, foi recebido pelo reitor da Universidade com toda pompa que um bom exemplo merece. Era digno de tudo aquilo. É digno que, agora, depois de ver o filho por quem tanto lutou morto na porta de casa, Dona Maria Luiza sinta-se "grata" pela bem feitoria do Estado que, talvez querendo aliviar para si mesmo a vergonha, está fazendo o mínimo? Os filhos dela nunca tiveram que deixar os livros de lado para colocar comida dentro de casa. Isso, ela mesma fazia, todos os dias, catando papelão e vendendo espetinhos na rua. E, sem ajuda de homem nenhum, criou os quatro filhos que pôs no mundo com uma dignidade pouco vista. Tirou de onde não tinha o conhecimento para passar-lhes: era o único caminho que poderia ter-lhes apontado para que não tivessem o mesmo destino que ela tivera.

Crédito: Rebeca Kremes (Diario de Pernambuco)

Os links disponíveis neste texto mostram os dois extremos desta história. A alegria da vitória, a satisfação de contar uma história que estava apenas começando e seu final.




E ainda vamos ressuscitar essa história outras vezes. É uma das formas de não deixar Alcides morrer.

domingo, 9 de maio de 2010

Memória para não esquecer

Fez três meses que Alcides morreu. Três meses que o mataram, do nada, quando ele já estava pertinho, pertinho de pôr as mãos em seu suado diploma de biomédico. Ele ia terminar o curso em setembro e encher, de novo, o peito de Dona Maria Luiza de orgulho. Eu estudo na UFPE, mesmo lugar onde ele estudava. Muitas vezes, quando vou chegando para assistir aula, lembro-me dele.

Nesses três meses, nada de assassino preso. Nada de justiça feita. As coisas continuam onde pararam: no nada, no vazio, no silêncio que Alcides deixou.

O assunto continua como destaque do Blog de Jamildo, numa tentativa que ninguém esqueça que mataram Alcides.

Nada ainda. Nada.
Vamos continuar no nada?

Encontrei com a mãe dele, dona Maria Luiza, hoje pela manhã. Ainda estava vestida de orgulho, com o jaleco branco do filho. Faltava bem pouquinho para ela dizer ao mundo que era mãe de um biomédico. Pouquinho para dizer que não era mais uma. Contou todo o sofrimento. Disse que ainda se agarrou com os assassinos. Mas não teve jeito. Conseguiu evitar apenas o terceiro tiro. Os dois primeiros já haviam interrompido o seu maior sonho. Maria Luiza voltou a ser mais uma.
Clique AQUI para relembrar na íntegra.

Eu vou continuar lembrando...

"E na sua meninice/Ele um dia me disse que chegava lá..."

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