terça-feira, 9 de novembro de 2010

O dedilhar feroz de Yamandú

Esse fim de semana, desenterrei o meu CD de Yamandú Costa tocando com Dominguinhos, um fascinante exemplar da mais legítima música brasileira. Pode soar exagerado, mas de fato, a aposta foi certeira. A gravação é de 2007, da Biscoito Fino, e eu "ganhei" no aniversário do ano passado (as aspas: foi uma troca. De novo, pela quinta vez, eu tinha ganho "Samba meu", de Maria Rita), numa garimpagem pouco trabalhosa na Passa Disco.

Mas, voltando.

Vale a pena dar uma voltinha nas faixas do álbum. Particularmente, eu gosto da 9.

Eu vi Yamandú tocando ao vivo uma vez, durante a Mostra Internacional de Música de Olinda (a Mimo), em setembro de 2007, e poucas vezes vi algo tão impressionante. Foi por sso que quando bati o olho no CD, não consegui desistir da ideia de leva-lo.

Yamandú Costa, gaúcho, músico, autodidata, é talvez o melhor violonista vivo no Brasil. Ele é, na minha opinião (até por Dilermando Reis já ter partido). Assustador, fascinante e intrigante.


sábado, 6 de novembro de 2010

Musique-se

Total fã dos Titãs da década de 80.
E essa letra me dispensa de qualquer obrigação de comentários.

Go back



Versão: TitãsComposição: Sérgio Britto e Torquato Neto
Você me chama
Eu quero ir pr'o cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
Se passou, passou
Daqui prá melhor
Foi!...
Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder
Só quero saber
Do que pode dá certo
Não tenho tempo a perder...(2x)
(...)
-"Não é o meu país
É uma sombra que pende
Concreta
Do meu nariz em linha reta
Não é minha cidade
É um sistema que invento
Me transforma
E que acrescento
À minha idade
Nem é o nosso amor
É a memória que suja
A história que enferruja
O que passou
Não é você
Nem sou mais eu
Adeus meu bem
Adeus! Adeus!
Você mudou, mudei também
Adeus, amor! Adeus!
E vem!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A (nossa) vida e suas verdades

Eu só tenho 27 anos e 3 meses. São quase 10 mil dias de vida. Acho pouca coisa. A terra de bilhões de anos. E eu só tenho 27.

O arrudeio é pra ajudar na pseudofilosofia de hoje. O danado do tempo é um grande piadista, faz você pensar que conhece as coisas, as pessoas. Deve ficar te observando, todo senhor de si, e, quando você menos espera, te puxa o tapete. Vai te provar que, na verdade, você não conhece ninguém, não sabe de nada e, muitas vezes, que não conhece a si mesmo. Pior é quando o sujeito do engano é alguém bem próximo de quem você não espera contravenções. Mas eu aviso aos mais inocentes que me lêem: acreditem que até seu irmão é capaz de te surpreender. Negativamente, na maioria das vezes.

Tem um texto creditado a Shakespeare que diz que as pessoas erram mesmo e que você tem que estar preparado pra perdoá-las. Isso foi em 1600 e alguma coisa. Quer dizer, as porradas que a gente leva e dá são ciência há séculos.

Tava lembrando de uma coisa básica. Eu tenho um amigo que é físico e, anos atrás, me ajudando para uma prova do colégio, pegou uma bola e jogou na parede bem devagar. A bola voltou devagar. Depois, sacudiu a bola com força e ela, claro, voltou como bala. Então ele sentou, escreveu umas fórmulas e explicou sobre a lei da ação e reação. As coisas vão e precisam voltar; vão e voltam na mesma proporção. Nada existe sem ocupar espaço, sem interferir no entorno.

Mas, só pra lembrar, o bem e o mal têm proporções diferentes. É como um copo de água e outro, igual, mas cheio de óleo. Pesos diferentes, entendem? Padre Luís (nosso mentor espiritual) dizia que, se você fizer bem a "João", isso ficará entre vocês dois; se você fizer mal, todo mundo ficará sabendo.

São das regras da vida. E, de verdade, são difíceis de aceitar, mesmo que você já tenha quase 10 mil dias de incansáveis lições.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dilma e os impasses da política econômica

[íntegra da matéria publicada na edição de hoje da Folha de Pernambuco]

Em 1º de janeiro, será encerrada a Era Lula. De certa forma. Com a eleição de Dilma Rousseff, o espírito é muito mais de continuidade que de recomeço. E com Dilma eleita, atenção para a economia brasileira, um dos pilares mais fortes da política lulista. É necessário que os cidadãos acompanhem as especulações quanto ao destino econômico, rumo que interfere diretamente na vida de todos.

O professor de Economia da Faculdade Boa Viagem (FBV), Antônio Pessoa, considera positiva a manutenção da atual política econômica, responsável por boa parte do que o País conquistou nos últimos anos. "Mas deve haver algumas mudanças. Lula assumiu o governo com o Real desvalorizado e hoje temos o inverso: um mercado interno crescendo, especialmente para as classes C e D. Agora, é necessário o controle do gasto público", explicou. 

Os analistas vêm o cenário mais favorável para o início do governo Dilma. Estável. Com isso, pode-se apostar em uma reforma tributária. Antônio Pessoa analisou que o ICMS (o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) pode ser alvo das mudanças com a retomada das discussões a respeito do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) que incide no mercado de destino, que o poderia substituir. "Essa questão já está em debate na Câmara, mas o governo precisará de muita negociação já que a mudança onera o estado de origem", disse Pessoa. Hoje, funciona assim: se Pernambuco compra mercadorias de São Paulo, 17% do valor é pago à Fazenda paulista e Pernambuco fica com a diferença entre esse percentual e a tarifa do ICMS estadual. Se for de 25%, no final das contas, Estado fica com 8%. Com o IVA, o imposto é pago à fazenda do estado de destino.

A medida mais "emergencial" para Dilma é a política cambial. "Não é algo que se faça de imediato, é uma questão mundial. Com o Real valorizado frente ao Dólar, por exemplo, nosso produtos ficam mais caros lá fora e os importados, mais baratos por aqui", analisou Antônio Pessoa. Outro ponto é a da dívida pública. Sim, deve haver o controle, mas o professor explicou que a brasileira não é tão alta, ficando em torno de 40% do Produto Interno Bruto (PIB). "É administrável por medidas como redução da taxa de juros, administração do gasto público e a manutenção do crescimento da economia", enumerou.

Analistas consultados pelo Banco Central aumentaram a estimativa de expansão para o PIB brasileiro em 2010 - de 7,55% para 7,6%. Para 2011, a projeção tem se mantido nos 4,5% há 47 semanas. "Certamente o crescimento durante o primeiro ano do governo Dilma será menor, aposto na variação entre 5% e 5,5%. Se houver em 2011 um PIB tão alto quanto neste ano, é provável que haja inflação", analisou Antônio Pessoa. "A vantagem do programa de governo do PT é o crescimento descentralizado, mais que no governo de Fernando Henrique Cardoso", destacou. O professor lembrou ainda que Dilma terá vantagens como a Petrobras à frente do Pré Sal. Mas, antes de qualquer coisa, Dilma foi eleita por e para suceder o governo Lula. Aliás, uma grande responsabilidade.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Com Keith, num sábado à tarde [e num domingo à noite]



Estava por aqui aproveitando um momento ócio, que há tempos não me dou, e lembrei da minha penúltima ida a São Paulo, em agosto, quando visitei a exposição de Keith Haring, no Conjunto Nacional.



Eu gosto bastante do tipo de obra, das cores e, principalmente, do que ele comunica. Haring, assim como Cazuza, foi contaminado pela Aids na década de 80. Cazuza disse certa vez que, lendo sobre a doença, teve certeza de que seria "tocado" - Keith Haring disse:

"Em minha vida, fiz muitas coisas, ganhei muito dinheiro e me diverti muito. Mas também vivi em Nova Iorque no ápice da promiscuidade sexual. Se eu não pegar Aids, ninguém mais pegará".


E aproveitando o ínicio da madrugada da segunda...




Nessa exposição, ganhei um exemplar de "O livro da vida", escrito em memória desse artista americano que nasceu em 4 de maio de 1958 e faleceu em 16 fevereiro de 1990, em decorrência de complicações causadas pela Aids. No livro, há passagens bem interessantes a respeito da forma como Haring lidou com a doença. Segundo Antonio (infelizmente, não sei de quem se trata, mas ele assim assina o texto), Haring era um ser disciplinado e aplicado em seu trabalho, "uma pessoa transbordando otimismo, luz, humor e alegria".

Após o diagnóstico da contaminação pelo vírus da Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida (Sida, na sigla em Português), Keith Haring tornou-se assíduo na procura de tratamento e de informações sobre a doença. Mas, claro, seus alegres e coloridos desenhos tornaram-se sombrios. [O mesmo aconteceu com Cazuza - principalmente as músicas de "Burguesia" têm o peso da doença na vida do artista].


Não surpreendemente, apesar de enérgico como sempre, sua vida tornou-se um pouco menos otimista - não em razão de alguma auto-piedade, nem a atitude envenenada e temerosa em relação ao HIV/Aids nos anos 80, os preconceitos terríveis e a demonização da comunidadegay em particular e a inutilidade de todos os tratamentos disponíveis. Como pessoa, ele se tornou um pouco mais reservado e um pouco menos "disponível". Trabalhou mais do que nunca, viajou mais do que nunca, doou mais generosamente do que nunca e quando veio a público com o seu diagnóstico (...), experimentou em primeira mão as reações mistas que essa confissão traz. (Pimblott et al, sem data)



Bem semelhante aos problemas enfrentados por Cazuza aqui no Brasil. E sabe o que mais? Eu não tenho como terminar esse post de forma melhor do que dar voz ao próprio Keith Haring:


Não importa quanto tempo você trabalhe, sempre vai terminar em algum momento. E há sempre coisas deixadas inacabadas. E não importa se você viveu até 75 anos. Ainda haveria novas ideias. Ainda haveria coisas que desejou ter concluído. Você pode trabalhar por várias vidas. Se eu pudesse me clonar ainda haveria muito trabalho a fazer - mesmo se houvesse cinco de mim. E não há arrependimentos. Parte da razão de eu não estar tendo dificuldade em enfrentar a realidade da morte é que ela não é uma limitação, de certa forma. Poderia ter acontecido a qualquer momento, e isso vai acontecer um dia. Se você vive sua vida de acordo com isso, a morte é irrelevante. Tudo o que estou fazendo agora é exatamente o que eu quero fazer".

sábado, 30 de outubro de 2010

E, como sempre, ele tem a razão

"Perfeição é coisa pra menininha tocadora de piano". (Nelson Rodrigues)
(
Por favor, não me deixem esquecer disso).

sábado, 16 de outubro de 2010

Momento mulherzinha

Tudo bem que tem gente que diz que o IC é um blog cabeça, mas, antes de tudo é um espaço democrático. É um espaço para o bom gosto. E tudo bem que no quesito "homem", meu dedo é podre, como já me disseram algumas amigas, mas isso não pode ser impedimento para que eu aprecie os mais bem acabados da espécie. Sim, claro, até com respaldo de Cazuza, que dizia sabiamente que é a tal da futilidade que nos salva. E pra mim que tenho vivido momentos tensos durante o dia, chegar em casa e dar de cara com a edição de outubro da Rolling Stones foi um bálsamo. Meninas, apreciem:


Foi pouco, eu sei. Mas como eu estou numa fase bem generosa (e até paciente demais), coloquei outras. Até por que, pra quê se contentar com pouco se você pode ter mais?







Os sem-graça, chatos, bobos e infantis que me perdõem, mas ser homem é fundamental. Ok, ok, pelo menos na aparência, ele e tudo, né?

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Lições para um repórter de rua

Dia a dia de repórter é difícil, pode acreditar. Começa pelo horário - você pode até saber que horas começa, mas nunca a hora que vai conseguir apurar tudo e dizer tchau ao editor. É cansativo, muitas vezes penoso, mas a gente se diverte (ou não) e aprende (e muito) todos os dias.

Fui pautada para acompanhar a volta ao trabalho dos bancários, que estavam em greve desde o dia 29 de setembro. Às 10h, já estava pelo meio do mundo, perguntando às pessoas sobre eventuais problemas causados pela paralisação de 15 dias. Olhem, é na rua, abordando estranhos e buscando informações, onde estão as verdadeiras lições do jornalismo.

Entrei com a fotógrafa Nathália Bormann na agência da Caixa Econômica Federal que fica próxima ao Teatro de Santa Isabel para conversar com as pessoas que estavam na fila sobre seus afazeres nesse primeiro dia de retorno. Eis que abordo uma senhora negra, aparentemente de uns 40 anos:

- Bom dia, como é o nome da senhora?
- Bom dia, é Marize...
- Com "z" ou com "s"? [eu, anotando]
- Não sei, olhe aqui... [ela, me entregando a carteira de identidade]
- É com "z", dona Marize... a senhora faz o quê?
- Tomo remédio controlado
- Ah, sim... e a senhora veio fazer o quê aqui no banco?
- Vim buscar o auxílio moradia. R$ 150, minha filha, vê se pode... 

E dona Marize me contou que completa o aluguel do apartamento onde vive com mais sete pessoas com mais R$ 100. "Não dá pra nada", resmungou, antes de seguir na fila. Dona Marize estava naquela fila pra pedir nova senha ao banco - ela não lembrava mais da antiga e esperou os 15 dias da greve para sacar o dinheiro.

Eu aprendo todo dia que o mundo aí fora é bem grande. Muitas vezes, triste e injusto.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

"Cada um enxerga o que quer ver"

Do Acerto de Contas, a velha (e caquética) imparcialidade do jornalismo:


Na legenda da foto, lê-se:

SEM COMUNHÃO Dilma assiste a missa em Aparecida (SP) ao lado de Gabriel Chalita (PSB); ela não comungou e deu a entender que a doença a reaproximou de Deus”

Leitor, duvide, investigue, use o google:



Ambas imagens, de Joel Silva, da Folhapress.
Preocupante.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Na agulha

Baby, suporte
Composição: Cazuza



Suporte baby, baby suporte
Suporte baby, baby suporte

Amor escravo de nenhuma palavra
Não era isso que você procurava?
Não viu no fundo da retina a mágoa?

A luz confusa onde tudo é o nada...

A esperança está grudada na carne
Que diferença há entre o amor e o escárnio ?
Cada carinho é o fio de uma navalha

Oh, baby, não chore
Foi apenas um corte
A vida é bem mais perigosa que a morte
Suporte
Oh, baby, suporte

Suporte baby, baby suporte
Suporte baby, baby suporte

sábado, 2 de outubro de 2010

"Brasil, mostra a tua cara"

Bem, às vésperas do dia em que é fundamental lembrar quem somos, eu achei essa notícia do site de Cazuza. Trata-se do manuscrito de "Brasil", presente de George Israel para Serginho Groisman.

É bom lembrar do que diz a letra. É bom lembrar que ela foi escrita em 87 e continua fazendo todo sentido. Na verdade, é triste.


Não, inveja é coisa feia, medito.


"Sempre tive horror de política, mas tem coisas que você não precisa saber, qualquer burro vê. 'Brasil' é uma música crítica mas não tem nada a ver com uma fase 'política'. Eu simplesmente passei o ano passado (86) do lado de dentro e quando abri a janela, vi um País totalmente ridículo. O Sarney, que era o não diretas, virou o 'rei da democracia'. 'Os fãs de hoje são os linchadores de amanhã' (frase de Millôr citada em "Vai à luta"). O Brasil é um triste trópico".

Cazuza, em 20/03/1987